Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Invasion of the Dinosaurs (Arco #71)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Invasion of the Dinosaurs (Arco #71)

por Guilherme Coral
77 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3

Equipe: 3º Doutor, Sarah Jane Smith
Era: UNIT — Ano 7
Espaço: Londres
Tempo: anos 70

Invasion of the Dinosaurs é um daqueles típicos arcos da série clássica que pedem um olhar mais misericordioso do espectador em relação ao que se passa na tela. Naturalmente refiro-me às risíveis tentativas de trazer dinossauros à tela, cujo resultado nada mais parece como se estivéssemos vendo brinquedos gigantes e borrachudos. A história em questão, apesar do título, porém, vai muito mais além das criaturas pre-históricas, trabalhando uma interessante crítica aos hábitos da sociedade contemporânea e introduzindo um plot twist de surpreender qualquer devoto fã da série.

Após as aventuras do Doutor (Jon Pertwee) e Sarah Jane Smith (Elisabeth Sladen) em The Time Warrior, o Time Lord cumpre o seu prometido e traz sua companheira de volta à Terra ao seu próprio tempo. Ao aterrissarem na Tardis, contudo, rapidamente percebem que algo está fora do lugar: as ruas de Londres estão absolutamente desertas, sem nenhum sinal de vida. Pouco depois, os dois são atacados por um pterodáctilo, apenas uma das muitas criaturas que vem aparecendo por toda Londres central. Mal sabem que isso é parte de um intrincado plano para retornar a Terra para um estado mais primitivo e “puro”, objetivo de um pequeno grupo que cansara de observar os humanos destruírem seu próprio planeta.

É interessante notar como é dada a importância para os seres pré-históricos dentro do arco. Mesmo parte do título do primeiro capítulo é ocultado nos créditos iniciais a fim de não estragar a surpresa dos dinossauros (algo, evidentemente, arruinado pelas propagandas da Radio Times). Tais criaturas, porém, nada mais são que um dos estágios do plano maquiavélico em questão, criando, portanto, o maior defeito do arco: os répteis gigantes são completamente substituíveis, sua função seria plausivelmente cumprida com ameaças de bombas, por exemplo. É claro que o espetáculo fala mais alto, é preciso de algo para atrair o espectador e Bombs over London talvez não fosse tão atrativo quanto Invasion of the Dinosaurs, estratégia que evidentemente funcionou, mesmo diante da queda vertiginosa da audiência nos últimos capítulos. Recentemente vimos algo similar em Deep Breath, o capítulo de abertura da oitava temporada, da nova série. A questão é que, especialmente hoje em dia, os seres aqui mostrados não conseguem passar qualquer credibilidade, criando nada mais que risadas na audiência e diminuindo a carga dramática do arco, algo especialmente imperdoável, considerando a surpresa nele estabelecida.

É claro que podemos sempre relevar tais aspectos da produção e atentar mais para os detalhes que realmente importam. Fazendo isso, é muito mais provável que gostemos da história, muito embora o plano em execução ainda pareça mirabolante demais. A década de 70 foi marcada por protestos e movimentos pedindo uma maior conscientização em relação ao nosso planeta e é bastante interessante ver como um programa da época se posiciona em relação a tal problemática. Algo especialmente curioso, considerando que a “ficha”realmente só caiu recentemente (e não para todos) em relação à nossa destruição da Terra. Nesse aspecto, Doctor Who demonstra uma postura de bastante vanguarda e as palavras do Doutor para Yates no capítulo final ainda ressoam em minha mente, especialmente o “ainda não é tarde demais”.

