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Crítica | Deuses Americanos, de Neil Gaiman

por Ritter Fan
280 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Seria muito cômodo ler Deuses Americanos de acordo com seu valor de face, aquilo que está bem em sua superfície: uma guerra sobrenatural entre deuses antigos e novos tendo Shadow, um ex-presidiário recrutado por um dos lados, como uma espécie de pivô/observador. No entanto, a mais conhecida obra literária de Neil Gaiman, autor de Sandman, não é sobre deuses, sejam eles quais forem, mas sim sobre a construção de mitos e, mais ainda, sobre a construção de um país, sem deixar de crivar seu trabalho de ferinas críticas à sociedade de consumo moderna, algo que pode até mesmo deixar desconfortáveis leitores mais sensíveis.

Quando afirmo que Deuses Americanos não é sobre deuses, apenas quero dizer que é uma história sobre nós mesmos que tem deuses servindo de veículos metafóricos para nossa compreensão sobre o que é venerar algo ou alguém, seja uma figura barbada toda-poderosa, seja um automóvel de último tipo ou até mesmo essa coisa imaterial e difusa que convencionou-se chamar de internet. E engana-se também quem interpreta os acontecimentos descritos na saga de Gaiman como algo circunscrito somente aos Estados Unidos, onde se passa a ação. Sem dúvida, o autor britânico mira nos EUA, mas acerta de maneira ampla a chamada sociedade moderna, ou a sociedade da informação, aquela sociedade caracterizada, acima de tudo, pela efemeridade de tudo a seu redor. Efemeridade de ideias, de desejos, de crenças e de obsessões. Ler Deuses Americanos é, se o leitor tiver habilidade para registrar o que está nas entrelinhas (e às vezes nem tão entre linhas assim), um exercício que o desnuda e o deixa envergonhado, mas também – e principalmente – iluminado e auto-consciente. É como um despertador estridente, mas que começa com o som baixo, discreto, que aos poucos vai se impregnando e ganhando volume.

Quando a narrativa começa, somos apresentados a Shadow, homem grandalhão, mas tranquilo, que está prestes a sair em condicional da prisão onde está há quase três anos. No entanto, não exatamente para sua surpresa, ele recebe a notícia que sua amada esposa Laura falecera e que ele, portanto, sairia alguns dias antes. No processo de volta para casa, ele é abordado pelo misterioso Sr. Wednesday, um golpista que lhe oferece um emprego de natureza não muito clara, mas que se parece muito com o de um guarda-costas, algo que Shadow nega imediatamente, mas cujas circunstâncias o levam a capitular e, enfim, aceitar. O resultado disso é que ele é arremessado em meio a uma vindoura tempestade que potencialmente marca o início da guerra de deuses antigos, que vivem escondidos e muitos quase como indigentes nos EUA, e deuses novos, representantes do que é hoje corrente, como a televisão, a internet, o shopping center.

No entanto, é importante saber dosar as expectativas. Neil Gaiman emprega a maior parte de seu livro para construir esse universo mítico populado pelos mais diversos deuses que vieram para a América nas mentes e desejos de imigrantes e escravos, algo que o autor ilustra primorosamente em interlúdios quase desconectados da narrativa principal, demonstrando um vasto trabalho de pesquisa dos mais diversos panteões. O que quero dizer com isso é que a tal “guerra” é algo relegado a segundo, talvez terceiro plano, pois seguimos exclusivamente a jornada de Shadow, uma jornada que tem perfeita lógica, mas só se o leitor tiver paciência e souber saborear os mais diversos fragmentos de informação que são deixados ao longo do caminho.

Em sua alma, o livro é uma road trip pelos recônditos perdidos dos EUA, com suas realmente míticas atrações de beira-de-estrada, cidadezinhas congeladas, mas perfeitas de uma forma sinistra, pluralidade cultural e, no geral, um ambiente hostil à verdadeira adoração divina, seja ela qual for. Em sua carne, o livro é um estudo sobre a memória e seu papel na criação de entidades sobre-humanas e fantásticas para explicar o inexplicável e o quanto algo ou alguém exige que seja lembrado para que esse algo ou alguém seja o que é ou o que quer ser. Não precisamos falar de deuses para isso. Basta pensarmos e nos perguntarmos se conhecemos nossa história, se conhecemos nossa árvore genealógica, se conhecemos nossa família, se conhecemos nossos colegas de trabalho ou nossos vizinhos. Basta talvez compreendermos que o que hoje veneramos talvez seja apenas nós mesmos, com cada um de nós olhando apenas o nosso próprio umbigo, com um mundo reduzido àquilo que alcançamos com a mão, sem muito (ou nenhum, na verdade) esforço.

