Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Contágio (2011)

Crítica | Contágio (2011)

por Leonardo Campos
381 views (a partir de agosto de 2020)

Pandemias, surtos e outros acontecimentos que desestruturam a “nossa ordem” são momentos pontuais para a análise do comportamento humano. A atual onda do vírus que tem provocado mudanças radicais na economia, na política e na sociedade em 2020 representa uma das pandemias que mais sacolejou o planeta nos últimos séculos, num alcance gigantesco por causa das nossas dinâmicas de interação global. Como também estamos mergulhados numa era sem precedentes na história do compartilhamento de informações, tornou-se mais delineado observar como a humanidade pode ser boa e ruim em medidas semelhantes. Do vídeo que apresenta um jovem belga supostamente contaminado a espalhar saliva num metrô aos profissionais de saúde que se arriscam em prol da resolução da crise, eventos pandêmicos mostram o melhor e o pior da nossa sociedade.

Contágio, dirigido por Steven Soderbergh, é um entre tantos filmes sobre o assunto. A sua diferença em comparação aos demais é a maneira como desenvolve a história, com os excessos comuns ao terreno ficcional, haja vista ser uma produção de entretenimento, não um documentário institucional encomendado pela OMS ou pelo nosso Ministério da Saúde. Guiado pelo roteiro de Scott Z. Burns, o suspense nos apresenta uma pandemia de origem animal, assustadoramente crível, principalmente da maneira didática que é mostrada no desfecho do filme, o dia 01 da contaminação, afinal, observará que a narrativa se desenvolve a partir do segundo dia de desdobramento do vírus que parte de um morcego, atrela-se aos porcos e ganha a sociedade por meio de nossas práticas gastronômicas, dentre outros meios de contato.

Dirigido com firmeza por Soderbergh, veterano ao assumir produções com linhas narrativas múltiplas, Contágio abarca três setores da sociedade: o cidadão comum, as instituições públicas e a mídia, pilares importantes para que haja ritmo nos elementos dramáticos que nos são apresentados. Na seara cidadã, temos Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow), a paciente-zero, mulher que viajou para Hong Kong a trabalho e tornou-se vetor de propagação do vírus nos Estados Unidos. Em seu retorno, ela apresenta os problemas da contaminação e transmite para o seu filho Clark (Griffin Kane). Ambos são as duas vítimas levadas sem piedade logo nos primeiros minutos de filme. Mitch (Matt Damon), seu marido, é testado, mas não chegou a ser contaminado, o que não o impede de manter-se na luta pela sobrevivência diante do caos.

Em paralelo, acompanhamos outras trajetórias, mas é na família Emhoff que os conflitos do setor cidadão se desenvolvem. Dr. Ellis Cheiver (Laurence Fishburne) representa as autoridades ao comandar a pesquisa do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) e mediar a investigação da Dra. Erin Mears (Kate Winslet). A OMS é representada pela Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard), personagem que causa certo desconforto diante do sumiço abrupto no meio da história, sem o devido desenvolvimento, quando comparada com os demais. Ela, como ilustração da presença de uma organização em nível mundial, deveria ter sido melhor aproveitada pelo roteiro que consegue se erguer na boa exposição das outras histórias. A mídia, grande vilã, ganha forma por meio de Alan Krumwiede (Jude Law), blogueiro conspirador que presta desserviços informativos, mesmo que as suas teorias tenham alguma proximidade com as nossas desconfianças diante das instituições que nos regem.

Assim, da exposição sobre a dinâmica fômite da contaminação, isto é, a presença do vírus em superfícies que podem estar comprometidas, dai a importância da higienização, comentada pela personagem de Kate Winslet, temos os questionamentos de Krumwiede sobre quem vive e quem morre, num debate acerca das prioridades na vacinação, listas que nem sempre obedecem preceitos éticos. O personagem de Fishburne é a prova cabal disso, ao injetar a vacina em sua esposa por gozar de privilégios internos, mesmo a moça sendo o número 287 de uma gigantesca lista. Há também uma abordagem bem realizada da propagação do medo, além de hábitos culturais questionáveis, tais como o ato de um homem em um metrô ao filmar o ataque de uma vítima ao invés de prestar socorro. Em todos blocos narrativos presenciaremos personagens inconvenientes, os chamados sem noção, como não poderia deixar de ser em situações emergenciais como as apresentas em Contágio.