Aqui devo entrar em um aspecto crucial do capítulo, em outras palavras, um grande spoiler, portanto, se não desejam ter a surpresa estragada, por favor, pulem para o próximo parágrafo. Falo, naturalmente, sobre a traição de Mike Yates, uma escolha bastante corajosa de Malcolm Hulke em seu roteiro, afinal, o soldado da UNIT está conosco desde Terror of the Autons, na oitava temporada. Suas ações são um dos pontos altos do arco, especialmente levando em conta sua relutância em fazer algo drástico em relação ao Doutor. O personagem fora nitidamente abalado pelos eventos ocorridos em The Green Death e as consequências só veríamos aqui e, posteriormente em Planet of the Spiders. Yates traz uma evidente carga dramática para a história, de deixar qualquer fã com um aperto no peito.

Dito isso, Invasion of the Dinosaurs é repleto de seus altos e baixos, mas, surpreendentemente (e grifem isso, pois os dinossauros realmente são risadas garantidas) ele nos deixa com uma percepção positiva da história como um todo. Vale lembrar que uma grande suspensão de descrença é necessária ao espectador e inúmeros aspectos precisam e devem ser relevados a fim de um maior aproveitamento da história. O arco, porém, traz significativos desdobramentos para Doctor Who, então isso não será algo difícil de se realizar.

Invasion of the Dinosaurs (Arco #71) – 11ª Temporada
Direção:
 Paddy Russell
Roteiro: Malcolm Hulke
Elenco: Jon Pertwee, Elisabeth Sladen, Nicholas Courtney, Richard Franklin, John Levene, Noel Johnson

Audiência média: 9,6 milhões

6 episódios (exibidos entre 12 de janeiro e 16 de fevereiro de 1974)

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4 comentários

Rafael Lima 6 de janeiro de 2017 - 22:09

Esse arco forma uma dobradinha interessante com “The Green Death”, quase como um espelho. Não só por causa do desenvolvimento da queda do Yates, mas pelo contexto ambientalista que gira em torno dos dois arcos. Se em “The Green Death”, a fonte da ameaça era uma industria com total descaso por questões ecológicas, este arco mostra a reação a isso através de ações de eco terroristas. Dois males totalmente opostos, mas gerados pelo mal maior que é o descaso ecológico da sociedade.

A traição do Yates aqui é bastante triste, ao marcar mais um passo rumo ao fim da “Família UNIT”, que já havia começado com a saída de Jo. Ao mesmo tempo, essa traição é desenvolvida de forma bastante natural, por todas razões que já foram muito bem expostas pela resenha.

De fato, os dinossauros são risíveis, ruins demais mesmo para os padrões da série. Mas o roteiro é tão envolvente que a gente releva. E a parte inicial, com o Doutor e Sarah Jane andando por uma Londres deserta lotada de saqueadores sem saber direito o que está acontecendo é bem atmosférica.

Enfim, um ótimo arco apesar dos (d)efeitos especiais, e um momento bem triste para a UNIT.

PS: Apesar de toda a tensão presente no arco, ele é cheio de momentos divertidíssimos. A cara do Brigadeiro ao ver a foto do Doutor e de Sarah Jane entre os presos por saque é impagável. Hehehe

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Augusto 20 de julho de 2015 - 23:24

Os dinossauros são horríveis, mas gosto bastante desse arco, principalmente da história do Yates.

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Luiz Santiago 18 de julho de 2015 - 23:29

Fora as risadas que eu dei durante os 6 episódios, minha atenção realmente foi capturada pela estrelinha ecológica e sociológica da trama. O roteiro é bem denso nesse sentido e de fato me animei para assistir o arco inteiro basicamente por esse lado.

E o Yates??? OMG!!! A minha cara, quando enfim é revelado o que estava acontecendo… é mesmo como você disse: de deixar qualquer fã com um aperto no peito.

Veja Planet of the Spiders! A trama no Yates, pelo menos na TV, se conclui lá!

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Rafael Lima 11 de janeiro de 2017 - 15:57

A traição do Yates é um momento bem triste também. E John Pertwee manda muito bem na cena em que o Doutor percebe essa traição. Não é raiva ou revolta que percebemos no Timelord, e sim tristeza.

De certa forma, marcou mais um passo para o que eu chamo de “fim da Família Unit”, que havia começado com a saída de Jo.

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