Se no universo televisivo a terceira temporada costuma ser o ponto alto de uma série, no cinema, a continuação de um filme pode cair em dois resultados: ser superior ao primeiro ou se tornar uma sequência desnecessária. O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, Homem-Aranha 2 e O Retorno da Múmia são exemplos de sequências que funcionaram por elevar o potencial de suas respectivas histórias. E no caso de Casamento Sangrento: A Viúva, mesmo antes da confirmarem a produção do filme, os diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett vinham reproduzindo os elementos que deram certo no anterior, o que detona um vício da dupla em autorreferenciar os filmes que dirigem em todos os trabalhos. Então, a explosão de corpos como um gore inesperado não surpreenderia mais audiência que viu no desfecho do longa de 2019 uma efeito cômico e mórbido numa ideia quase original, mas lá vamos nós para um novo round do esconde-esconde satânico que promete não entregar mais do mesmo.
O maior desafio para a dupla do repeteco foi encontrar um bom motivo para retornar sete anos depois, como fruto do que conseguiram trabalhar em Pânico VI e Abigail, neste caso, dois filmes de terror embalados em set pieces. Embora divertido, Ready or Not parecia estender demais o pique-esconde mortal, então, para essa sequência é: o dobro ou nada ou mais do mesmo… e Gillet e Bettinelli-Olpin estavam tão seguros da sequência que a inicia com a cena de Samara Weaving fumando um cigarro como forma de continuar a mitologia sem ideias mirabolantes. Ao evitar o caminho da sátira sobre casamentos, Ready or Not: Here I Come abraça de vez o lado violento do jogo demoníaco ao colocar seis famílias disputando a cabeça da final girl pela liderança da organização, assim, o que temos aqui é uma sacada semelhante ao jogo de alvo e assassinos visto em John Wick, expandindo o campo narrativo com novos riscos.
O luto por não dirigirem a versão que pretendiam de Pânico 7 reflete na escolha de adicionar Kathryn Newton no elenco como Faith, irmã de Grace (Weaving). A química entre as duas atrizes é o que sustenta a sequência, uma vez que o cerne da amizade e luta pela sobrevivência das irmãs sobressai a busca por domínio e sangue entre as famílias. Um bom exemplo disso, é como a relação entre os gêmeos Titus (Shawn Hatosy) e Ursula (Sarah Michelle Gellar) contrapõe o núcleo das protagonistas com a busca de poder e manipulação a fim de que um deles lidere o Conselho. Enquanto trabalha a dinâmica dos personagens, o roteiro amplia o jogo de gato e rato com mais cenários e violência, o que faz de A Viúva ser mais do que uma sequência do filme cult e irreverente de 2019.
Nesse sentido, os corpos explodindo com sangue para todos lados é utilizado como uma gag — assim como Grace sem conseguir fumar um cigarro para se acalmar — por não ser mais um elemento que será divertido como na primeira vez, então, o que resta em Here I Come é se apoiar no jogo sádico de matança entre milionários que servem a satã. Voltar para essa mitologia é divertido, principalmente por investirem em um desfecho gótico que não quer repetir o efeito do antecessor, e sim terminar a história de maneira fechadinha, aproveitando a chance de poder explorar mais do pique-esconde sem ambição de, por ora, fazer uma franquia de “A Noiva: Uma História Satânica de John Wick” com o argumento de ter uma regra desconhecida para voltar ao game.
Mesmo com a chance de explorar a mitologia ao próprio estilo e termos, a dupla do repeteco dá um jeito de inserir nostalgia e referências na busca de sempre bater nessa tecla repetitiva. E no caso de Casamento Sangrento 2: A Viúva, a presença de Gellar ao elenco abre caminho para acenos a Buffy: A Caça-Vampiros, o que vai desde o visual de Faith e o coque-alto inabalável ou quando Grace é golpeada no ombro como se fosse atingida por uma estaca. A dupla é boa, sem dúvidas, mas tendem a soar amadores por apelarem para o forro da nostalgia enquanto desperdiçam o potencial de trabalharem a ação em uma escala maior, além da câmera simulando movimentos corporais.
Casamento Sangrento: A Viúva (Ready or Not 2: Here I Come – EUA, 2026)
Direção: Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett
Roteiro: Guy Busick, R. Christopher Murphy
Elenco: Samara Weaving, Kathryn Newton, Elijah Wood, Sarah Michelle Gellar, Shawn Hatosy, David Cronenberg, Dan Beirne, Olivia Cheng, Antony Hall, Varun Saranga, Nadeem Umar-Khitab, Masa Lizdek, Nestor Carbonell, Maia Jae, Juan Pablo Romero, Kevin Durand
Duração: 108 min
