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Crítica | Filme B – Entre Mortos e Vivos

por Leonardo Campos
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Os puristas que me perdoem, mas confesso que passei por uma hora e meia de muitas risadas com Filme B – Entre Mortos e Vivos, telefilme de 2017, parte integrante de uma antologia do canal Brasil Play. Largamente criticada na época de seu lançamento, a produção é deboche puro e pode ter sido acompanhada de expectativas não alcançadas por parte dos autores de um campo crítico mal-humorado demais, talvez incapaz de reconhecer o tom da narrativa que não se pretendeu levar pela rigidez de formatos para flertar com horror, humor, gore razoável, atuações propositalmente carregadas de excessos e reinterpretação sarcástica de elementos mitológicos no âmbito do terror. Sob a direção de Beto Ribeiro e Carla Albuquerque, tendo como direcionando o roteiro de Ribeiro, acompanhamos ao longo de 87 minutos, o tom parricida de um texto paródico que mata os seus pontos de partida para se entregar ao burlesco em prol da gargalhada e do horror. É filme e ao mesmo tempo é uma crítica ácida aos clichês dos subgênero do terror que abraça.

Na trama, enxertada do padrão de atuação novelesco e com entrada de números musicais para elevar o ritmo de descontração farsesca, os pacientes de um manicômio, junto aos médicos e enfermeiro que atuam no local, se unem para a comemoração do Dia das Bruxas, data globalizada pela dominação cultural estadunidense, adaptada ao contexto brasileiro há algum tempo. Nesta noite de festas com personagens em busca de fantasias para exaltar os seus anseios, os mortos serão reerguidos de suas sonolentas e quietas existências enquanto cadáveres para estabelecer o horror nos corredores do local que em si já é pura adrenalina, afinal, abarca um grupo de assassinos em série confinados, responsáveis por crimes bárbaros num passado relativamente recente. Alguns dos assassinatos são narrados, por sinal, em funcionais flashbacks.

A chegada de uma nova interna é o elemento catalisador da desgraça total. Heloisa (Keila Taschini), uma perigosa criminosa, já ganha a atenção dos demais circundantes do espaço por seu temperamento demasiadamente explosivo. Ela se interessa por Lucas (Bernardo Mesquita), outro criminoso sexy conhecido por seus crimes nada convencionais. O problema é que Lucas é o alvo das paixões de Claudia (Alejandra Sampaio), interna que se revolta com a aproximação da novata com o seu “crush” e diante da loucura desvairada, pede que a japonesa Tomoto (Keyla Sayuri) invoque por meio de um feitiço, forças malignas para acabar com a novata e tentar garantir seu espaço. Para ela, Tomoto é macumbeira, mas a jovem também perigosa deixa claro que a sua arte sobrenatural está longe de ser uma associação com elementos da feitiçaria nacional, isto é, ela mexe mesmo é com o tinhoso lá nas profundezas dos infernos.

O que era pra ser uma ação para conquistar a pessoa amada se transforma no despertar equivocado de uma horda de zumbis vorazes e que aniquilam tudo que encontram pela frente, de maneira bastante divertida e com uma maquiagem que acredito não fazer feio para o cinema de horror estrangeiro. Sob a observação de Rosário (Ana Paula Lopez), enfermeira chefe, e participação especial de Luisa Marilac como uma funcionária numa breve participação. O médico dominante do espaço é o Dr. Marco Antônio (Ricardo Ciciliano), personagem que ao lado de Rosário, lutará pela sobrevivência com a chegada dos monstros e o clima de horror cômico que reina pelos corredores de um lugar que deveria ser um centro correcional, mas se torna um antro de mortes e apodrecimento, com zumbis que podem ser destruídos com a luz solar e não surgem com base na transmissão viral, como demarcado na tradição desconstruída no filme.

Ademais, os personagens são livres de amarras de manuais de roteiro e o tom de irrealidade é justamente o ideal para o estabelecimento da brincadeira. Assim, Filme B – Entre Mortos e Vivos, da produtora Medialand, reforça a importância de mais produções que flertem com todos os segmentos rizomáticos do horror, tendo como foco, permitir a solidificação do gênero em nosso território, cada vez mais forte na última década, principalmente em sua segunda metade, aparentemente espelho do horror social no qual estamos mergulhados. Não possui o orçamento de O Exterminador do Além Contra a Loira do Banheiro, mas está dentro do mesmo bojo de catalogação, isto é, trama de horror com pitadas de horror e nonsense. Com direção de fotografia de Carlos Ebert e design de produção de Carla Albuquerque, a sátira visualmente eficiente aos propósitos almejados também contou com a trilha sonora de Ricardo Severo e a supervisão de efeitos visuais de Ivan di Simoni, setores também importantes para o desenvolvimento do conteúdo que dramaticamente é estéril, mas profícuo para o flerte com a paródia.

Filme B – Entre Vivos e Mortos — Brasil, 2017
Direção: Beto Ribeiro, Carla Albuquerque
Roteiro: Beto Ribeiro, Carla Albuquerque
Elenco: Alejandra Sampaio, Keila Taschini, Raphael Gama, Bernardo Mesquista, Keyla Sayuri, Ana Paula Lopez, Luisa Marilac, Ricardo Ciciliano
Duração: 100 min.

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