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Crítica | Calls – 1ª Temporada

por Ritter Fan
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Calls poderia muito bem ser classificado como um audiodrama com screensaver, mas isso seria reducionismo e muita má vontade com esta série originalmente francesa criada por Timothée Hochet que teve sua versão americana capitaneada por Fede Álvarez para o Apple TV+. Má vontade porque há uma sana grande por obras “originais” (seja lá o que for isso) e pouco reconhecimento quando algo realmente diferente aparece por aí. Calls pode não revolucionar o mundo, mas a breve série de apenas nove curtos episódios é uma boa ideia executada de maneira muito eficiente que consegue criar tensão e, pode não parecer nos primeiros capítulos, conta uma história consistente e fechada, com começo, meio e fim (ou algo parecido).

Sem entrar em qualquer tipo de detalhe para não estragar as surpresas, Calls é enganosamente simples em sua premissa: cada episódio gira exclusivamente em torno de ligações telefônicas entre duas ou mais pessoas lidando com uma situação, como no caso de The End, o primeiro capítulo, que começa com um invasor no jardim de uma mulher em Nova York enquanto ela conversa com seu namorado em Los Angeles. Quando digo que a série é enganosamente simples é porque ela realmente é a reunião de vozes legendadas (a legenda – ou transcrição dos diálogos para ser preciso – é parte da série e não algo que pode ser ligado e desligado) por sobre um protetor de tela básico.

Mas quando realmente começamos a prestar atenção, notamos que ela é mais do que isso. E não falo aqui da história em si, com cada ligação aparentemente desconexa funcionando para nos dar um panorama de uma situação macro em comum que a cada capítulo torna-se mais bizarra, mas sim da conjunção da arquitetura sonora, aí incluídos os ótimos trabalhos de vozes de atores como Aaron Taylor-Johnson, Aubrey Plaza, Ben Schwartz, Clancy Brown, Pedro Pascal, Rosario Dawson e Stephen Lang, com as sugestivas “imagens” (as aspas se justificam, pois não são exatamente imagens, mas sim linhas interativas, por assim dizer) digitais que pulam pela tela. A ausência de rostos, de cenários e de qualquer contexto físico maior que a premissa em si nos faz ficar perdidos e colocando a imaginação para girar a mil por hora tentando conectar as pontas e estabelecer lógica interna, ao mesmo tempo que somos hipnotizados pela tensão que cada episódio é capaz de construir, como no já citado The End, mas também no excelente Pedro Across the Street, que faz o melhor uso dos gráficos e nos aflitivos Me, Myself & Darlene e Is There a Scientist on the Plane? que, de quebra, encaixam muitas peças do quebra-cabeças.

Há, talvez, um pouco de repetição temática, com talvez mais histórias do que o necessário lidando com adultério. Não que o tema em si seja problemático ou que eu pessoalmente tenha algum pudor em relação a ele, mas é que quando ele se torna uma muleta narrativa usada de maneira incessante, ele perde seu valor e todo o “fator surpresa”. Claro, não é algo terrível que faça com que a temporada vá por água abaixo, mas teria sido interessante outras escolhas dramáticas. Além disso, o derradeiro episódio, Leap Year Girl, conectado estreitamente com o anterior, cai na armadilha narrativa das explicações exacerbadas, quase que inteiramente criando uma trama paralela razoavelmente inédita para amarrar as pontas e dissecar o como e o porquê de tudo. Se, por um lado, essa amarração funciona, por outro ela carrega o ônus de ser didática talvez demais, ainda que a solução para o drama seja de fato interessante, ainda que não exatamente inédita.

Sob qualquer ponto de vista, Calls é uma tensa – e também muito divertida – novidade descompromissada que borra a linha entre o audiovisual e o audiodrama, entregando uma história intrigante, completa e recheada de vozes conhecidas, com a assinatura do uruguaio Fede Álvarez cada vez mais firmando-se no cenário hollywoodiano. Resta saber se haverá uma segunda temporada e, em havendo, se o showrunner conseguirá manter o frescor narrativo considerando-se as limitações impostas pela própria premissa.

Calls – 1ª Temporada (EUA/França – 19 de março de 2021)
Criação: Timothée Hochet
Showrunner: Fede Álvarez
Direção: Fede Álvarez
Roteiro: Fede Álvarez, Nick Cuse, Aidan Fitzgerald, Noah Gardner, Rodo Sayagues
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Aubrey Plaza, Ben Schwartz, Clancy Brown, Danny Huston, Danny Pudi, Edi Patterson, Jaeden Martell, Jennifer Tilly, Joey King, Johnny Sneed, Judy Greer, Karen Gillan, Laura Harrier, Lily Collins, Mark Duplass, Nick Jonas, Nicholas Braun, Paola Nuñez, Paul Walter Hauser, Pedro Pascal, Riley Keough, Rosario Dawson, Stephen Lang
Duração: 148 min. (nove episódios)

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