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Crítica | Campo dos Sonhos

por Ritter Fan
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Nós simplesmente não reconhecemos os momentos mais significativos da vida enquanto eles acontecem.  Naquele tempo, eu pensava, ‘Bem, haverá outros dias’. Eu não sabia que aquele era o único dia.
– Dr. Archibald “Moonlight” Graham

História verdadeira: como desde que me conheço como gente, procuro ver todos os candidatos ao Oscar de Melhor Filme antes da cerimônia, lembro-me vividamente de ter deixado Campos dos Sonhos por último em minha lista no começo de 1990, por ter lido a sinopse e, dentre os cinco concorrentes, ter considerado de longe o menos interessante. Para minha surpresa, porém, depois de inevitavelmente conferi-lo de má vontade, eis que ele se tornou imediatamente meu favorito na corrida e um longa que até hoje eu admiro e revejo sempre que posso.

E o triunfo do filme dirigido e escrito por Phil Alden Robinson, com base no romance Shoeless Joe que W.P. Kinsella publicou em 1982, é sua simplicidade, honestidade e a forma direta, sem tentar criar reviravoltas ou mistérios como o cineasta aborda o realismo mágico da premissa. Claro que a simpatia e carisma de Kevin Costner como o alter ego do escritor, Ray Kinsella, além da presença imponente e magnética de James Earl Jones como o recluso escritor Terence Mann (personagem que faz as vezes de J.D. Salinger, usado no romance e que resultou em um autor enfurecido) e da emocionante ponta de ninguém menos do que Burt Lancaster, como o Dr. Archibald ‘Moonlight’ Graham, no que seria o último papel cinematográfico desse gigante de Hollywood, ajudam e muito na apreciação do longa.

Na história, o fazendeiro Kinsella, que vive com sua esposa Annie (Amy Madigan) e filha Karin (Gaby Hoffmann) em sua humilde plantação de milho no Iowa, um dia houve uma voz misteriosa dizendo e repetindo “se você construir, ele virá”. Seguindo esse chamado sobrenatural instintivamente, ele parte para construir um campo de beisebol em parte da terra dedicada ao milharal, imediatamente ameaçando a saúde financeira de sua família, mas resultando no aparecimento do fantasma de ninguém menos do que Shoeless Joe Jackson (Ray Liotta), famoso jogador que, depois do escândalo conhecido como Black Sox, em que o White Sox foi acusado de perder propositalmente para o time rival na final de 1919, foi expulso para sempre do esporte juntamente com outros sete. Mas a magia da coisa continua e, então, Kinsella começa uma jornada de autoconhecimento e reparação pelos EUA que o leva até os citados Terence Mann e o Dr. Archibald ‘Moonlight’ Graham, cada um com um objetivo diferente, em uma espécie de road movie representativo da América.

Apesar de onipresente, o aspecto sobrenatural da obra não é mais do que o motor para dar partida à história, quase que funcionando como um MacGuffin, até porque não há explicações, aprofundamentos e nada semelhante a isto para aqueles que porventura adorem essas racionalizações. A magia faz parte da infraestrutura narrativa, como se simplesmente fosse parte do mundo e pode ser equalizada à fé religiosa, mas nunca nada próxima do fanatismo que normalmente se conecta a ela. Kinsella é, somente, um homem simples e impulsivo que faz aquilo que acha que está certo, sem necessariamente procurar recompensas. Lógico que há uma bela amarração sobre quem exatamente é o “ele” que a mensagem original menciona, ainda que seja possível dar mais de uma resposta para essa indagação.

O que realmente importa, o que é completamente independente da presença do sobrenatural, é o que o texto adaptado de Robinson procura passar e que ecoa, ainda que de maneira menos direta, o romance em que o roteiro foi baseado. Kinsella tem dúvidas sobre suas escolhas de vida, tem um passado complicado com o pai, simplesmente não sabendo ou, talvez melhor dizendo, não verdadeiramente reconhecendo o que de maravilhoso ele tem ao redor. Sim, ele ama sua esposa e filha, mas ele não parece deixar que essa conexão familiar o satisfaça. Um personagem, quando aparece pela primeira vez no campo, pergunta para Ray se ele está no paraíso, ao que fazendeiro responde simplesmente que eles estão no Iowa, e aí está o ponto de toda a obra. O que é o paraíso, afinal de contas? E não falo aqui do Paraíso com P maiúsculo das religiões, mas sim aquele lugar que representa a felicidade para alguém ou o lugar em que esse alguém encontrou ou sentiu mais felicidade. É isso que é perguntado a Ray e é justamente isso que Ray aprende a reconhecer ao longo de sua jornada.

E quantos de nós temos a felicidade – ou uma felicidade, se pudermos quantificá-la já que felicidade não é algo que temos sempre, 24 horas por dia, sete dias da semana – e não a reconhecemos como tal? Quantos de nós ou deixamos passar o momento como nada especial ou como mais um dentre tantos sem compreender o que ele pode significar? E, pior, quantos de nós está cercado de felicidade e simplesmente não dá valor a ela? Campo do Sonhos, até por seu gostosíssimo ritmo contemplativo que as lentes sem filtro e de pegada naturalista que Robinson imprime, é um convite a pararmos para respirarmos fundo, para relaxar a tensão dos ombros e para simplesmente olhar ao nosso redor, seja qual for nossa realidade específica.

O mundo tem magia, podem ter certeza. Nós é que não queremos ou não sabemos vê-la, não conseguimos interpretá-la nas pequenas coisas do cotidiano e, no final das contas, acabamos por soterrá-la debaixo de desejos mundanos, demandas artificiais e criadas por terceiros, além de uma fuga para coisas materiais que vira uma competição incessante conosco mesmo, uma verdadeira auto sabotagem. Quando eu saí daquela sessão de cinema no longínquo ano de 1990, meses antes de sequer ter idade para dirigir, tive a certeza de ter assistido algo especial e raro. Campo dos Sonhos é um alerta para nós apreciarmos e, por diversas vezes, nos contentarmos com o que “simplesmente” temos ao alcance de nossas mãos. Isso é que temos que ter a maturidade de construir em nossa mente.

Campo dos Sonhos (Field of Dreams – EUA, 1989)
Direção: Phil Alden Robinson
Roteiro: Phil Alden Robinson (baseado em livro de W.P. Kinsella)
Elenco: Kevin Costner, Amy Madigan, Gaby Hoffmann, James Earl Jones, Ray Liotta, Timothy Busfield, Burt Lancaster, Frank Whaley, Dwier Brown, Lee Garlington, Michael Milhoan, Steve Eastin, Charles Hoyes, Art LaFleur
Duração: 107 min.

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