Os segmentos ganham a devida coesão com a edição eficiente de Stephen Mirrione, profissional que tem como material, as imagens captadas pela boa direção de fotografia de Soderbergh, em dupla jornada interna, cineasta que contou com o design de produção de Howard Cummings e os efeitos visuais da equipe de Thomas J. Smith, setores tornam o filme uma experiencia visualmente gratificante. Os cenários assinados por Cindy Carr permitem que estejamos constantemente em diálogo com as dimensões sociais e físicas dos personagens, criaturas que circulam por espaços domésticos, escritórios, laboratórios ou até mesmo por espaços públicos, ambientes que ajudam no processo imersivo, delineados pela também eficiente direção de arte da equipe de Simon Dobbin, repleta de objetos significativos.

Além de toda visualidade apurada, Contágio é uma produção que goza dos privilégios de uma eficiente trilha sonora, condução musical comandada por Cliff Martinez, textura percussiva que ganha maior impacto junto ao design de som de Billy Theriot. Ademais, Contágio é eficiente ao abordar a importância da pesquisa científica no desenvolvimento de uma sociedade politizada e consciente. Estamos vulneráveis a todo tempo e o histórico das grandes pestes e pandemias nos últimos séculos comprova isso muito bem, da disseminação da Peste Bubônica, ao HVI, passando pelas gripes (espanholas, aviárias, etc.). Sem parecer panfletário, o filme destaca como as indústrias, em especial, a farmacêutica, lucram bastante com o caos alheio, além de demonstrar sem excessos a maneira como nos comportamos quando as coisas são do fio retilíneo que empregamos para a nossa agenda diária.

Farmácias são invadidas, os consumidores disputam produtos nas prateleiras, indo da gentileza aos tapas quando as ofertas se tornam escassas, além da constante pressão governamental diante da comunidade científica, setor geralmente tratado como inimigo da economia capitalista. O mundo paralisa, o pânico torna-se generalizado, a mídia cria reportagens tendenciosas e atualmente, alguns perfis de redes sociais e aplicativos como o whatsapp trabalham na proliferação de fake news. Um horror absoluto! No entanto, produções de grande alcance assim não devem generalizar o ciberespaço, pois há também uma grande parcela da sociedade civil e da mídia engajadas na disseminação de informações que diminuam os impactos de tantas falácias. É o que faltou com Contágio: uma abordagem mais plural da cultura da mídia, pois parece que na internet há espaço apenas para desinformação.

Fora isso, a produção cumpre a sua função de ser bom entretenimento e ainda permitir muitas reflexões. De tão relevante, tornou-se um hit quase dez anos após o seu lançamento, haja vista a atual situação do planeta diante do COVID 19, popularmente chamado de corona vírus, segmento da microbiologia que ganhou abordagem na 12ª temporada da infinita Grey’s Anatomy e provavelmente vai ser tema de muitos filmes e documentário nos próximos anos. Segundo jornalistas e outros especialistas no campo da informação, o número de acessos ao filme em plataformas cresceu vertiginosamente das primeiras semanas de 2020 ao atual panorama pandêmico. A sociedade comprova, mais uma vez, as teorias da recepção que flertam sobre a necessidade da arte ao metaforizar as nossas fobias sociais mais profundas. Contágio ilustra de maneira mais eficiente que A Gripe e Epidemia, os desdobramentos sociais diante das doenças da globalização, oriundas do turismo das trocas culturais, das locomoções intercontinentais, bem como os seus velozes vetores de transmissões e a importância de encontrar o paciente zero.

Contágio (Contagion) — Emirados Árabes/Estados Unidos, 2011
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns
Elenco: Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Howie Johnson, Ira Blumen, Iris Kohl, Jason Babinsky, Jennifer Ehle, Jim Ortlieb, Jimmy Chung, John Hawkes, John Hines, John Hoogenakker, Joseph Anthony Foronda, Josh Pollock, Joshua Rollins, Joshua Seiden, Joshua Weinstein, Josie Ho, Jude Law, Kara Zediker, Kate Winslet, Kumi Yoshida, Kwok-Wah Wong, Larry Clarke, Laura Fisher, Laurence Fishburne, Marion Cotillard,
Duração: 106 min.

