- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e de tudo sobre It.
Quando A Coisa na Escuridão acabou, minhas impressões negativas sobre o episódio inaugural da série derivada dos filmes de Andy Muschietti que adaptaram o romance It – A Coisa, de Stephen King, foram reiteradas em minha mente. Não sei se foi a greve dos Sindicados dos Roteiristas dos EUA de 2023 que afetou a temporada ou se foram problemas derivados da produção em si, mas esses dois primeiros capítulos de It: Bem-Vindos a Derry não poderiam ser mais diferentes. E confesso que essa é uma ótima notícia, pois, se as tentativas bobas e mal construídas de chamar atenção para si mesmo continuassem, não restaria nada de um material potencialmente rico para ser levados às telinhas.
Reparem, para começo de conversa, na forma como o sobrenatural é trabalhado aqui. No lugar de uma criatura monstruosa eliminando crianças da maneira mais violenta possível – a ponto de ser engraçado – em um cinema, o que ganhamos, agora, é algo que conversa melhor com os traumas das personagens que têm visões de horrores. Ronnie tem um pesadelo aterrorizante com sua mãe grávida dela, com direito a uma barriga dentada e cordão umbilical que a prende ao horror em sua cama, referenciando, possivelmente, o falecimento de sua mãe no parto e Lilly ganha uma fenomenal sequência no supermercado que é claustrofóbica e opressora ao limite, trazendo seu pai picotado de volta dentro de frascos de picles em conserva. Sai o horror aleatório abestado, entra o horror de dentro da narrativa e bem estruturado.
Mas isso ainda não faz da temporada nada que ultrapasse ali a mera linha mediana se levarmos esses dois episódios em consideração apenas. O restante de A Coisa na Escuridão é uma sucessão de acertos e erros, infelizmente sem nenhum grande acerto, mas felizmente também nenhum grande erro. A atmosfera de preconceito racial continua firme e forte, desta vez gravitando com mais ênfase ao redor da recém-chegada Charlotte Hanlon (Taylour Paige), esposa do Major Leroy Hanlon e mãe de Will (Blake Cameron James) e seus passeios pelo idílico bairro branco em que mora, com sequências que me lembraram alguns episódios de Lovecraft Country. Creio que essa escolha da produção, ou seja, de pontuar o racismo em diversas frentes, é um grande acerto, pois não só está em consonância com a época em que a série se passa, como também ganha evidentes – e cada vez mais preocupantes – ecos em nossa realidade atual. A forma como Will é absorvido de imediato na narrativa, estabelecendo laços com Rich (Arian S. Cartaya) em preparação à formação de mais um proto-Clube dos Perdedores, é bem mais eficiente em sua pressa do que a forma como os jovens já falecidos foram reunidos anteriormente, ainda que, mais uma vez, essa velocidade não pareça natural.
No lado militar do episódio, prefiro deixar meu julgamento final para quando essa linha narrativa andar um pouco mais para a frente, pois não comprei essa história de “arma do medo” que precisa do iluminado Dick Halloran (Chris Chalk) – ainda muito antes de se tornar o chef do Hotel Overlook – para localizá-la e do fisicamente destemido Leroy para manipulá-la. Sim, gosto do uso desse artifício para reiterar a outra boa atmosfera da série, aquela de paranoia causada pela Guerra Fria, e sim, gosto que haja uma evidente conexão com o “medo” ancestral que reside em Derry e que se manifesta, dentre outras formas, como Pennywise, mas não consigo mergulhar de verdade ainda no que parece ser uma sucessão de invencionices que pode dar muito errado em termos narrativos e transformar a série em algo completamente genérico. Mas, como disse, deixarei para abordar isso quando souber de mais detalhes, pois a névoa por sobre essa história ainda é espessa.
E, finalmente, voltando ao tema do preconceito racial, as consequências diretas do massacre no cinema servem para expor de maneira mais direta o mal no coração humano, com a vigilância de Hank (Stephen Rider), pai de Ronnie, na certeza de que ele é o responsável, a terrível chantagem que o chefe de policia faz com Lilly para que seu depoimento possa servir de verdade absoluta condenatória do “pré-culpado” e no desespero de Ronnie em ver seu pai sendo levado para a prisão. Como o episódio, apesar de longo, é um pouco tumultuado e carregado de informações, parecendo mais um piloto de série do que o efetivo piloto, esse trilho narrativo pareceu-me corrido demais, sem que o drama da família Grogan pudesse ser trabalhado a contento para além das pinceladas macro sobre racismo. Faltou converter a crítica social em drama humano.
Todavia, é definitivamente bom ver que, como A Coisa na Escuridão parece indicar, a temporada vai no caminho da recuperação depois daquele primeiro episódio milimetricamente criado para causar “sensação internética” e nada mais. Há muito a ser explorado com base direta ou mesmo apenas inspiração no material original de Stephen King e It: Bem-Vindo a Derry tem uma oportunidade de ouro de criar um derivado assustador sem precisar de bebês disformes alados.
It: Bem-Vindos a Derry – 1X02: A Coisa na Escuridão (It: Welcome to Derry – 1X02: The Thing in the Dark – EUA, 31 de outubro de 2025)
Desenvolvimento: Andy Muschietti, Barbara Muschietti, Jason Fuchs (baseado em romance de Stephen King)
Showrunners: Jason Fuchs, Brad Caleb Kane
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Austin Guzman
Elenco: Clara Stack, Amanda Christine, Blake Cameron James, Arian S. Cartaya, Matilda Lawler, Taylour Paige, Jovan Adepo, Chris Chalk, James Remar, Peter Outerbridge, Rudy Mancuso, Stephen Rider, Alixandra Fuchs, BJ Harrison
Duração: 66 min.
