Crítica | Hellboy (2019)

“Você é a melhor e única esperança da humanidade.”

A retomada nos cinemas de Hellboy e do seu universo, oriundo dos quadrinhos da Dark Horse, acontece depois de mais de dez anos sem termos uma versão cinematográfica do personagem. Após os resultados na bilheteria terem impedido as primeiras adaptações de encerrarem uma trilogia, o retorno acontece por meio de um reboot. Dessa maneira, Neil Marshall, cineasta conhecido por obras de terror menores, tem espaço de sobra para criar o que quiser, visto que a proposta é por um recomeço completo do que Guillermo del Toro tinha construído a partir da primeira obra, de 2004. O cineasta mexicano até tentou terminar a sua saga, porém, foi impedido por conta do orçamento. Curiosamente, mesmo com as diferenças entre as execuções de um projeto e outro, que pensam o mundo de Hellboy de maneiras mitologicamente contrastantes, certas ideias do primeiro longa-metragem são retomadas – e até mesmo certos problemas parecidos. O personagem, agora sendo vivido por David Harbour, precisa confrontar a sua própria natureza, compreender os seus verdadeiros propósitos na vida. Em confronto com a Rainha de Sangue (Milla Jovovich),  Hellboy se perceberá como herói ou como a personificação do Demônio?

Essa discussão, entre o que é encantador e o que é horrendo, é iniciada pelos extremos visuais que o longa traz. Hellboy, em primeira instância, é muito mais alucinado, em vários sentidos, do que as duas outras produções envolvendo o personagem-título. A começar pelo visual do protagonista, temos uma criatura mais suja esteticamente, menos plástica, com mais detalhes, tornando-se bem mais grotesca. Os chifres cortados de Hellboy, por exemplo, não são aparados completamente, tendo protuberâncias que se destacam. Esse design marca com exatidão todo o conjunto que é principiado, aceitando para si uma quantidade grande de sangue e tripas. A performance de David Harbour é até mais ácida que a de Ron Perlman, trazendo mais palavrões, mais cinismo. Mas se existia um interesse romântico no longa de Del Toro para amaciar o temperamento do personagem, o reboot nos apresenta a Alice (Sasha Lane) como parte do passado do protagonista, um garota com poderes sobrenaturais. A questão é que nada Neil Marshall aproveita como um viés relevante para o seu projeto, apenas amarrando pedaços em um encadeamento narrativo que é estabanado: os flashbacks são montados de uma maneira arrítmica.

Mas, mesmo com tanta violência, Hellboy não chega nunca a ser um projeto sombrio. Pelo contrário, a peça é acompanhada por um espírito mais jocoso, que acompanha as cores e torna o gore propriamente dito muito mais uma manivela cômica que qualquer outra coisa. O longa é surpreendentemente colorido em determinados momentos, característica garantida pela cinematografia. Contudo, tudo que a direção tem para oferecer em ação são planos-sequência estranhos, movimentados por uma computação gráfica que não convence tanto quanto a maquiagem. Por exemplo, a obra começa com uma câmera que desce até o carro de Hellboy que é puro exercício nem tão decente assim de estilo. O rosto de um dos antagonistas, Gruagach (Douglas Tait), noutro caso, parece que vai se desfazer. A obra visa um estilo mais empolgante para alguns, que pode entreter esporadicamente, mas sem querer trazer muito conteúdo, muito propósito. E nem o estilo funciona tanto por si só, apenas pontualmente em ideias interessantes e às vezes pensadas com coesão – como o aproveitamento do folclore britânico. Tudo, porém, é solto demais para ter algum impacto, ou apontar alguma linguagem concreta que vai além do raso.

O tom steampunk de Guillermo, trazendo o misticismo para a realidade, some. O caso daqui é completamente distinto. Neil Marshall carrega a sua obra com uma fantasia mais desamarrada ao cerne do enredo, contendo gigantes, vampiros e outros tantos monstros que vão brotando de segmento em segmento. O roteiro do longa-metragem, por sua vez, não se importa em expor com cerimônia os tantos de elementos e conceitos novos surgidos em cena. E não precisaria, embora tudo pareça estar existindo de maneira gratuita, sem estar imerso em um encadeamento narrativo mais propício. O que importa para Hellboy é essa jornada do protagonista em perceber a sua natureza, como no original. Mas Marshall e o roteiro estão preocupados em fazer piadas, algumas piadas bastante fáceis, que não agregam à concepção do personagem e a um pensamento que contrasta monstros a homens, bem ao mal. Do contrário, Hellboy mostra-se uma colcha de retalhos e personagens sendo introduzidos incessantemente. Enquanto isso, Milla Jovovich encarna a antagonista principal genérica que só não desagrada completamente por estar aliada ao gore visualmente.  O conceito dessa vilã é até interessante, por ser, como a produção é, desmembrada.

Com isso, o espetáculo se tensiona sob esses alicerces estilísticos superficialmente, ao invés de explorar eles como parte do contraste entre o belo e o macabro, entre o herói e a personificação do mal que reside em Hellboy. Embora as adaptações de Guilllermo del Toro não fossem o ápice do cinema, com a primeira sendo até mais questionável e menos interessante que a competente segunda, o cineasta mexicano trazia consigo um entendimento de fundamentação de universo mais próprio da sua compreensão do que significam os monstros. Neil Marshall, por sua vez, está mais preocupado com uma trilha-sonora energética para enervar o público. Contudo, enerva à nada suficientemente instigante. As ameaças, que também eram bastante genéricas na primeira obra, permanecem sendo nesse reboot. O aspecto mitológico mais interessante é a exploração das lendas arturianas e só, tornando-se gratuito. O maior equívoco, no entanto, é novamente, como acontecia no primeiro Hellboy, a inoperância do drama entre o protagonista o seu pai, que naquele caso era vivido por John Hurt e agora é interpretado por Ian McShane. As tentativas de Hellboy em ser um símbolo de estilo morrem quando a obra não se importa em reter quaisquer traços de alma.

Hellboy – EUA, 2019
Direção: Neil Marshall
Roteiro: Andrew Cosby
Elenco: David Harbour, Milla Jovovich, Ian McShane, Daniel Dae Kim, Sasha Lane, Penelope Mitchell, Brian Gleeson, Sophie Okonedo, Alistair Petrie, Thomas Haden Church, Kristina Klebe, Ashley Edner, Douglas Tait
Duração: 121 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.