Você Também pode curtir

12 comentários

Robson Costa 1 de maio de 2020 - 16:36

Ah, a única coisa que achei inverossímil no filme e, que conhecendo razoavelmente bem o mundo da Ciência, duvido que ocorreria, é o modo como SPOILER

….a vacina é descoberta. Dificilmente um cientista se auto-aplicaria a vacina pra testar. Foi um modo rápido do filme tentar solucionar o caso logo.

Responder
Robson Costa 1 de maio de 2020 - 16:27

Até a “cloroquina” está no filme….com outro nome, mas “mesmo papel”. Felizmente ainda não vimos na situação atual em 2020 alguns casos que o filme mostra, como saques, etc…até o momento a população mundial está de parabéns, até quando não sei, mas tenho esperanças.

Responder
Robson Costa 1 de maio de 2020 - 16:27

Gostei muito do filme e concordo com a escolha de mostrar o lado nefasto da mídia nesses casos, por Dois motivos: 1-O filme ia ficar com muita informação e não era o foco Central discutir a mídia. 2-A mídia que presta informação séria, não faz mais do que o seu papel, então acho importante o filme mostrar essa midia(?) perigosa, em muitos casos assassina mesmo. Devemos confiar no discurso científico, pois, por mais “incerto” que seja, ainda é o mais certo e confiável (como digo aos meus alunos).

Responder
Hugo Andrade 2 de abril de 2020 - 11:14

A vida imitando a ficção mais uma vez, infelizmente, nesse caso!

Responder
alfonses 22 de março de 2020 - 15:17

Que experiência desagradável assistir esse filme hj. É impressionante como o filme é realístico, guardadas as devidas proporções.

Responder
Pt Andrade 22 de março de 2020 - 14:15

torcendo pra que a vida n imite o número de mortos do filme

Responder
Brontops 20 de março de 2020 - 20:58

Revi recentemente esse filme com as crianças. Tenso.

Adorava a “paradinha” da câmera nos objetos tocados pelo doente. Aquele silêncio que dizia muito.

A taxa de infecção da encefalite viral do filme – que ficou sem um nome próprio – é a mesma do coronavírus (o tal r=02, ou seja, 2 novos infectados pra cada pessoa doente); a mortalidade na encefalite era de 20%, o número de internações (de pessoas que precisam do respirador mecânico) do coronavírus também é de 20%. Os dados talvez fossem inspirados no SARS que havia ocorrido apenas há alguns anos.

– – –
Esse filme seria classificável como um filme catástrofe? Pensei nisso ao rever o filme cheio de atores importantes, me lembrou um pouco o elenco de “Inferno na Torre”, “Destino do Poseidon” e tantos outros menos bons.

– – –
Depois de jogar Pandemia (boardgame) pela primeira vez, me lembrei do filme também. Achei curioso que tantos lugares citados ou mostrados eram presentes no jogo. Deve ser só coincidência. Ou então tanto o filme quanto o jogo usaram as mesmas referências, não sei.

.

Responder
leodeletras 20 de março de 2020 - 23:57

Sim @brontops:disqus , filmes sobre pandemias, ataques zumbis e outras metáforas também estão dentro deste subgênero.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 20 de março de 2020 - 19:22

Eu vi esse filme no cinema. Dá um negócio estranho pensar nele e olhar a situação em que o planeta vive hoje.

Responder
leodeletras 20 de março de 2020 - 23:57

São os tais filmes premonitórios, não é? Eu o tinha aqui em DVD há anos e nunca dei confiança. Recentemente indiquei para uma amiga professora de Microbiologia num curso de Saúde e o filme ficou gravitando até essa semana, quando vi que disparou nas buscas.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de março de 2020 - 00:27

Aff, nem me fala. E o mais triste é a gente olhar que existem exemplos reais de tragédias similares acontecendo na Europa e que já está entre nós, mostrando o pior de si logo logo. É complicado.

Responder
Lucas Casagrande 21 de março de 2020 - 17:47

TB vi na época em 2011 no cinema e as coincidência assustam um pouco mesmo

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais