Crítica | Half Nelson: Encurralados

Esqueça os professores que chegam em seus locais de trabalho e se deparam com a realidade dura, mudando-a através de projetos audaciosos. Esqueça também os professores delineados com extrema perfeição, donos de uma postura reta e sem traços impuros. Ao deixar de lado estas questões, a sua relação com o filme Half Nelson provavelmente será mais proveitosa.

Diferente do que costumamos ver nos filmes sobre professores e os seus métodos revolucionários, nesta produção, nos deparamos com um profissional tendo os seus defeitos postos ao julgamento do espectador. O enredo é o seguinte: Dan Dunne (Ryan Gosling) é professor em uma escola secundária no Brooklyn, espaço cênico alvo de questões raciais e sociais que o cinema aposta de forma certeira ao tentar radiografar os conflitos dos Estados Unidos contemporâneo. Desiludido com a realidade, ele não cumpre o que pede o currículo tradicional, imposto pelas leis que regem a educação pública. Em suas aulas, incentiva os estudantes a irem além.

Os direitos adquiridos com a Guerra Civil Americana é um dos seus assuntos trabalhados com mais afinco. A imagem inicial é a de um professor exemplar, o tipo de personagem que nos faz chorar quando alguma manobra catártica ceifa os desejos e a vontade de existir dentro da narrativa. Esta imagem, entretanto, modifica-se rapidamente, pois saberemos mais adiante que ele recorre às drogas quando está fora da sala de aula.

Certo dia, Drey (Shareeka Epps), pega-o num flagrante indesejado: em “alta”, manipulado pelo efeito de uma das drogas que consome. A garota, afeiçoada ao professor vai se aproximar cada vez mais, tendo em mira a reversão da vida árdua do homem que lhe ensina sobre como buscar os seus direitos diariamente. Vinda de um lar fragilizado, a garota tem a mãe ausente e não tem a presença paterna em casa. Esse tópico, haja vista, não é uma questão importante, pois a presença da mãe faria toda a diferença e preencheria sem problemas a lacuna paterna.

O seu irmão, preso por tráficos de drogas, é uma das preocupações constantes da jovem, pois sempre que a mãe aparece em cena, o diálogo gira em torno de visitá-lo na penitenciária. Ao presenciar e viver situações de racismo e observar de perto a realidade das drogas na escola e na região em que mora, Drey é uma garota que luta constantemente para viver algo melhor em sua vida, indo além da postura apenas em torno de si, protegendo aqueles a que ama e quer bem. Tudo aparentemente romântico, correto, caro leitor?

Um aviso: não se engane. A narrativa é crua e vai muito além de sentimentalismo e redenções típicas do cinema hollywoodiano. Dentre todas as reflexões possíveis, destaco a imagem imaculada do professor no imaginário da sociedade, um ser humano que precisa viver sob a rédea curta dos olhares críticos dos alunos, dos colegas de profissão, dos seus gestores e das famílias que muitas vezes colocam os seus filhos na escola na intenção de formatá-los para a vida, como se a escola fosse um espaço semelhante a uma detenção.

A produção teve o roteiro assinado por Ryan Flick, baseado em seu curta-metragem Gowanus, Brooklyn. O roteirista também assina a direção, em parceria com a cineasta Anna Boden. Graças ao seu personagem-título bem escrito, Ryan Gosling foi indicado ao Oscar de Melhor Ator em 2006. No que tange aos recursos narrativos, o destaque vai para a iluminação natural e a manipulação da câmera em constante tremedeira, uma escolha de captação de imagem que favorece a dinâmica tensa proposta pelo roteiro. Os personagens, críveis e profundos, deixam a sensação do cinema independente estadunidense, uma linha de produção que se diferencia bastante das propostas do alto escalão hollywoodiano.

Filmado em 16mm, a imagem é repleta de grãos e possui aspecto desbotado, deixando o perfil dos personagens em destaque, ou seja, pessoas com as suas vidas “desbotadas”. Sem as campanhas demagógicas típicas de muitos discursos fílmicos sobre educação, Half Nelson é um filme carregado de alegorias. Além da imagem imaculada do professor que é desconstruída, recorre a um problema comum no que diz respeito aos ditames do currículo oficial, pois sabemos ser um terreno conflituoso, de embates entre sujeitos e suas concepções sobre o que é “construir o mundo”.

Uma das possíveis mensagens, de acordo com a postura do professor em sala de aula, é a seguinte: se você vai desconstruir o que está estabelecido, tenha embasamento. A mensagem, ideal para entender o filme, deve ser pensada também como uma mensagem chave para os profissionais da área educacional: para criticar o sistema, é preciso se informar. Postura política se constrói com embasamento e certeza das afirmações que tece. Half Nelson é assim. Um filme que nos apresenta um professor imperfeito como todo ser humano fora da sala de aula, mas que ensina aos seus alunos a pensar além dos limites impostos pelos livros didáticos, outro ponto crucial que faz da produção um ótimo exemplar para pensar a educação na atualidade.

Não basta ensinar que fomos colonizados. Não basta decorar datas e feitos de “grandes nomes” da historiografia oficinal. Não é preciso se ater aos nomes dos presidentes que governaram o Brasil desde o estabelecimento da República. É preciso ir além. Apesar de ultrapassada, estas posturas ainda são vigentes no terreno educacional. Sou testemunha ocular disso. Professores que não sabem fazer o aluno debater um tema histórico fazendo idas e vindas na linha do tempo, comparando coisas, estabelecendo liames.

Half Nelson é uma jornada intensa ao claustrofóbico campo da educação, um dos espaços de maior complexidade desde sempre. Lançado em 2006, o filme não alcançou grande êxito na distribuição. Custo U$700 mil e não chegou às salas de cinema brasileiras: foi apresentado ao público daqui através da exibição na TV por assinatura.

Half Nelson (Estados Unidos – 2006)
Direção: Ryan Fleck
Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck
Elenco: Anthony Mackie, Christopher Williamson, Karen Chilton, Nathan Corbett, Nicole Vicius, Ryan Gosling, Tristan Wilds
Duração: 103 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.