Estupidez nonsense, imbecilidade ultrajante, sarcasmo, ironia e um protagonista que faz humor sem alterar as feições do rosto (o famoso deadpan) é tudo o que um filme como Corra que a Polícia Vem Aí! precisa ter para dar certo. Ou quase tudo. Há uma qualidade muito importante e dificílima de ser alcançada em um nível realmente satisfatório, que é tecer um emaranhado interminável de gags e piadas verbais e visuais em primeiro, segundo e terceiro planos a ponto de realmente exaurir o espectador, seja pelo esforço mental de não perder nada, seja pelas dores estomacais causadas por tantas risadas. Na verdade, eu resumiria da seguinte forma: uma obra desse subgênero da comédia que não foi exatamente inaugurado, mas sim popularizado tremendamente pelo espetacular Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu, antecessor dos antecessores diretos da continuação tardia sob análise, precisa fazer com que o espectador tenha “medo” de rir tanto, porque cada risada o faz perder pelo menos as cinco piadas posteriores.
Pois bem, sem maiores delongas, devo dizer que o novo Corra que a Polícia Vem Aí!, que aporta nos cinemas nada menos do que 31 anos após a segunda continuação da trilogia de filmes baseada na série Police Squad!, até se esforça, mas não consegue alcançar esse nível, algo que seu diretor e corroterista Akiva Schaffer, por incrível que pareça, aproximou-se mais com o criminosamente pouco comentado Tico e Teco: Defensores da Lei. Não, não revirem os olhos com os comentários deste crítico chato e de nariz empinado, pois, como eu disse mais acima, filmes dessa estirpe precisam dessa qualidade especial de ser como uma “metralhadora de piadas disparada sem piedade” conforme afirmou meu colega Kevin Rick na crítica da série de 1982 e o roteiro escrito por Schaeffer ao lado de Dan Gregor e Doug Mand (esses dois últimos roteiristas de Tico e Teco, o que me faz pensar que talvez o problema seja Schaeffer…) é, no máximo, um rifle semiautomático que ainda por cima às vezes engasga.
Mas deixem-me rebobinar um pouco e falar do que o filme tem de excelente. Sua maior qualidade, de muito longe, é a inspiração em escalar Liam Neeson para viver Frank Drebin, Jr., filho de Frank Drebin, personagem vivido pelo saudoso Leslie Nielsen. Não só Neeson é um ator que não para de se reinventar, tendo vivido um bandido bonzinho em Krull, super-herói sombrio em Darkman, benfeitor da humanidade em A Lista de Schindler, hippie culpado pela ascensão de Darth Vader em A Ameaça Fantasma, exterminador de qualquer um que chegue próximo da filha em Busca Implacável, o maior filme oitentista produzido depois dos anos 80, e, desse ponto em diante, um badass mais imparável que o T-800, como ele realmente se dedica a seus papeis, sem discriminá-los. E, agora, ele entra para a categoria de comediante escrachado que funciona em várias camadas, seja na fortuita semelhança dos nomes dos atores e o fato de ambos terem vindo de uma filmografia séria, a piada embutida que é ele ser um ator com mais de 70 anos em um filme feito 31 anos depois de seu personagem “nascer” (sim, Frank Drebin, Jr. “nasce” em Corra que a Polícia Vem Aí 33 1/3 – O Insulto Final) e a inescapável conclusão de que seu estilo de deadpan é muito diferente, mas igualmente hilário ao de Nielsen. Afinal, enquanto Nielsen segue a linha do “sério aparvalhado”, da escola de Charles Chaplin e Peter Sellers, Neeson abraça com vontade a seriedade que diz com o rosto “eu vou te procurar, vou te encontrar e vou te matar”, trazendo seu Bryan Mills para as situações mais escalafobéticas, ou, pelo menos, é isso que eu ouvia na minha cabeça toda hora. Há espaço até mesmo para uma pegada genuinamente cheia de ternura que referencia a esposa falecida de seu personagem e como ele se afastou de romances desde então, exatamente como infelizmente aconteceu na vida real com Neeson.
