Home FilmesCríticas Crítica | Hellboy (2019)

Crítica | Hellboy (2019)

por Gabriel Carvalho
413 views (a partir de agosto de 2020)

“Você é a melhor e única esperança da humanidade.”

A retomada nos cinemas de Hellboy e do seu universo, oriundo dos quadrinhos da Dark Horse, acontece depois de mais de dez anos sem termos uma versão cinematográfica do personagem. Após os resultados na bilheteria terem impedido as primeiras adaptações de encerrarem uma trilogia, o retorno acontece por meio de um reboot. Dessa maneira, Neil Marshall, cineasta conhecido por obras de terror menores, tem espaço de sobra para criar o que quiser, visto que a proposta é por um recomeço completo do que Guillermo del Toro tinha construído a partir da primeira obra, de 2004. O cineasta mexicano até tentou terminar a sua saga, porém, foi impedido por conta do orçamento. Curiosamente, mesmo com as diferenças entre as execuções de um projeto e outro, que pensam o mundo de Hellboy de maneiras mitologicamente contrastantes, certas ideias do primeiro longa-metragem são retomadas – e até mesmo certos problemas parecidos. O personagem, agora sendo vivido por David Harbour, precisa confrontar a sua própria natureza, compreender os seus verdadeiros propósitos na vida. Em confronto com a Rainha de Sangue (Milla Jovovich),  Hellboy se perceberá como herói ou como a personificação do Demônio?

Essa discussão, entre o que é encantador e o que é horrendo, é iniciada pelos extremos visuais que o longa traz. Hellboy, em primeira instância, é muito mais alucinado, em vários sentidos, do que as duas outras produções envolvendo o personagem-título. A começar pelo visual do protagonista, temos uma criatura mais suja esteticamente, menos plástica, com mais detalhes, tornando-se bem mais grotesca. Os chifres cortados de Hellboy, por exemplo, não são aparados completamente, tendo protuberâncias que se destacam. Esse design marca com exatidão todo o conjunto que é principiado, aceitando para si uma quantidade grande de sangue e tripas. A performance de David Harbour é até mais ácida que a de Ron Perlman, trazendo mais palavrões, mais cinismo. Mas se existia um interesse romântico no longa de Del Toro para amaciar o temperamento do personagem, o reboot nos apresenta a Alice (Sasha Lane) como parte do passado do protagonista, um garota com poderes sobrenaturais. A questão é que nada Neil Marshall aproveita como um viés relevante para o seu projeto, apenas amarrando pedaços em um encadeamento narrativo que é estabanado: os flashbacks são montados de uma maneira arrítmica.

Mas, mesmo com tanta violência, Hellboy não chega nunca a ser um projeto sombrio. Pelo contrário, a peça é acompanhada por um espírito mais jocoso, que acompanha as cores e torna o gore propriamente dito muito mais uma manivela cômica que qualquer outra coisa. O longa é surpreendentemente colorido em determinados momentos, característica garantida pela cinematografia. Contudo, tudo que a direção tem para oferecer em ação são planos-sequência estranhos, movimentados por uma computação gráfica que não convence tanto quanto a maquiagem. Por exemplo, a obra começa com uma câmera que desce até o carro de Hellboy que é puro exercício nem tão decente assim de estilo. O rosto de um dos antagonistas, Gruagach (Douglas Tait), noutro caso, parece que vai se desfazer. A obra visa um estilo mais empolgante para alguns, que pode entreter esporadicamente, mas sem querer trazer muito conteúdo, muito propósito. E nem o estilo funciona tanto por si só, apenas pontualmente em ideias interessantes e às vezes pensadas com coesão – como o aproveitamento do folclore britânico. Tudo, porém, é solto demais para ter algum impacto, ou apontar alguma linguagem concreta que vai além do raso.

O tom steampunk de Guillermo, trazendo o misticismo para a realidade, some. O caso daqui é completamente distinto. Neil Marshall carrega a sua obra com uma fantasia mais desamarrada ao cerne do enredo, contendo gigantes, vampiros e outros tantos monstros que vão brotando de segmento em segmento. O roteiro do longa-metragem, por sua vez, não se importa em expor com cerimônia os tantos de elementos e conceitos novos surgidos em cena. E não precisaria, embora tudo pareça estar existindo de maneira gratuita, sem estar imerso em um encadeamento narrativo mais propício. O que importa para Hellboy é essa jornada do protagonista em perceber a sua natureza, como no original. Mas Marshall e o roteiro estão preocupados em fazer piadas, algumas piadas bastante fáceis, que não agregam à concepção do personagem e a um pensamento que contrasta monstros a homens, bem ao mal. Do contrário, Hellboy mostra-se uma colcha de retalhos e personagens sendo introduzidos incessantemente. Enquanto isso, Milla Jovovich encarna a antagonista principal genérica que só não desagrada completamente por estar aliada ao gore visualmente.  O conceito dessa vilã é até interessante, por ser, como a produção é, desmembrada.

