Crítica | Doze Homens e Uma Sentença (1957)

Sou uma daquelas pessoas que defendem que, mesmo que o roteiro de um filme não seja tudo, ao menos sem um bom roteiro, um filme não é nada. Uma das críticas mais polêmicas que escrevi para o Plano Crítico – a de Dunkirk – se pautou essencialmente sobre esse princípio e não foi bem compreendida por muitos, embora eu tenha feito uma longa argumentação a respeito. Na outra ponta da questão, podemos encontrar um seleto grupo de filmes em que o roteiro é a grande arma, carregando nas costas quase todo o processo de narração. Doze Homens e Uma Sentença, um dos grandes clássicos da história do cinema e o longa-metragem mais destacado de Sidney Lumet, é para mim o maior desses exemplos. Ouso ir além e dizer que é o mais extraordinário roteiro que a sétima arte já produziu, ainda que não se possa ignorar a qualidade da direção de Lumet e as grandes interpretações do elenco (com destaque sempre a Henry Fonda). Mas seria possível dirigir tão bem e o elenco estar tão afinado sem um material prévio tão eficiente? Pergunta meramente retórica que nos conduz de volta à minha tese inicial.

O caso de Doze Homens e Uma Sentença é bastante especial pois o próprio formato do filme já exige o mais inspirado dos roteiros. Como manter o interesse do público pelo caso que os doze homens debatem em uma mesma sala ao longo de 96 minutos de projeção? Como evitar que toda a argumentação a favor ou contra o réu se tornasse fácil ou repetitiva? Como não cair na esparrela de transformar a discussão em mero embate maniqueísta, em que um único homem bondoso tenta salvar um jovem inocente de uma justiça cruel e insensível? Como se vê, não faltaram armadilhas no caminho que o filme escolheu para si mesmo e o mais impressionante é que o roteiro de Reginald Rose consegue evitar cada uma delas. Penso que a questão precípua de Doze Homens e Uma Sentença passa bem longe de tudo isso. No começo, o espectador está tão envolvido quanto os próprios jurados com a resposta que parece ser o mote do longa-metragem – o menino é culpado ou inocente? Mas o trabalho do roteiro em afastar-se dessa simples resposta é magistral e o público compreende isso à medida que a narrativa avança.

O filme não nega seu gênero. Na abertura, a câmera de Lumet executa um tilt para cima para demonstrar a imponência da fachada do tribunal, com suas portentosas colunas, o que metaforiza a própria grandiosidade da Justiça e seu poder sobre os homens. A seguir, executa outro tilt, esse para baixo, abandonando a magnanimidade da Lei para vislumbrar os homens que a executam, com toda a sua falibilidade. Sim, é óbvio que estamos dentro do gênero de tribunal e a direção não só nos insere logo nele como o faz de modo brilhante. Mas a questão é que Doze Homens e Uma Sentença é poderoso o suficiente para transcender seu próprio gênero e, assim, se debruçar sobre um tema ainda maior. O longa-metragem de Lumet estuda muito mais a relação dos homens com suas crenças do que propriamente busca resolver o caso criminal em questão. Esse não é um filme sobre o veredito final, mas sobre os homens que o produzem e, especialmente, sobre o modo como o produzem. Uma obra muito mais sobre os meios do que sobre os fins.

O mais emblemático filme de Sidney Lumet, que ganharia uma refilmagem quarenta anos depois, é uma verdadeira aula sobre argumentação e lógica. O roteiro vai pouco a pouco expondo os procedimentos mais perniciosos que se usam para se defender uma ideia. Eles vão desde o apelo ao bem (quando um jurado exclama “Eu só quero colocar um assassino na cadeia!”) até o flagrante uso do viés de confirmação (quando os jurados se agarram desesperadamente às evidências que sustentam sua tese, mas ignoram de forma deliberada aquelas que a desmontam). Quando todas essas tentativas se esgarçam e começam a falir, as certezas tão mal-ajambradas dos doze homens começam a dar lugar a falas inteiramente novas, como a de outro jurado, que se defende: “Não acho que eu tenha que ficar fiel a um ou outro lado. Só estou fazendo perguntas.”. Aparece assim algo medular em Doze Homens e Uma Sentença. Algo que transformará aqueles homens de modo brutal e irreversível. Surge a consciência da dúvida.

A direção de Lumet é certeira quanto a isso. A câmera trata com relevância muito maior os momentos em que os personagens expressam suas dúvidas e reticências sobre suas próprias teorias acerca do crime do que aqueles em que tentam reafirmar suas certezas ensaiadas. É possível notar como o cineasta utiliza planos fechados e muitos travelling in para identificar no rosto dos doze homens como essas dúvidas ora os iluminam ora os corroem. Os primeiros close-ups só surgem quando o jurado mais velho, o primeiro a concordar com o personagem de Henry Fonda, expressa que também não tinha certeza sobre a culpabilidade do réu. O momento surge para ele como uma revelação. Uma epifania. Também uma das cenas mais extraordinárias do longa-metragem é registrada em um longo primeiro plano, quando o jurado mais resistente às próprias incertezas desaba em choro ao finalmente assumi-las. Aqui a atuação de Lee J. Cobb traz à tona um dos momentos mais pujantes e inesquecíveis de toda a história da sétima arte.

O que torna o roteiro de Doze Homens e Uma Sentença tão fabuloso é justamente o fato de permitir que a narrativa se torne mais quente e cativante a cada novo jurado que assume uma hesitação e uma insegurança. É interessante também que o cenário os ajude a confessar isso. O ambiente, inicialmente estável e ordeiro, vai se convertendo em um palco onde os homens batalham não apenas entre si, mas especialmente consigo mesmos. O resultado desse gládio interior é o que a câmera sempre arguta do diretor nos revela – papéis espalhados por toda a mesa e cigarros apagados por toda parte, como impurezas deixadas para trás após consumada a transformação. O processo por que passam os homens ao longo da projeção se assemelha a uma febre, que os purifica de suas verdades postiças. Não à toa, no auge de toda a discussão, todos eles aparecem suados, exauridos e já com as roupas completamente amarrotadas (antes perfeitamente alinhadas). A obra é concluída com uma espécie de convalescença.

Doze Homens e Uma Sentença é um filme essencialmente sobre o difícil exercício da razão. Sobre como a necessidade de certezas absolutas corrompe a clareza de pensamento e justifica as piores ações. Mais do que isso, o longa-metragem revela a sedução que é analisar o mundo por meio de uma só lente, amputando-o de sua complexidade (que tanto nos incomoda, pois nos confunde e nos desafia). E em um filme que vai tão além do gênero de tribunal, o risco maior não é somente o de a Justiça se comportar como uma seita de devotos (em uma leitura mais óbvia), mas o de nós, homens comuns, fazermos o mesmo em nome do que quer que seja.

Doze Homens e Uma Sentença (12 Angry Men) – EUA, 1957
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Reginald Rose
Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Joseph Sweeney, Ed Begley, Edward Binns, George Voskovec, Jack Klugman, Jack Warden, John Fiedler, Martin Balsam, Robert Webber
Duração: 96 minutos

 

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.