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Crítica | Jurassic Park, de Michael Crichton

por Ritter Fan
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Entretenimento é antitético à realidade.
– Malcolm, Ian

A leitura de Jurassic Park hoje, décadas depois de seu lançamento, talvez não tenha o mesmo efeito original. Afinal, não só uma bilionária franquia cinematográfica originária do livro tornou os dinossauros figurinhas fáceis nas telonas e telinhas, como trouxeram as gigantescas criaturas de volta ao imaginário popular. Tive a oportunidade de ler a obra de Michael Crichton pela primeira vez no ano de seu lançamento nos EUA, 1990, muito antes de qualquer conversa sobre eventual adaptação e lembro-me vividamente da fascinação que senti, mesmo já adulto, pelo material que o então já consagrado produtor, roteirista e romancista americano colocou nas prateleiras das livrarias (ele também era diretor, mas, nesse caso, o adjetivo “consagrado” não se aplica).

Relendo o romance depois desses anos todos, agora tão distante de minha infância como paleontólogo de brinquedos e álbuns de figurinha de dinossauros – coisa rara, mas que existia mesmo antes de Jurassic Park – devo confessar que a fascinação diminuiu, mas muito mais pelo hoje automático reflexo de mentalmente fazer a análise fria de qualquer obra que encaro. Mas que fique claro: ela diminuiu, mas não desapareceu, muito longe disso, aliás, pois Crichton no mínimo merece comenda por ter conseguido popular teorias então ainda razoavelmente pouco difundidas – e que, na verdade, foi o renascimento de ideias originais dos primeiros grandes paleontólogos do século XIX – de que os grandes animais extintos por um cataclismo há 65 milhões de anos não eram lerdos moradores de pântanos e, mais ainda, que seus descendentes, as aves, continuam entre nós.

São essas duas “novidades” dinossáuricas da época que Michael Crichton desencavou para escrever seu livro de enorme sucesso cujo embrião nasceu de um esboço de roteiro que escrevera em 1983 sobre um jovem que desenvolve tecnologia para recriar dinossauros. Engavetando a premissa por faltar um catalisador crível para ela, o autor retornou ao conceito quando ele o reuniu com a base de Westworld: Onde Ninguém Tem Alma, filme que escrevera e dirigira em 1973, ou seja, usando a bilionária indústria do entretenimento como toda a razão do mundo para criar-se um zoológico temático de criaturas trazidas da extinção em uma ilha da Costa Rica por um bilionário que foi muito claramente inspirado em Walt Disney.

Seu romance apresenta ficção como fato, uma escolha literária que, como muitas obras anteriores à dele, notadamente as duas mais clássicas que orbitam o mesmo tema, Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne e O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, permite o imediato mergulho na premissa intrigante já que realidade e ficção passam a se confundir, cabendo ao leitor ter discernimento para separar uma coisa da outra (aliás, esse discernimento está ficando cada vez mais raro, nos dias de hoje…). Não só as citações que antecedem cada parte do livro são extraídas de “falas” de um personagem fictício, mais precisamente de Ian Malcolm, o matemático estrela, especialista na teoria do caos, como os preâmbulos abordam acontecimentos tratados como reais, começando pela evolução da clonagem neste universo – e, aqui, Crichton inteligentemente faz desaparecer por completo a barreira entre fato e ficção, aproveitando para introduzir a InGen, empresa do magnata John Hammond – e continuando com misteriosos ataques de pequenos lagartos na Costa Rica que são costurados com a estrutura de sua história, já que eles são referenciados diversas vezes mais para a frente.

Com isso, o autor consegue apresentar todos os detalhes importantes de sua criação, inclusive a empresa rival que contrata um funcionário terceirizado da InGen como espião para roubar embriões de dinossauros, o que, claro, é o ponto de partida para a ação, sem deixar de mover sua história sempre para frente, com a introdução do paleontólogo Alan Grant e sua estudante e assistente Ellie Sattler, especializada em paleobotânica, em uma escavação patrocinada por Hammond e do já citado matemático Ian Malcolm que, juntamente com o advogado Donald Gennaro, representando os investidores preocupados com a viabilidade do parque, vão até a ilha para, como espera Hammond, darem seu aval. Se a mais completa fascinação do leitor vem por intermédio de Grant e Sattler, que passam a ver ao vivo os animais que conhecem apenas por ossadas fossilizadas (personagens em seguida ecoados pelo casal de netos de Hammond que se juntam à expedição), o cinismo completo,  diria com mais ênfase pessimismo até, vem com Malcolm e sua teoria do caos (à época também ainda muito pouco conhecida do público em geral) que basicamente é uma forma matemática de se confirmar a famosa Lei de Murphy que, abreviadamente, afirma que “se algo pode dar errado, dará”.

