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Crítica | Devoradores de Estrelas, de Andy Weir

Perdido no espaço.

por Ritter Fan
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Li Perdido em Marte, o primeiro romance de Andy Weir, logo antes e em razão do então lançamento da adaptação cinematográfica por Ridley Scott. Deparei-me com uma história até simpática, mas que é quase uma Manual de Agricultura em Marte, com o autor dedicando dezenas e mais dezenas de páginas a explicações sem fim sobre a ciência por trás de todos os problemas que são postos perante o protagonista solitário no Planeta Vermelho. Por desgostar desse tipo de obra didática, quando Weir lançou Artemis, em 2017, eu fiz questão de pular a leiturra, mas acabei não resistindo a Devoradores de Estrelas, de 2021, novamente em razão de sua adaptação cinematográfica. Sim, sou fraco…

O mais recente romance do escritor americano é, sem dúvida alguma, uma evolução em relação ao seu primeiro, mas seu estilo “explicativo ao extremo” continua lá intacto, transformando Devoradores de Estrelas em mais um manual de como sobreviver sozinho no espaço, ainda que um manual bem mais interessante e gostoso de ler do que o marasmo que foi acompanhar as peripécias macgyverianas do astronauta botânico Mark Watney. Para começo de conversa, as apostas são mais altas aqui. Bem mais altas. No lugar da sobrevivência de um único humano em Marte, o que está em jogo, agora, é a sobrevivência de toda a humanidade, já  que o Sol está sendo ameaçado por microscópicas criaturinhas batizadas de astrófagos, que se alimentam do astro que sustenta a vida na Terra e que eu considero uma invenção genial do autor. No entanto, a última esperança do pequeno ponto azul em que vivemos é Ryland Grace, um biólogo molecular que, depois de publicar uma tese defendendo que seria possível vida sem água, foi ridicularizado pela comunidade científica e acabou como professor de ciências do primário. Ele acorda de um coma completamente sem memória em uma nave espacial e, então, começam suas desventuras em espaço confinado para primeiro lembrar quem é e o que está fazendo ali e, depois, claro, fazer o que precisa fazer para tentar salvar a Terra.

Apesar de o artifício da falta de memória não ser algo jogado de qualquer jeito, ganhando contornos mais complexos e até “desconstruidores” mais para a frente no romance, a grande verdade é que ele existe muito mais como um instrumento para Andy Weir fazer o que faz de melhor, ou seja, dar aulas de ciência ao leitor, do que para qualquer outra coisa, exatamente como ele fez em Perdido em Marte. Sou o primeiro a reconhecer o valor disso em termos didáticos para quem tem pouco ou quase nenhum conhecimento dessa ordem – nem que seja de forma amadora -, pois não existe isso de “ciência demais” em um mundo em que pitaqueiros completamente divorciados da realidade dos fatos estão por aí soltando imbecilidades atrás de imbecilidades com a facilidade das redes sociais e com pessoas predispostas em acreditar em qualquer barbaridade. Portanto, usar a ficção científica como lousa para potenciais alunos é uma tarefa nobre. No entanto, em termos narrativos – e a crítica é de um romance, pelo que o aspecto narrativo precisa ser preponderante – essa característica do texto de Weir é uma muleta, ou seja, algo em que ele se apoia com todas as forças para substituir ritmo, construção de personagem e história.

O hard sci-fi, ou seja, a ficção científica realista, em oposição ao soft sci-fi, como é o caso, por exemplo, da hexalogia Duna, em que o rigor científico fica em segundo plano, se muito, não precisa depender de explicações científicas para tudo o que é colocado na história. Andy Weir, porém, tem justamente esse estilo e ele não está sozinho, claro, mesmo que o atravancamento narrativo seja a consequência direta do foco excessivo em explicações de toda sorte que não são apenas abordadas uma vez, mas sim diversas vezes, impedindo qualquer resquício de ambiguidade, o que, ironicamente, rouba do leitor toda a possibilidade de raciocinar por si mesmo. Não existe espaço para discussões ou dúvidas no que Weir escreve. Tudo é “assim ou assado”, sem meio termo, com sua narrativa entre a ação no presente, com Grace tentando reconstruir sua memória, sendo intercalada por flashbacks para a gênese do Projeto Ave Maria (que é o título original do livro e que não sei se é usado na tradução brasileira, já que eu o li em inglês) que tem como objetivo reunir as nações do mundo para pesquisar os astrófagos e descobrir uma maneira de neutralizá-los antes que seja tarde demais, que, claro, é exatamente a função da viagem do protagonista que acorda sozinho, pois seus dois companheiros estão mortos ao seu lado.

O que ajuda muito no desenvolvimento da história é o fim da solidão de Ryland Grace, já que ele faz contato imediato de primeiro grau com um astronauta alienígena que está por ali também para lidar com os astrófagos, o que abre todo um  leque para que Andy Weir especule – sempre cientificamente e sempre nos mínimos detalhes – sobre como seria outra vida inteligente fora da Terra. Essa conexão de Grace com “Rocky”, como ele batiza seu colega, é a alma do livro e o que o faz realmente valer a pena, pois, mesmo que o leitor seja obrigado a navegar pelas ondas de outro mar de explicações, dessa vez teóricas, e, além disso, a aceitar níveis cada vez mais altos de suspensão da descrença, como é principalmente a quebra da barreira de comunicação entre os dois, o que acaba importando é a mensagem positiva que a história passa sobre a humanidade como um todo, algo que resvala – e não somente resvala, diria – na mais completa breguice, mas que continua válida mesmo assim e que, de certa forma, subverte nossa expectativa sobre tramas apocalípticas que, via de regra, acabam vilanizando e condenando por completo a espécie humana. Weir oferece uma alternativa a isso e ela é bem-vinda.

Devoradores de Estrelas é muito claramente uma obra de Andy Weir, mas o autor realmente caprichou aqui, mesmo que seu cacoete didático e sua ojeriza à ambiguidades leve à loucura qualquer um que quiser mais do que o básico de uma ficção científica. Como disse, há boas ideias na história (e os astrófagos levam o primeiro lugar para mim) e o labirinto científico de seu texto acaba sendo suavizado por uma boa concatenação de eventos, mas o livro somente proporciona uma leitura básica e rasinha que pega o leitor na mão a todo momento, quase como se ele tivesse sido escrito exclusivamente para os jovens alunos de seu protagonista e, mesmo assim, com a intenção de subestimá-los. No entanto, se o foco na ciência fizer com que pelo menos uma pessoa se interesse pelo assunto, o romance sem dúvida já terá cumprido sua função.

Devoradores de Estrelas (EUA, 2021)
Autoria: Andy Weir
Editora original: Ballantine Books
Data original de publicação: 04 de maio de 2021
Editora no Brasil: Editora Suma
Data de publicação no Brasil: 05 de julho de 2021
Tradução: Natalie Gerhardt
Páginas: 424

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