Não revelarei segredos, pois uma significativa parte do prazer da leitura dessa obra de Gaiman é aos poucos descobrir que personagens são que deuses antigos. Aqueles que tiverem domínio da língua inglesa, assim como algum conhecimento sobre mitologia nórdica, egípcia, hindu, árabe, africana e outras ganharão essa outra camada de divertimento, com um trabalho detetivesco fascinante. Até mesmo a versão em português mais recente da obra – traduzida por Leonardo Alves – deixa diversos nomes no original, como o próprio Shadow e seu contratante, Sr. Wednesday, assim como a deusa Easter, pois as traduções (Sombra, Sr. Quarta-Feira, Páscoa…) quebrariam completamente os significados pagãos embutidos em muitos deles, em uma decisão que é ao mesmo tempo acertada, por preservar a intenção original do autor e arriscada por potencialmente alienar muita gente. Em não havendo nenhum conhecimento do inglês ou de mitologia, é importante que a curiosidade seja atiçada e que uma pesquisa paralela seja feita para abrir horizontes, algo que o tradutor ajuda a fazer ao final em uma nota ao leitor, mas que só deve ser lida mesmo após o término do livro, pois contém spoilers.

Gaiman rearruma, rearranja e refaz os deuses antigos, emprestando-lhes uma fascinante camada humana, sem esquecer-se de suas principais características divinas. Há pouco desenvolvimento desses personagens fora do eixo Shadow-Wednesday e, mesmo neste eixo, os personagens são tratados mais como arquétipos do que como pessoas completas. Em volta deles, há figuras e nomes novos entrando e saindo quase que sem cerimônia na medida do necessário para a evolução narrativa. No caso dos deuses novos, o “pouco desenvolvimento” que mencionei simplesmente desaparece, sendo substituído por seus “nomes” ou apelidos – um deles, por exemplo, é apenas “garoto técnico”, ainda que ele mais comumente seja classificado por Gaiman apenas como “garoto gordo” – e algumas características marcantes derivadas de seus nomes. E isso pode parece estranho para muitos leitores, especialmente considerando que Deuses Americanos, com robustas 576 páginas, não é um livro pequeno ou de imediata assimilação.

No entanto, há uma lógica por trás dessa escolha, pois sim, foi algo deliberado da parte de Gaiman. A obra é, acima de tudo, como mencionei no começo, sobre um país, sobre a construção de mitos em um país do chamado Novo Mundo com população composta de nativos quase dizimados e por uma pletora de povos europeus, africanos e asiáticos que vieram depois. É a terra que importa aqui, terra essa representada primeiro por uma figura que aparece em sonho para Shadow e, depois, pela jornada que ele e o Sr. Wednesday empreendem pelos EUA. A efemeridade do que conhecemos é um reflexo da efemeridade que Gaiman escancara. O pouco de muito parece valer mais do que o muito de pouco. Parem e pensem e me digam se isso não é uma verdade cada vez mais cultivada e perseguida modernamente? Vivemos em um mundo de 140 caracteres, não um de 1.000 palavras como é essa crítica que será lida por poucos, eu sei. Portanto, desenvolver para que? Mergulhar fundo para que? Gaiman usa um artifício que subrepticiamente vai ficando cada vez mais evidente a cada virar de página. Além disso, os deuses novos são “vividos” por nós diariamente e são facilmente identificáveis ao nosso redor, sendo efetivamente intuitivos, pelo que o desenvolvimento arriscaria ser redundante.

Claro que ele talvez pudesse ter dedicado algumas delas para abordar e aprofundar outros personagens, mas Gaiman cria um universo debaixo do mundo comum e ele tenta abraçar todas as culturas e religiões possíveis, fugindo, apenas, das de origens grega, por ser a mais comumente vista por aí e judaico-cristã para, muito provavelmente, evitar polêmicas ou desvios de finalidade (mas a versão lida contém páginas extras que revelam o que seria o primeiro encontro de Shadow com Jesus Cristo, algo jamais incluído oficialmente nas duas versões existentes da obra). Com isso, ele simplesmente não tem tempo e espaço para assim o fazer, especialmente porque ele preferiu não se curvar a modismos e escrever tomos e mais tomos serializados intermináveis para suprir uma demanda do provavelmente existente e muito presente “deus das coleções”.

E o que ele escreve funciona. E muito bem. Mas só se o leitor estiver preparado para largar o comodismo de lado e descascar a proverbial cebola, mesmo que, para isso, fique com os olhos irritados.

Obs: Li o livro na chamada Edição Preferida do Autor, ampliada por Gaiman em 2003 e publicada mundialmente a partir de 2011. No entanto, além de ler a versão em português, publicada pela Editora Intrínseca e traduzida por Leonardo Alves, escutei quase que simultaneamente o áudio-livro em inglês narrado por George Guidall em uma espécie de experimento que acabou dando certo e que facilitou a compreensão ampla dos trocadilhos e escolhas difíceis do tradutor brasileiro.

Deuses Americanos (American Gods, Reino Unido – 2001/2003/2005/2011)
Autor: Neil Gaiman
Editoras originais: Headline (Reino Unido), Hill House Publishers (Reino Unido – Edição Preferida do Autor – edição limitada), William Morrow (EUA)
Datas de publicação: 2001 (texto original), 2003 (Edição Preferida do Autor – edição limitada), 2005 (Edição Preferida do Autor – somente Reino Unido), 2011 (Edição Preferida do Autor – resto do mundo)
Editoras no Brasil: Editora Conrad (texto original), Editora Intrínseca (Edição Preferida do Autor)
Datas de publicação no Brasil: 2002 (Conrad), 2016 (Intrínseca)
Tradução (edição da Intrínseca): Leonardo Alves
Páginas (edição da Intrínseca): 576

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