Crítica | Cinderela Pop

“DJ Cinderela.”

Sempre interessante, embora não seja tão original assim, propor revisões aos contos de fadas, em reinterpretações de premissas classicistas, agora sob vieses contemporâneos. O primeiro de uma franquia, Cinderela Pop, inspirado na obra de Paula Pimenta, possui esse tratamento repaginador, mesmo que um tanto quanto confortável, com pessoas ricas, colégios ricos, ambientes ricos e ares ricos. Quando o amor nos dias atuais, no entanto, apresenta-se como uma proposta anacrônica, de um tempo tão passado que já se torna supostamente inatingível, acreditar nele é um ato de coragem, quiçá um ato de fé. Contudo, seria Cinderela Pop uma reimaginação “séria” ou paródica?

A questão amorosa é, por exemplo, a única noção mais consciente do longa-metragem. O resto todo do projeto promove uma versão ainda mais higiênica que Cinderela, a clássica animação. Pois aqui, as problemáticas nem podem ser vistas como reais, porém, próximas a adversidades artificiais que minimizam as relações do público com os personagens. O pai da protagonista, Cíntia Dorella (Maisa), trai a sua esposa no aniversário do casamento deles, trocando-a pela secretária maléfica, não quer que sua filha se torne DJ, movido por preconceitos, e ainda acredita em invencionices descaradas, fabricadas pela vilã do longa-metragem. Não é o maniqueísmo datado?

Como se importar com esse embuste, no final das contas? Por sinal, mais desgraças surgem do nada no enredo, num piscar de olhos. Cinderela Pop torna os conflitos que presume à trama pouco sensíveis quando recorre ao mesmo artifício narrativo para impulsioná-los. Diante de um problema, a personagem de Maisa é impedida de se explicar ou contar a verdade, crescendo ainda mais o mal-entendido boboca que a sua madrasta, interpretada por Fernanda Paes Leme, criou. O texto repete a mesma fórmula várias e várias vezes, tanto no relacionamento da garota com o seu pai burro, quanto no relacionamento da garota com o “príncipe”. O gato Lúcifer era um mal bem maior.

Os problemas são caricaturais. Os personagens, em suma, também são. Mas Cinderela Pop move-se por uma vontade pelo empoderamento de suas figuras femininas, fora a madrasta e uma das gêmeas, que aparentemente se alicercearia em preceitos sociais mais relevantes. O filme, portanto, ora é mais jocoso, sem freios para a comédia, ora mais sentimentalista, com passagens que beiram o piegas, e ora é mais sincero, com o empoderamento decorrendo de uma verdade narrativa. Fora o escopo amoroso, porém, que é um pouco mais coerente, todas as outras esferas comentadas são apaziguadas por um senso mais paródico da razoável direção e do doente roteiro.

No enredo, Cíntia Dorella (Maisa) e Freddy Prince (Filipe Bragança) são jovens sonhadores unidos por aquelas coincidências das mais absurdas, contudo, honestas quando o absurdismo mesmo é o amor por si só. Cíntia quer uma carreira de DJ, e renega o amor. Por outro lado, Freddy quer o amor, e já tem uma carreira musical consolidada. Cinderela Pop não possui muitos segredos em como transportar esse relacionamento para as telas, com passagens clássicas do conto de fadas sendo adaptadas para contextos mais populares, onde existe internet e celulares. Mas a intenção da obra costuma ser, às vezes, mais sentimental que sincera. Então, a comédia torna-se sua alma.

O resultado seria superior caso a obra abraçasse mais alguma de suas vertentes. Maisa, a exemplo, possui presença. Já a artista que interpreta a amiga de sua personagem, Bárbara Maia, consegue ser melhor, em termos de atuação, que o arco repetitivo que recebeu para o papel. Tendo que se render a uma redundância cansativa para conquistar um certo garoto que não a quer, Bárbara ameniza o impacto de um texto não tão bom ao mostrar-se uma atriz mais expressiva, movimentando-se bastante em cena e gesticulando muito, mas nunca chegando na zona da caricatura como outras personagens. O roteiro também tem os seus momentos de mais inspiração.

Eis um longa mais bobinho que realmente subversivo, embora consiga justificar a reimaginação de Cinderela, que contém no seu cerne e explora parcialmente. Usa o maniqueísmo como muleta, mas os atores, menos Marcelo Valle, canastrão, conseguem ultrapassar a zona do entendiante. Fernanda Paes Leme parece estar se divertindo. A musicalidade da obra também é questionável, sem conseguir nos fazer crer na sua diegética, porém, sempre parecendo estar dessincronizado. Uma pena que Cinderela Pop possua mais espírito em sua premissa, e algumas execuções pontuais, do que na sua estrutura narrativa e no anseio pelo melodrama, que opta com recorrência.

Cinderela Pop – Brasil, 2019
Direção: Bruno Garotti
Roteiro: Bruno Garotti, Flávia Lins e Silva, Marcelo Saback (baseado em livro de Paula Pimenta)
Elenco: Maisa, Fernanda Paes Leme, Kiria Malheiros, Giovanna Grigio, Filipe Bragança, Bárbara Maia, Marcelo Valle
Duração: 95 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.