Crítica | Cartas Natalinas à Mãe, de Rainer Maria Rilke

O gênero epistolar é a cara da contemporaneidade, pois o leitor se debruça na vida alheia para esmiuçar as intimidades entre destinatários e remetentes. Assim, neste tipo de leitura, as pessoas que têm acesso às cartas se torna um voyeur tomado pela curiosidade, algo característico de alguns seres humanos.  Vários escritores canônicos tiveram as suas obras transformadas em clássicos da literatura mundial, alguns por meio de cartas como documentos históricos dotados de elementos de construção sofisticados, alçados ao patamar da “boa literatura”, outros por meio da adoção de traços epistolares ao tecer suas respectivas narrativas ficcionais.

Em Cartas Natalinas à Mãe, o escritor Rainer Maria Rilke traz em suas cartas, endereçadas durante 25 anos para a sua mãe, textos impregnados de muita intimidade, tecidos entre a ternura e o afeto, mas também preenchido por uma postura gélida e fria, distante, num relacionamento aparentemente complexo entre mãe e filho. Autor de outras obras renomadas, tais como Cartas a Um Jovem Poeta e O Livro das Horas, o poeta teve a correspondência trocada com a sua mãe Sophia publicada neste livro, um material que apesar de tedioso em alguns trechos, haja vista a frieza da escrita do autor ao desejar “feliz natal” anualmente para a sua matriarca, radiografa um subtexto cultural e político em constante movimento, um traço da “modernidade” que se estabelecia da onda de acontecimentos oriundos da virada do século XIX para o XX, uma das transições históricas mais conturbadas da história registrada da humanidade.

Em suas viagens e experiências de contato com outros povos e culturas, Rilke traz para o seu texto curiosidades e registros de situações políticas impactantes, fruto das transformações do continente europeu nos primeiros 25 anos do século XX. Traduzido direto do alemão por Maria Aparecida Barbosa, a versão lançada no Brasil possui 128 páginas diagramadas com leveza e elegância, além da capa simples, mas significativa, adornada pela junção do branco, do verde e do vermelho, cores conhecidas por simbolizar o natal. Poeta de língua alemã, Rilke também escreveu em francês, o que ajudou na disseminação da sua obra em outros ramos linguísticos.

Antes do término, uma pergunta. A relação é de saudade, como registrado em todas as cartas, algumas mais contemplativas, outras mais breves, a maioria fria. No entanto, por que o escritor não dedicou parte do seu tempo para visitar a mãe durante os festejos natalinos anuais, preferindo a intimidade distante de uma carta? Em alguns trechos as cartas são imparciais e burocráticas, o que nos leva a pensar que o escritor dedicou o tempo de produção apenas para cumprir uma demanda de sua meta anual. Soa estranho para quem espera aquela sensação de amor e ternura de um período conhecido pela caridade, fraternidade e o divertido, mas famigerado, consumismo básico de nossas práticas capitalistas.

Cartas Natalinas à Mãe dialoga com as considerações de Foucault no ensaio A Escrita de Si, parte integrante da publicação “O Que é Um Autor?”. Ao longo de sua reflexão, o filósofo aponta que a carta “é uma abertura de si que se dá ao outro”, o remetente se entrega ao olhar do destinatário. No Brasil, os pesquisadores Walnice Nogueira e Marcos Morais alegam que a carta deixou de ser documento histórico para se tornar também texto literário. A afirmação vem com as possibilidades de pesquisa científica promovidas com a leitura de Linguística e Poética, do formalista russo Roman Jakobson, um grande nome do campo das Letras e da Semiose.

No percurso histórico da literatura, as cartas passaram por um processo de transformação, mas ainda há algumas polêmicas no que concerne a sua condição de documento ou texto literário. Ou até mesmo as duas coisas. Não é algo fechado no terreno da pesquisa científica no campo dos estudos literários e históricos, mas é um questionamento interessante para reflexão. O que podemos dizer das Cartas Persas, de Montesquieu? E de Rousseau em A Nova Heloísa? Como não se encantar com o clima sórdido de As Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos? Até mesmo José de Alencar flerta com o gênero na escrita de Paulo, narrador de Lucíola, uma das obras mais importantes do nosso romantismo literário.

O que Rilke faz anualmente é documento? Sim, mas também é material literário de qualidade. Como entretenimento é tedioso, pois as cartas oscilam no tom constantemente, mas não há como negar a sua importância para os estudos acadêmicos e compreensão de um turbulento e produtivo “momento histórico”. Nas palavras de uma excelente professora do curso de Letras na Universidade Federal da Bahia, “um livro teórico: sem apelo para entreter, mas importante para compreender”. O verbo compreender, neste caso, aplicado ao processo de significância do material literário para a história cultural, mesmo que não seja um deleite no que tange aos momentos que chamamos de “passatempo”.

Cartas Natalinas à Mãe (2007)
Autor: Rainer Maria Rilke
Editora no Brasil: Editora Globo
Tradução: Maria Aparecida Barbosa
Páginas: 128.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.