Home FilmesCríticas Crítica | Dois Homens ao Mar + Próprio

Crítica | Dois Homens ao Mar + Próprio

por Luiz Santiago
264 views (a partir de agosto de 2020)

Histórias de desencontros possuem uma força emocional muito grande. Elas atiçam a nossa imaginação e um aspecto de nossa humanidade que é o pensamento sobre o que poderia acontecer de bom se… um certo encontro acontecesse. Como normalmente são duas pessoas envolvidas, considera-se aí dois destinos inteiros, duas vidas que poderiam ter algo de muito especial e que simplesmente não tiveram (ou desperdiçaram) a oportunidade disso. É um sonho com muitas possibilidades, com a riqueza de nossa imaginação e sentimentos enfeitando aquilo que não aconteceu. E é basicamente esse sentimento que toma conta do público na sessão de Dois Homens ao Mar.

Martin (Mauri Liiv) e César (Gabriel Motta) se encontram em um café na cidade de Tallin, capital da Estônia. César é brasileiro e está passando pela Estônia antes de embarcar num trem em direção à Rússia. Martin é nativo e está resolvendo algumas coisas do trabalho. O encontro dos dois é inicialmente filmado com uma bela e simples troca de gentilezas, mas pouco a pouco algumas informações são dadas e entendemos mais de cada um dos personagens. A reta final do filme utiliza bem o que foi plantado nessa conversa, além da química entre os dois rapazes e os sorrisos e olhares que trocam para fixar a ideia de oportunidade perdida e, então, fechar o curta com um adeus.

Dois Homens ao Mar traz um tipo de enredo que fala bastante com quem já passou por esta situação, e o roteiro não força nada para conseguir isso, muito pelo contrário. O diálogo que se estabelece entre os rapazes é bem orgânico e a própria sexualidade deles entra na conversa de forma natural, caminho que ajuda bastante no pequeno twist que o filme nos traz em seus segundos finais, terminando o conto com doses de beleza e um pouquinho de amargura.

Dois Homens ao Mar (Brasil, 2020)
Direção: Gabriel Motta
Roteiro: Gabriel Motta
Elenco: Gabriel Motta, Mauri Liiv, Anna Banchina
Duração: 17 min.

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Próprio

SPOILERS!

Próprio apresenta uma história de violência sexual. A trama se passa no interior de São Paulo e retrata um jovem no momento de descoberta de sua sexualidade. Há uma indicação cíclica desse furor hormonal da adolescência no filme e o diretor retrata isso através da masturbação, que abre e fecha o curta.

Se num primeiro momento o ato da masturbação serve como bom indicador para desnudar o protagonista e sua libido, reforçando os seus desejos e também indicando a sua sexualidade, no último, ela se mostra muitíssimo deslocada (até inapropriada) e faz parecer uma espécie de vício para o menino — o que é problemático quando pensamos que esse toque solo vem logo depois de uma cena de estupro. É um encadeamento um tanto incômodo e sem uma abordagem que mostrasse qualquer efeito do terrível ato cometido contra o rapaz, logo em sua primeira experiência sexual.

A temática aqui é séria e infelizmente muito frequente na vida real. Abordar o estupro no cinema até pode ganhar um recorte “despreocupado“, mas a trama precisa dar suporte o suficiente para que essa abordagem se sustente como tal, uma vez que cada ‘caso é um caso’ e pode haver um certo elemento de jogo sádico, perigoso e não menos problemático e vil que guie a escolha narrativa dos roteiristas (o excelente Elle está aí pra provar isso). Mas não temos essa base no filme, de modo que o final fica sendo apenas uma reticência para uma história que, mais do que qualquer outra, precisava de algo a mais antes de ser encerrada.

Próprio (Brasil, 2020)
Direção: Rafael Thomaseto
Roteiro: Rachel Ancelevicz, Rafael Thomaseto
Elenco: Jota Barletta, Teodoro Cochrane, Isabella Dragão, Giovanni Di Lorenzi, Dagoberto Feliz
Duração: 15 min.

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