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Crítica | Ivan, o Terrível – Parte 1 (1944)

por Guilherme Rodrigues
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A produção cinematográfica de Sergei Eisenstein era amplamente conectada com as necessidades propagandistas da nascente nação da União Soviética, filmes como Outubro, A Greve e Encouraçado Potemkin eram ferramentas de divulgação dos ideais comunistas, mostrando a força das massas e a decadência dos poderes que dominavam os trabalhadores. Mas com as mudança políticas na URSS, mudam também as necessidades da propaganda, e nos anos 40, com a chegada de Stalin ao poder, as massas, no cinema, dão lugar a uma grande personalidade unificadora e que protege a nação. Temos, assim, Ivan, O Terrível, longa comissionado pelo ditador e que enfrentou muitas dificuldades em sua produção.

A primeira parte, lançada em 1944, mostra a chegada ao poder de Ivan IV (Nikolay Cherkasov) que cria um poder central para evitar conflitos dentro do território, e estabelece um exército nacional para defender as fronteiras de ataques de estrangeiros. Seus planos geram receios nos outros membros da corte, afinal, é muito poder nas mãos de um homem só.  A cena de coroação mostra toda uma preocupação em definir muito bem a importância não só de Ivan, mas daqueles que testemunham a cena. Suas faces são o foco do intenso escrutínio pela câmera de Eisenstein, que faz questão de deixá-las bem demarcadas, mesmo que seus nomes não sejam tão evidenciados.

Essa atitude se estende também aos gestos de cada um ao longo da narrativa. Ivan já é um filme da era falada, mas é possível entendê-lo perfeitamente somente a partir de como os corpos e rostos agem em cena. A ameaça que certa personagem representa para o filho infante de Ivan não é demarcada por suas palavras, mas sim pela sua postura para com ele, se assemelhando a uma ave de rapina que vigia sua presa, além do contraste entre o preto de sua roupa, com o branco da mãe que protege o bebê. Da era muda, o longa carrega também as atuações exageradas, com ares teatrais que carregam muito mais a trama do que qualquer fala. Quando Ivan é traído por outros membros da corte, estes nada falam, mas desviam o olhar de modo dramático, lhe dão as costas, viram o rosto.

Mas claro, o destaque da produção fica para a construção de Ivan como um grande herói nacional, uma figura quase messiânica em seus atos, e nisso percebe-se o quão distante a produção está dos primeiros filmes do diretor. Nada do foco no coletivo aqui, mas sim a exaltação do gênio do Czar, que protegerá o povo dos “estrangeiros insolentes”, e que resolve um grande conflito unicamente por sua astúcia, e ao povo só resta admirá-lo e abaixar a cabeça somente pelo olhar do monarca ter caído sobre estes. Apesar de tamanha adoração, busca evidenciar que ele é um homem das massas, já que, quando estas invadem o palácio, ele é o responsável por aplacar os guardas, permitindo que elas entrem.

Ivan, O Terrível não é sutil em suas intenções propagandistas, se encerrando com o rosto de Ivan pairando sobre a população, reforçando a imagem dele como um grande “pai” do povo, alcunha que Stalin também possuía. Mas isso em nada subtrai da potência que o longa possui, mostrando o quanto Eisenstein era flexível em sua condução, já que aqui se encontra distante de tudo que marcou suas obras.

Ivan, O Terrível Parte I (Ivan Grozniy) – URSS, 1944
Direção: Sergei Eisenstein
Roteiro: Sergei Eisenstein
Elenco: Nikolay Cherkasov, Serafina Birman, Pavel Kadochnikov, Mikhail Zarov, Amvrosy Buchma,  Mikhail Kuznetsov, Lyudmila Tselikovskaya
Duração: 99 min.

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