Com isso, o espetáculo se tensiona sob esses alicerces estilísticos superficialmente, ao invés de explorar eles como parte do contraste entre o belo e o macabro, entre o herói e a personificação do mal que reside em Hellboy. Embora as adaptações de Guilllermo del Toro não fossem o ápice do cinema, com a primeira sendo até mais questionável e menos interessante que a competente segunda, o cineasta mexicano trazia consigo um entendimento de fundamentação de universo mais próprio da sua compreensão do que significam os monstros. Neil Marshall, por sua vez, está mais preocupado com uma trilha-sonora energética para enervar o público. Contudo, enerva à nada suficientemente instigante. As ameaças, que também eram bastante genéricas na primeira obra, permanecem sendo nesse reboot. O aspecto mitológico mais interessante é a exploração das lendas arturianas e só, tornando-se gratuito. O maior equívoco, no entanto, é novamente, como acontecia no primeiro Hellboy, a inoperância do drama entre o protagonista o seu pai, que naquele caso era vivido por John Hurt e agora é interpretado por Ian McShane. As tentativas de Hellboy em ser um símbolo de estilo morrem quando a obra não se importa em reter quaisquer traços de alma.

Hellboy – EUA, 2019
Direção: Neil Marshall
Roteiro: Andrew Cosby
Elenco: David Harbour, Milla Jovovich, Ian McShane, Daniel Dae Kim, Sasha Lane, Penelope Mitchell, Brian Gleeson, Sophie Okonedo, Alistair Petrie, Thomas Haden Church, Kristina Klebe, Ashley Edner, Douglas Tait
Duração: 121 min.

Você Também pode curtir

11 comentários

Marcellofn 26 de novembro de 2020 - 09:59

Eu vi quando passou os cinemas e até curti, talvez mais pelo impacto visual. Fui assistir novamente e os defeitos apareceram mais. A história é realmente confusa, acelerada, querendo colocar três arcos distintos em apenas um filme. O CGI é tosco em vários momentos e o humor mal colocado, com diálogos bobos em vários momentos. Do que realmente se salva, temos uma maquiagem e animatrônicos bem elaborados, principalmente no próprio Hellboy e em Baba Yaga, além da boa performance (na medida em que o roteiro permite) do David Harbour. Por ele se poderia pensar em dar uma nova chance ao Vermelhão, (spoiler)
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
principalmente se trouxerem o Abe, como indicou a última cena .

Responder
Thiago Cardoso 30 de maio de 2019 - 23:30

Eu assisti sabendo que iria ser uma bomba e até que gostei. Acho que é aquele tipo de filme que não deve ser mt levado a sério, como um Velozes e Furiosos ou Transformers. Daqueles que vc assiste pra se divertir. Reconheço sim todos os problemas do filme que foram apontados aqui, sim, estão todos la, mas não acho que o filme merece esse hate todo

Responder
Anônimo 9 de junho de 2019 - 17:18

sabe como e neh
se não for filme do mcu com certeza vai ser hateado

Responder
Jason Mota 19 de maio de 2019 - 19:49

O trailer super chamativo já deixou clara a ruindade deste filme.

Responder
Alexandre Tessilla 19 de maio de 2019 - 19:12

Era, pra mim, um dos filmes mais aguardados do ano. Os trailers me causaram estranheza. Mas eu acho um exagero esse boicote ao filme. É ruim? Muito provavelmente. Foi um fracasso lá fora e talvez seja um dos maiores na história das adaptações de quadrinhos. Mas o estranho é que na minha cidade nem divulgaram que estreou, quase nenhuma crítica se interessou de início, as propagandas para o filme se esvaíram. Estreou em apenas um horário noturno na minha cidade, horário que normalmente reservam para filmes que estão saindo de cartaz. Sério! Nunca tinha visto isso. Nem mesmo com filmes tão ruins que estreiam por aqui. Um boicote total da mídia, do boca boca, enfim. Vou assistir pra ver se ao menos me diverte, sem nenhuma expectativa, mais pelo personagem que eu curto. Parece que resolveram fazer um enorme contraste com Vingadores: Ultimato. Pertencentes ao mesmo gênero, mas com qualidades distintas. Espero que fiquem com dó e resolvam finalizar a trilogia do Del Toro.

Responder
Roger Jr 18 de maio de 2019 - 23:55

Agora eu entendi pq a rede de cinemas que eu sempre frequento, resolveu colocar somente o John Wick neste fds rs

Responder
Pablo 18 de maio de 2019 - 20:19

Hellflop

Responder
Eloyzyo Nascimento 18 de maio de 2019 - 14:48

Hellbomba rsrsrs

Responder
Gabriel Carvalho 18 de maio de 2019 - 14:20

Juntos e shallow now.

Responder
joshua david 18 de maio de 2019 - 13:43

Pra um personagem tão legal como o Hellboy ser massacrado, é desanimador. Não assisti o filme, nem vale a pena ir no cinema pra ver esse troço. Vou é esperar sair em torrent mesmo.

Responder
Junito Hartley 18 de maio de 2019 - 13:35

Pelos trailers lançados ja dava pra ser que ia ser uma bomba esse filme, infelizmente. Quando tiver em torrent eu vejo.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais