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Crítica | Dentes de Dragão, de Michael Crichton

Um faroeste paleontológico.

por Ritter Fan
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Diferente do que uma conferida de relance na bela capa de Dentes de Dragão criada por Will Staehle pode indicar, o terceiro livro de Michael Crichton publicado postumamente não é sobre dinossauros, como a gigantesca cabeça de um T-Rex aponta, mas sim um “faroeste paleontológico”, como o pequenino caubói à cavalo em cima do fóssil revela, inspirado na chamada Guerra dos Ossos, uma corrida por “lagartos terríveis” fossilizados ocorrida na segunda metade do século XIX, nos EUA, notadamente entre Edward Drinker Cope e Othniel Charles Marsh, quando o interesse científico sobre as então ainda misteriosas criaturas começou a ganhar terreno em cima do temor religioso de que as escrituras seriam desmentidas. Escrito em 1974 e engavetado sem maiores explicações por Crichton, que sequer voltou ao romance depois do sucesso de Jurassic Park, o que seria mais do que natural, o livro permaneceu sem ver a luz do dia até 2017, quando finalmente foi desencavado por sua viúva e lançado pela HarperCollins.

Não há, que eu saiba, nenhuma informação confiável sobre o quanto de Dentes de Dragão estava pronto e o quanto foi alterado por um possível “escritor fantasma” para publicação, se é que foi alterado, mas, diferente de outras obras póstumas de Crichton que foram ostensivamente mexidas por escritores variados, como por exemplo a recente e tenebrosa Erupção, co-assinada (e, suspeito, destruída) por James Patterson, o que finalmente chegou às livrarias é um romance que efetivamente parece oriundo da lavra do autor e roteirista falecido em 2008. A leitura é gostosa, ainda que talvez simples demais (falarei mais sobre isso logo adiante), e a história engaja o leitor imediatamente ao colocar o jovem e rico estudante de Yale William Johnson em uma excursão paleontológica para o oeste dos EUA com um grupo liderado pelo professor Marsh unicamente em razão de uma aposta, já que ele pouco se interessa sobre dinossauros ou, na verdade, sobre qualquer coisa. Johnson serve como o tradicional ponto de vista do leitor sobre o conflito entre Marsh e Cope que não demora a esquentar, fazendo todas as indagações que contextualizam os eventos cada vez mais perigosos que ele precisa enfrentar, inclusive e especialmente a guerra entre os nativos chefiados por Touro Sentado e o exército americano.

Quem, como eu, adora paleontologia em geral e dinossauros em particular encontrará uma riqueza de pequenos detalhes relevantes para a história da ciência, ainda que, vale repetir, o romance seja um faroeste e não o relato detalhado de uma expedição científica. O que é fascinante é que Crichton consegue tarnsportar eficientemente o leitor para um momento não muito longínquo no tempo em que dinossauros eram profundamente assombrosos, criaturas capazes de colocar todo o conhecimento e crença humanos e cabeça para baixo, com pioneiros como Marsh e Cope – mesmo considerando tudo o que eles fizeram de errado no afã de terem seus nomes conectados com o maior número possível de descobertas – realmente avançando o campo e abrindo espaço para que, no século XX, ele efetivamente deslanchasse. Usando diversas figuras históricas relevantes indireta (o citado Touro Sentado, além do General Custer e Wild Bill Hickock) e diretamente (os citados paleontólogos, os notórios irmãos Wyatt e Morgan Earp, além da cidade de Deadwood), com o fictício Johnson servindo de tecido conector, Crichton costura uma narrativa que consegue fundir o clássico com o que, na época, era o impensável, o diferente, o pioneiro, em uma aventura que jamais deixa de fincar as estacas de suas críticas aos massacres aos nativos e à ganância humana representada fundamentalmente pela inacreditável rivalidade entre dois homens obcecados por fósseis.

No entanto, apesar de Dentes de Dragão ser um daqueles livros de leitura compulsiva, ele parece mais um rascunho sólido e detalhado do que uma obra verdadeiramente finalizada. Mesmo não considerando Michael Crichton um grande escritor, é inegável que ele sempre se dedicou com afinco à ciência por trás do que coloca nas páginas e, aqui, chama atenção o quanto ela é ausente. Tudo o que se relaciona com as escavações de fósseis é abordado de maneira rasa, simplista, mesmo quando acompanhamos uma grande e famosa descoberta. Até mesmo os fatos históricos que dão contexto a tudo o que ocorria naquela época no oeste americano tem um sabor objetivo demais, como uma definição de enciclopédia e não algo densamente pesquisado. Não há nada, que eu tenha detectado, que esteja profundamente errado, vale notar, até porque é uma obra de ficção, mas o mergulho normalmente mais profundo que Crichton faz em seus romances inexiste aqui. E o mesmo vale para seus personagens. Enquanto os personagens históricos são definidos por suas personalidades e não mais do que isso, o protagonista é um clichê ambulante que passa de estudante metido a um dedicado aprendiz de paleontólogo como em um passe de mágica, em uma jornada de autodescoberta que chega a ser risível de tão rápida e conveniente para a história. Há, também, personagens de uso único que estão ali somente para encher páginas e serem defenestrados em seguida.

Em outras palavras, é possível detectar que Crichton escreveu algo que ainda tinha muitos espaços em branco para serem preenchidos de forma que o resultado final fosse menos linear, menos dependente de tropos literários e que trouxesse alguma densidade aos assuntos abordados e aos personagens reais ou fictícios. Talvez tenha sido por isso que o autor tenha mantido sua obra na gaveta a ponto de provavelmente esquecê-la, ainda que eu seja capaz de apostar que seu lançamento imediatamente depois de Jurassic Park fosse sucesso garantido e, basicamente, o sonho molhado de seu agente. Mas é também muito interessante constatar – se o manuscrito encontrado em seus arquivos for consideravelmente parecido como o que acabou sendo publicado – que Dentes de Dragão é um romance muito bom mesmo com todos os seus problemas evidentes, uma leitura excitante que joga luz em um momento histórico infelizmente muito pouco explorado seja na literatura ou outras mídias que eu gostaria muito que, um dia, fosse levada para as telonas.

Dentes de Dragon (Dragon Teeth – EUA, 2017)
Autoria: Michael Crichton
Editora original: HarperCollins
Data original de publicação: 23 de maio de 2017
Editora no Brasil: Editora Arqueiro
Data de publicação no Brasil: 07 de maio de 2018
Páginas: 304

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