A escalação de Pamela Anderson, estonteante no alto de seus quase 60 anos, é igualmente uma escolha inspirada, especialmente porque, como acontece com Neeson, ela vive uma femme fatale que é autoconsciente do sex appeal que ela sempre teve, algo que o roteiro não se cansa em usar nas mais inusitadas situações, inclusive em uma ótima “montagem de amorzinho” em um chalé nevado que vai gradualmente ficando mais e mais absurda, como um filme dentro do filme. O restante do elenco é, apenas, o restante do elenco, com Paul Walter Hauser vivendo Ed Hocken, Jr., filho, claro, do Capitão Ed Hocken do também saudoso George Kennedy, CCH Pounder como a Chefe de Polícia Davis que quer limpar o Esquadrão de Polícia, e os naturalmente ameaçadores Danny Huston e Kevin Durand como os vilões com um plano maligno que somente Drebin pode impedir, todos igualmente subaproveitados, não fazendo muito mais do que pontas de luxo que, no agregado, são menos engraçadas do que uma real ponta de um ator inesperado lá na “luta final”.
Sobre o humor, ele é bom quando é autoconsciente das vidas e carreiras de Liam Neeson e Pamela Anderson e razoável quando tenta fazer críticas ferinas à polícia, aos bilionários insensíveis e desequilibrados e assim por diante, com alguns momentos realmente ótimos como é a sequência inicial em que Drebin impede um assalto ao banco em que a P.L.O.T. Device é roubada (uma das tantas piadas intraduzíveis, apesar do esforço da legenda), a narração em off que é interrompida por outras narrações em off, o “um dia na vida de Drebin” conforme filmado por sua câmera da viatura e, claro, a gag recorrente do copo de café que vai em um crescendo muito bem sacado, mas que, de repente, acaba, como se os roteiristas tivessem se esquecido dela ou ficado sem ideias para mais. E sim, as piadas são constantes, mas não no nível atordoante que era necessário para fazer o filme funcionar de ponta a ponta e sem a mesma coragem da série e filmes originais em cutucar feridas. Fica até parecendo que Hollywood, nas últimas décadas, decidiu acelerar vertiginosamente as sequências de ação e proporcionalmente frear as sequências cômicas, fazendo com que a nova versão de Corra que a Polícia Vem Aí! nunca realmente corra, somente ande e, mesmo assim, mancando.
O novo exemplar da franquia Police Squad! sem dúvida diverte e Liam Neeson e Pamela Anderson estão perfeitos em seus respectivos papeis, mas faltou ao longa pisar fundo e acelerar de verdade na quantidade e na qualidade de seu humor para ser um sucessor realmente digno das criações da era de ouro dos irmãos Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker. É, para todos os efeitos, uma versão tolhida e tímida do que veio antes e que parece tentar correr com o freio de mão puxado o tempo todo, com medo de fazer as curvas na velocidade que precisava.
Obs: Há uma cena pós-créditos bem lá no final, mas os créditos todos são cheios de easter-eggs bacanas, inclusive Neeson cantando, pelo que vale ficar para ver tudo com atenção (e anotem a senha do Netflix!).
Corra que a Polícia Vem Aí! (The Naked Gun – EUA, 2025)
Direção: Akiva Schaffer
Roteiro: Dan Gregor, Doug Mand, Akiva Schaffer (baseado em série de TV e série cinematográfica criadas por Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker)
Elenco: Liam Neeson, Pamela Anderson, Paul Walter Hauser, Danny Huston, CCH Pounder, Kevin Durand, Liza Koshy, Eddie Yu, Moses Jones, Cody Rhodes, Busta Rhymes, Jon Anik, Michael Bisping, Bruce Buffer, Dave Bautista, John McCarthy, Weird Al Yankovic, Justin Gaethje, Kamaru Usman, Jason MacDonald, Priscilla Presley
Duração: 85 min.