Crítica | Doomsday Clock #3: Nem Vitória Nem Derrota

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É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota.

Theodore Roosevelt

SPOILERS! Leia a crítica de Watchmen aqui. Leia as críticas de Antes de Watchmen aqui. E leia as críticas de todas as edições de Doomsday Clock aqui.

Um dos meus grandes temores com esta série era que o roteiro em algum ponto (e eu não imaginava que isso aparecesse tão cedo, já na edição #3) se deixasse impressionar demais ou quisesse impressionar demais o leitor com brincadeirinhas de continuidade sem que tivessem real e imediata importância para o andamento de uma trama importante como esta, como se o termo “continuação de Watchmen” já não bastasse para impressionar e irritar ao mesmo tempo. Mas cá está. Nem Vitória Nem Derrota é uma edição que, por pouco, não estaciona na mediocridade. Ela anda mancando a maior parte do tempo e praticamente não avança em nada, dando mais atenção às entrelinhas (aqui, nada importantes) do que deveria.

O maior erro? Destacar Carver Colman, o ator que interpretava o personagem Nathaniel Dusk em uma série de filmes noir finalizada em 1954, com The Adjournment, dirigido (só que não) por Jacques Tourneur. Neste Universo, Colman foi morto logo depois de encerradas as filmagens, como já visto em Lugares Que Nunca Conhecemos. Seguindo um pensamento lógico e diante da importância irresponsável e sem interações sólidas com a trama em andamento, o drama de Carver Colman deve fazer sentido para alguma coisa neste Relógio do Apocalipse nas edições futuras. Mas aqui, a colocação desse drama, sua soltura diante de todo o resto e o marasmo conceitual da edição inteira não tornam esse bastidor cinematográfico fictício elogiável.

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Por que o Dr. Manhattan salvaria alguém como o Comediante da morte? E mais: alguém pode explicar o corpo e o bottom smile caídos no Universo Watchmen? O titio Osterman criou aquilo ou estamos falando de manipulação temporal também?

Um leitor mais apaixonado pela série pode argumentar que “Geoff Johns está tentando focar em outras coisas“, mas a grande pergunta é: no que, além da premissa óbvia e vendida desde antes de a série começar, ele poderia estar focando? Notem que a justificativa de “focar em outras coisas” não é válida porque o caminho aqui foi previamente entregue ao público; todo mundo sabe aonde isso aqui vai chegar e qual é a intenção da série. O que não sabemos são os meios e as surpresas de caminhos utilizadas pelo autor, o que fecha o ciclo de questionamentos sobre o por quê ele não faz como no volume anterior, quando procurou interagir de maneira orgânica essas novidades com a trama já em andamento.

Aqui, os elementos inéditos (ou quase) são inteiramente inócuos, jamais empolgam o leitor e, pior, são absolutamente enfadonhos, além de desnecessariamente verborrágicos. Todos os textos envolvendo Carver Colman e John Thunder parecem revestidos de uma dose extra de chatice, algo que poderia ser remediado se tudo isso não tivesse embrulhado em um suposto ~mistério~ com o qual ninguém se importa, pelo simples fato de não haver, no roteiro, nada para se importar. A relação de qualquer ponto novo em um enredo — e Johns, depois de tantos anos, sabe muito bem disso — deve vir acompanhada de algo a que se possa acoplar imediatamente o drama já conhecido, mesmo que a “visão geral do quebra-cabeça” ainda esteja longe de se concretizar. Ao menos faria sentido a presença desses blocos paralelos, o que não é o caso aqui.

Apenas dois pontos textuais garantem a classificação de “ok” para esta edição. O primeiro, envolvendo Marionette e Mímico. E o segundo, Batman e Rorschach II. No primeiro caso, a surpresa é deliciosa, excelente. Com que então o Mímico tinha uma arma invisível! Palmas para Geoff Johns por isso. Eis aí uma forma de acrescentar algo bastante válido, cômico — de certa forma — e inteligente em uma aventura, ainda mais vindo à tona em um momento perfeito, não forçado e sem a necessidade de choque ou exibição gratuita. Já no segundo caso, temos um caminho de “ódio ao Batman” que, se não for apenas uma medida cautelosa de o Morcego ligar com o relato de Rorschach, prendendo-o em um “lugar seguro” até que investigue o que está por trás do diário de Walter Kovacs, então a atitude fria do final é absolutamente odiável. Mas estamos falando do Batman, certo? Acho difícil que não exista uma intenção maior com essa atitude.

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O que você faria no lugar do Bloco de Gelo Batman?

Agora com Amie Brockway-Metcalf fazendo par com Gary Frank na arte, a parte estética da revista volta aos eixos, sem os sinais de cansaço que já mostrava na edição anterior. E isso também parece ter despertado Brad Anderson para escolhas bastante inteligentes na aplicação de cores, fazendo valer a dinâmica rítmica da diagramação e, acima de tudo, criando interações (não mais contrastes) dramáticos entre os Universos em coalizão e os blocos cênicos de cada personagem central.

A pergunta sobre Marionette e Mímico encontrarem ou não o Coringa fica no ar. Agora, porém, é bastante válida a questão: seria o Comediante um dos Coringas do nosso Universo? E se sim, por que diabos o Dr. Manhattan salvou a vida desse crápula, se sabia quem/o quê ele se tornaria? Que “sentido maior” teria a salvação da vida de um ser abjeto como Edward Blake se ele foi colocado em outro Universo apenas para matar pessoas e criar o caos? Cada Universo não produz os seus próprios vermes?

Claro que estas perguntas misturadas em fel passional possuem um sentido maior, lá no fundo, de questionamento filosófico sobre motivações e comportamento de heróis e vilões incomuns. Mas acho que este é o momento de levantarmos essas questões, quaisquer que sejam os motivos. E veja, a coisa ainda fica pior se pensarmos na seguinte hipótese: não, o Comediante NÃO É um dos Coringas do nosso Universo. Ora… então o que ele ficou fazendo esse tempo todo? Certamente criando gatinhos fofos, colecionando porcelana chinesa e tapetes turcos, ensaiando coreografias da Lady Gaga e assistindo RuPaul é que ele não estava.

Doomsday Clock #3: Not Victory Nor Defeat — EUA, 24 de janeiro de 2018
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank, Amie Brockway-Metcalf
Arte-final: Gary Frank
Cores: Brad Anderson
Letras: Rob Leigh
Capa: Gary Frank, Brad Anderson
Editoria: Brian Cunningham, Amedeo Turturro
30 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.