Se tem uma coisa que Crichton faz muito bem é abordar teorias científicas – verdadeiras ou inventadas por ele – sem criar barrigas expositivas que cansam o leitor. Diria até mesmo que ele faz isso melhor do que escreve cenas de ação. O primeiro terço de Jurassic Park – ou um pouco mais – é prova cabal de minha afirmação, já que o autor consegue, contra todas as probabilidades, lidar com a descrição dos comportamentos de variados dinossauros, usando o conhecimento científico de ponta da época, além de relacioná-los fortemente às aves (hoje a ciência foi além, com paleontólogos quase que unanimemente concluindo que muitos dinossauros efetivamente tinham penas ou “proto-penas”, dentre outros aspectos fascinantes), ao mesmo tempo em que aborda explicações sobre clonagem, funcionamento do sistema de computador do parque (o leitor moderno certamente rirá de diversos aspectos aqui, mas faz parte), da teoria do caos de Malcolm e até mesmo sobre as necessidades diárias de um parque temático dessa envergadura.

Quando os problemas começam de verdade, com a energia do parque todo sendo desligada pelo espião Dennis Nedry, e a ação então entra a todo vapor, a narrativa passa a ser “normalizada”, ou seja, passa a repetir a estrutura e os cacoetes não só de obras anteriores de Crichton, mas também de bestsellers semelhantes, como uma fórmula padrão. E com isso eu não quero dizer que o romance fica ruim, pois não é nada disso. A narrativa é ágil, fácil de ler, com ritmo constante e com um bom equilíbrio de tempo entre cada núcleo de personagens, com destaque, claro, para Alan Grant e as duas crianças, Tim e Lex Murphy, que permanecem juntos tentando retornar ao coração do parque depois de se separarem do grupo com o ataque do T-Rex. Como tudo ocorre em um intervalo de pouco mais de 48 horas (com exceção dos preâmbulos), não há espaço para muita enrolação e Crichton consegue manter acesa a chama científica em meio a perseguições pré-históricas e diversas mortes. No entanto, no frigir dos ovos, não é um texto particularmente especial no que se refere à ação propriamente dita, apenas muito eficiente no que se propõe, ou seja, de ser algo de consumo fácil, que literalmente obriga o leitor a virar copiosamente as páginas.

Os elementos mais interessantes do romance são salpicados inteligentemente ao longo de sua duração. Malcolm, apesar de ser cientista, é o primeiro a deixar muito claro o respeito pelo divino, pelo inexplicável e pela heresia que é o Homem imiscuir-se em assuntos afeitos aos deuses. Para todos os efeitos, Jurassic Park é uma excelente e original releitura de Frankenstein, de Mary Shelley, em que o Homem cria vida e sequer sabe nomeá-la, artifício repetido algumas vezes ao longo do livro com o uso do geneticista Henry Wu, responsável pelo programa de clonagem do parque, que nunca consegue lembrar dos nomes dos dinossauros.

Da mesma maneira, toda a narrativa sobre a responsabilidade dos cientistas e da Ciência como um todo é exemplar. Há muita crítica embutida no discurso de Malcolm, como os cientistas estrelas que só querem fama usando suas criações para objetivos frívolos, mas também há muito respeito pelos gigantes do meio. Hammond é caracterizado como o bilionário excêntrico e talvez um pouco senil quando mostra-se incapaz de reconhecer seus erros e sua hubris, por vezes sequer entendendo – ou escolhendo não entender – os avisos do matemático que ele descarta como um pessimista incorrigível. É, sem dúvida alguma, um debate fascinante e, mais do que isso atualíssimo.

Apesar de tratar bem seus personagens, é emblemático que Crichton sub-aproveite as duas únicas mulheres de sua obra. A paleobotânica Ellie Sattler, que começa muito bem no livro participando da solução de uma doença que afeta um tricerátops, torna-se uma mera coadjuvante quase que completamente esquecida na narrativa que só ganha uma ou duas breves sequências de ação mais para o final. O contraste com Alan Grant, que recebe muito dos holofotes, é gigantesco. E o mesmo acontece com a jovem Lex que não passa de uma menina teimosa e reclamona sem nenhum interesse pelos dinossauros, além de egoísta, exatamente o oposto de seu irmão Tim, retratado como um Grant jovem. É uma pena que o autor tenha desperdiçado o potencial da dupla feminina.

Mesmo com os problemas detectados, Jurassic Park é um triunfo literário de consumo rápido. A leitura é gostosa, difícil de parar mesmo na releitura e propondo discussões interessantíssimas sobre paleontologia, teoria do caos, ética científica, ambição desmedida e, claro, o eterno debate entre religião e ciência tendo o Homem assumindo o papel de Deus como pano de fundo. Uma aventura literária do mais alto gabarito que mereceu – e ainda merece – toda a atenção que recebeu ao longo dos anos.

Jurassic Park (Idem, EUA – 20 de novembro de 1990)
Autor: Michael Crichton
Tradução: Marcia Men
Editora original: Alfred A. Knopf
Editora no Brasil: Editora Aleph
Páginas: 472

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