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Crítica | Drácula II – A Ascensão

por Leonardo Campos
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Os mitos podem ser subvertidos na cultura pop contemporânea? A resposta é um sonoro sim! Importante para a germinação de um campo crítico fértil quando obras clássicas ganham roupagens inovadoras e associadas aos anseios de seus respectivos tempos históricos de leitura e interpretação. Há, no entanto, uma linha que divide a criatividade e o bom senso. É um limiar de travessia complexa, não respeitada no desenvolvimento de Drácula II – A Ascensão, narrativa de relação tão pálida com o seu ponto de partida quanto a própria imagem popular dos vampiros. No pomposo romance epistolar de Bram Stoker, o personagem título surgiu com base em muita pesquisa. Além de sua vasta biblioteca, o escritor frequentava assiduamente o Museu Britânico para arregimentar o seu processo criativo que pode ser considerado definitivo para a mitologia dos vampiros, longe de essencialismos, claro, sem deixar de considerar contribuições enriquecedoras de Anne Rice e outros autores que exploraram essa atmosfera de dominação, poder, sangue em profusão, elegância e sensualidade. É uma longa estrada, diferente dos atalhos de Patrick Lussier.

O cineasta que se bifurcou pelo terror depois de alguns anos como montador de vários filmes, inclusive as produções anos 1990 e 2000 de Wes Craven, retomou o tema dos vampiros em 2003, influenciado pelo clima gótico urbano mixado com a linguagem pop do videoclipe, presentes em Drácula 2000. Também responsável pelo roteiro, assinado numa parceria com Joel Soisson, acompanhamos ao longo de breves 85 minutos, a saga de um caçador de vampiros, o Padre Uffizi (Jason Scott Lee), em plena caçada de uma mulher aparentemente em perigo e perseguida, mas que na verdade é uma perigosa criatura da noite, pronta para colocar em prática uma emboscada para o homem que vaga com longas roupas pretas, aparentemente o suposto Drácula da história. Desfeita a ambiguidade, a narrativa dá um salto de Ostrava, na República Tcheca, ponto de onde esse momento inicial se desenvolve, indo agora para os Estados Unidos, para a Escola de Medicina de Nova Orleans, espaço de maior projeção para os acontecimentos do roteiro.

A estudante Elizabeth (Diane Neal) e o jovem Luke (Jason London) recebem um corpo carbonizado para o exercício de uma rotineira autópsia, cadáver que logo saberemos ser um vampiro. Cientes do potencial da descoberta, a dupla resolve deslocar o corpo dali para uma missão que dentre todas as demandas, se interessa pela explicação científica em relação a origem dos vampiros. Acompanhamos tudo isso com os efeitos visuais de Jamison Goei, bem abaixo da média, tal como a maquiagem de Gary J. T. Marco Beltrami assumiu mais uma vez a condução musical também pouco expressiva, trilha que segue imbricada nas também errôneas imagens da direção de fotografia de Douglas Milsone e do design de produção de Serban Porupca. São segmentos pobres, não apenas por falta de recurso, mas por escolhas descabidas. Não há qualquer aparente posicionamento crítico na concepção das imagens que excluindo a cena de abertura realizada numa rua com elementos arquitetônicos deslumbrantes, não se repete nas passagens burocráticas da ação no laboratório, na sala de aula, enfim, em nenhum outro espaço ou momento.

De volta aos elementos dramáticos de Drácula II – A Ascensão, o corpo carbonizado é conduzido pela dupla anteriormente mencionada para um local ermo, indo ao encontro de outros amigos. Ao encontrar Tanya (Brande Roderick), Kenny (Khary Payton) e Eric (John Light), eles esclarecem que a ideia é reanimar o corpo da criatura numa banheira de sangue, tendo em vista adquirir conhecimento eterno e a cura para o professor Lowell (Craig Sheffer), jovem intelectual acometido por uma doença degenerativa. Assim, com esse argumento, a produção traz personagens extras para servir de alimento para o vampiro que atravessará uma longa dieta ao ser aprisionado e transformado em cobaia pelos estudantes e demais personagens que enxergam nesta misteriosa figura uma possibilidade de faturar alguma grana. Enquanto os acontecimentos desta linha narrativa se desdobram, o caçador precisa encontra-los para eliminar qualquer tentativa de dar mais espaço para o vampiro ganhar sobrevida. Nas conexões entre as duas linhas, corpos se amontoam e algum sangue é jorrado, estratégias adotadas pela equipe de Patrick Lussier para chocar, mas que se demonstram apenas uma frágil tentativa de criar algum interesse numa história tão insossa, inspirada num ponto de partida literário tão interessante.

Ainda sobre a construção deste personagem, sabemos que Stoker se preocupou com a representação social dos vampiros, a devida análise territorial de suas histórias, o posicionamento ideológico enquanto ser entre a vida e a morte, bem como a sua relação complexa com as vítimas. Em Drácula II – A Ascensão, no entanto, a contagem de corpos parece obedecer aos mandamentos da cartilha slasher aleatória, com diálogos pouco envolventes e protagonista sem o carisma necessário para magnetizar com o seu público. Até o nome de Drácula é citado razoavelmente ou apenas se não me engano, em momento algum, confesso aqui: não lembro! Culpa do filme abaixo da média e muito superficial não apenas como retomada de um vampiro tão clássico, mas como filme de terror mesmo, algo sem vida como as próprias vítimas dos antagonistas vampiros, sugadas de energia ou qualquer outro sinal de vitalidade. Como já mencionado, o filme foi tratado como uma continuação de Drácula 2000, mas confesso que as intenções ficaram apenas numa conexão de franquia antológica. O clima, os efeitos, o desenvolvimento da história aqui são bem diferentes, com menor qualidade, é claro, vindo de um ponto de partida que já não era lá “essas coisas”.

Drácula II: A Ascensão (Dracula II: Ascension/Estados Unidos/Romênia, 2003)
Direção: Patrick Lussier
Roteiro: Joel Soisson, Patrick Lussier
Elenco: Jennifer Kroll, Jason Scott Lee, Craig Sheffer, Diane Neal, KharyPayton, Brande Roderick, Jason London, Christopher Hunter, Tom Kane, John Light, Stephen Billington, Nick Phillips, John Sharian, DragosBalauca, SilviuOlteanu, David Gant, Roy Scheider, Daniela Nane, David J. Francis
Duração: 85 min

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