Crítica | Gotham – 5X01: Year Zero

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Gotham acabou. O que quer que resta é uma terra de ninguém, um pedaço de terra ilhado e comandado, majoritariamente, pelas piores pessoas possíveis, os grandes criminosos. A resistência é mantida por Gordon (Ben McKenzie), demais policiais do GCPD, além de Bruce Wayne (David Mazouz), personagem já tido como um aliado, não mais um jovem que precisa ser protegido – um dos pontos daqui é a afirmação, por Gordon, de que a ajuda do garoto não será negada. O envolvimento do futuro Cavaleiro das Trevas, agora, é crucial para a resolução da problemática apontada, apesar do episódio rodear muito em torno da situação norteando o arco de Selina Kyle (Camren Bicondova), com considerável redundância naquele meio, repetindo-se incessantemente o sentimento de pesar de Bruce por aquele caso – a interpretação de Mazouz, ao mesmo tempo, não contribui para uma graduação de entristecimento, pois o ator não convence.

O grande mistério dessa capítulo de abertura, o ano zero de uma cidade que não mais existe, é a chegada de suprimentos para reabastecer os refugiados que estão abrigados na delegacia e os seus arredores. Uma missão pequena que pavimenta e recria o status quo dos personagens, muito tempo antes do início do episódio, que é uma empolgante previsão do que estará acontecendo meses a frente, com os heróis se unindo a determinados vilões para proteger uma cidade então perdida. Mais inimigos aparecerão, os confrontos serão outros, contudo, tudo se inicia por aqui. O roteiro é até mesmo preocupado em mostrar o que está acontecendo, no presente, em cada região da cidade, com uma introdução um pouco expositiva, mas necessária para uma compreensão do espectador de como Gotham é enxergada agora. O governo não quer a cidade, deixada para morrer junto aos esquecidos. Como reintrodução para o fim da série, Year Zero é muito certeiro.

A exploração desse arco de quadrinhos homônimo, proveniente da década de 90, a década dos exageros, e que possui uma premissa realmente interessante, é competente. John Stephens, o roteirista, captura com os discursos esperançosos de Gordon, constantes, o que está sendo defendido: a segurança dos outros. Year Zero, de certa maneira, até mesmo lembra o videojogo Batman: Arkham City, em decorrência do modo como lida com situações pequenas, que simplesmente surgem no cenário, como a queda do helicóptero ou a invasão da base dos heróis pelo Espantalho e seus asseclas. O ambiente é completamente renovado, embora as dinâmicas sejam um pouco as mesmas, continuando os conflitos dispostos na temporada anterior. As aparições esporádicas do Charada (Cory Michael Smith), por exemplo, são digressões que servem como continuação do arco do personagem, entretanto, aqui, não caminha a lugar algum, gratuitas.

Já a participação do Espantalho, em contrapartida, auxilia narrativamente o enredo de uma maneira interessante, como uma ameaça ímpar, enquanto a do Pinguim (Robin Lord Taylor) é a verdadeira carta na manga do roteiro, assim como da direção. A cena do assassinato de Tabitha (Jessica Lucas), o acontecimento mais chocante do episódio, é movida por uma ironia tão natural que impulsiona a ótima performance de Taylor – é uma coincidência o fracasso de Tabitha, contudo, o texto torna aquele azar crível. Outra questão interessante é a abertura que foi feita à discussão de uma terra verdadeiramente sem leis, porque Gordon poderia ter matado Oswald. Será que Gotham irá discursar acerca disso pela temporada? O Cruzado Encapuzado, que aos poucos nasce, pode ser essencial para essa recriação derradeira da moral humana. Em um mundo sem leis e sem heróis, o que impedirá a carnificina de tornar-se enfim realidade? Gotham acabou?

Gotham – 5X01: Year Zero (EUA, 3 de janeiro de 2019)
Showrunner: Bruno Heller
Direção: 
Danny Cannon
Roteiro: 
John Stephens 
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz, Cory Michael Smith,  Camren Bicondova, Sean Pertwee, Anthony Carrigan, Maggie Geha, Jessica Lucas, Crystal Reed,  Charlie Tahan, John Doman, Morena Baccarin, Peyton List, Cameron Monaghan
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.