Não há nada de errado em ter uma ideia para uma reviravolta bacana e construir uma série ou filme para encaixá-la. Até realmente creio que esse caminho inverso deve ser bastante comum, de O Sexto Sentido a Os Suspeitos e Ilha do Medo, só para citar alguns de uma infinidade de outros – baseados ou não em obras literárias, como é o caso aqui -, mas o importante é que justamente toda a história pareça o mínimo possível que não passa de um literal meio que justifica o fim. É, diria, aí que está a mágica e o pulo do gato que nem sempre é alcançado. Dele & Dela, infelizmente, é um caso claro de “reviravoltite aguda”, em que os roteiros parecem muito mais preocupados em puxar o tapete do espectador a cada episódio do que realmente contar uma história que se sustente, algo bem diferente, por exemplo, da recente All Her Fault.
A premissa é até interessante, ainda que forçada, colocando um marido policial competindo com sua esposa jornalista que ele não vê há um ano em razão de uma tragédia pessoal pelo solucionamento de um assassinato na cidadezinha de Dahlonega, na Georgia, com um desconfiando que o outro pode ser o culpado. De um lado, temos Jack Harper (Jon Bernthal), detetive muito claramente escondendo alguma coisa e fazendo o máximo para afastar sua parceira novata Priya Patel (Sunita Mani) da direção certa e, do outro, Anna Andrews (Tessa Thompson) que se afastou do mundo e, por isso, perdeu sua posição de âncora de telejornal para Lexy Jones (Rebecca Rittenhouse), suspeitamente reaparecendo justamente no dia seguinte à morte de uma mulher por quarenta facadas em cima do capô de seu carro na floresta da mencionada cidade.
Entre um Jon Bernthal fazendo mais um personagem igual ao primeiro que interpretou em sua carreira e uma Tessa Thompson sem nenhum material para tornar seu papel minimamente interessante, com os dois gerando tanto calor quando juntos quanto a superfície de Plutão, e uma trama que é bombardeada e, portanto, sabotada, pela necessidade patológica de os roteiristas tentarem dar de espertos e inventando moda a cada 15 minutos, com segredos quase infantis brotando como ervas daninhas, os seis razoavelmente curtos episódios da minissérie acabam se arrastando e criando comicidade involuntária tamanha a implausibilidade de tudo o que vai ocorrendo. E, claro, a cereja estragada nesse bolo solado é a última reviravolta, aquela que é narrada didaticamente à exaustão nos 10 minutos finais e que ainda conta com “esclarecedores” flashbacks para mostrar toda a suposta inteligência dos textos.
Conceitualmente, a reviravolta em si é muito interessante, mas ela, sozinha, não exigiria mais do que um curta metragem e tudo o que é feito estender a história e para levar a trama até ela é tão distante desse momento e tão aleatório, que só resta ao espectador ligar o automático e esperar o tempo passar, talvez aproveitando para imaginar Shane Walsh ou Frank Castle no lugar de Jack Harper e sua hilária incompetência absoluta tanto na investigação como em sua obstrução da investigação. Até mesmo as reviravoltas pré-reviravolta final – são várias, podem ter certeza – não funcionam e só agregam para tornar a história ainda mais boba, mesmo que alguns temas sejam sérios. É como ver um pastiche de série que, se fosse mesmo pastiche, talvez tivesse algum valor. Mas não, Dele & Dela se leva a sério, acha que está realmente lidando com as questões que levanta de maneira relevante, mas tudo o que consegue fazer, no fundo, é frustrar o espectador com uma sucessão de eventos que não parecem fazer parte da mesma história.
Some-se a isso um elenco apático, que não acerta nem mesmo com coadjuvantes como Pablo Schreiber, Marin Ireland, Chris Bauer e Crystal Fox , o que não é culpa deles, mas sim do roteiro inane, e a receita para mais uma “série de algoritmo” se completa. Só há dois aspectos realmente bons na minissérie. O primeiro é que ela só tem seis episódios curtos, evitando que a sensação de que a vida está sendo drenada do espectador seja perpetuada e o segundo é que, como mencionei acima, a comicidade inadvertida, causada em boa parte pelas reviravoltas que têm reviravoltas e pelas explosões de um Jon Bernthal “construindo” um personagem que parece a versão adulta de uma criança contrariada de cinco anos, vale algumas gargalhadas aqui e ali. De resto, a minissérie é uma verdadeira aula magna de como errar feio em uma produção audiovisual.
Dele & Dela (His & Hers – EUA, 08 de janeiro de 2026)
Desenvolvimento: William Oldroyd (baseado em romance de Alice Feeney)
Showrunner: Dee Johnson
Direção: William Oldroyd, Anja Marquardt
Roteiro: William Oldroyd, Tori Sampson, Bill Dubuque
Elenco: Tessa Thompson, Kristen Maxwell, Jon Bernthal, Pablo Schreiber, Marin Ireland, Leah Merritt, Sunita Mani, Rebecca Rittenhouse, Crystal Fox, Chris Bauer, Poppy Liu, Tiffany Ho, Jamie Tisdale, Isabelle Kusman, Astrid Rotenberry, Ellie Rose Sawyer, Mike Pniewski, Rhoda Griffis, Dave Maldonado
Duração: 259 min. (seis episódios)
