Crítica | Jasão e os Argonautas

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Os mitos gregos, especialmente aqueles envolvendo navegadores corajosos — que desafiavam a fúria dos próprios deuses e mares desconhecidos, habitados por monstros ferozes — estão na gênese não só da figura tradicional do herói, mas na do próprio monstro. Não é de se surpreender, portanto, que Ray Harryhausen, produtor e diretor de efeitos especiais famoso pela criação de monstros em Stop Motion para o cinema fosse tão atraído por este tipo de história. Harryhausen criou criaturas para obras como Simbad e o Olho do Tigre (1977, que mesmo não sendo baseado na mitologia grega, compartilha muitas de suas características), Fúria de Titãs (1981) e claro, o seu mais famoso trabalho e objeto desta resenha, Jasão e os Argonautas (1963).

Na trama, Jasão (Todd Armstrong) retorna ao reino da Tessália para recuperar o seu trono, roubado anos antes pelo usurpador Pelias (Douglas Wilmer), que assassinou o pai do protagonista e tomou a coroa. Percebendo que para reconquistar a Tessália não bastaria apenas derrubar Pelias, mas obter uma prova de que os deuses estão do seu lado, Jasão resolve buscar o lendário velocino de ouro, localizado do outro lado do mundo, reunindo os guerreiros e marujos mais corajosos da Grécia para acompanhá-lo na jornada. Observado atentamente por sua protetora, a deusa Hera (Honor Blackman), Jasão lança-se em uma perigosa jornada onde diversos perigos o aguardam.

Dirigido por Don Chaffey, e escrito pela dupla Beverley Cross e Jan Read, Jasão e os Argonautas (às vezes traduzido como Jasão e o Velo de Ouro) coloca os seus personagens mortais como peças em um jogo disputado por Hera e seu marido Zeus (Niall MacGinnis), o que é representado de forma literal quando vemos o casal de deuses diante de um tabuleiro de xadrez. Desde a cena inicial, onde Pelias visita um vidente (Michael Gwyinn), na verdade o deus Hermes disfarçado, percebe-se que os personagens mortais simplesmente fazem o que as divindades do Olimpo esperam deles.

Sendo portanto, um filme muito mais investido na jornada do que em seus personagens, o roteiro de Cross e Read adota uma estrutura quase ramificada, já que basicamente acompanhamos os argonautas (nome dado ao grupo devido a nau Argo) tendo que vencer fases, com direito a seus próprios “chefões”. Jasão e os seus aliados precisam de suprimentos? Antes de irem embora, eles precisam passar por Talos, o gigante de bronze. Os argonautas querem informações do vidente Phineas (Patrick Troughton)? Antes eles devem livrá-lo das Harpias. 

Tal estrutura não é um problema, especialmente porque a direção de Don Chaffey é hábil em dar ritmo a tais sequências, nunca permitindo que elas se tornem monótonas. O cineasta conduz bem a ação, seja a de caráter mais grandioso, como a travessia pelo  desfiladeiro das Rochas Estrondosas, ou mais simples, como um duelo de espadas no convés do Argo. O único problema dessa estrutura tão investida na jornada do personagem é que o protagonista não parece possuir nenhum tipo de fechamento de arco dramático e, quando a obra se encerra, o arco do personagem fica em aberto, justamente por tal fechamento estar além da jornada.

Na parte das atuações, Honor Blackman e Niall Macginnis roubam todas as cenas de que participam como Hera e Zeus. Os dois atores transmitem uma excelente química como deuses, cuja relação pende ora para a rivalidade, ora para o companheirismo. Patrick Troughton em sua pequena participação como o vidente cego Phineas também merece elogios, ao entregar uma figura ao mesmo tempo trágica e divertida.

Os devidos créditos também devem ser dados à trilha sonora do mestre Bernard Hermann, que imprime o tom épico que a narrativa exige. Mas não tem jeito, os grandes astros de Jasão e os Argonautas são mesmo os efeitos especiais projetados pelo grande mago Ray Harryhausen. Os seus monstros em Stop Motion como o guerreiro gigante de bronze Talos ou a hidra de sete cabeças que protege o cobiçado velocino de ouro continuam a ser criações impressionantes, tal como o icônico clímax, onde Jasão e seus aliados enfrentam um batalhão de esqueletos. Vale ressaltar ainda o bom uso do Chroma Key na já citada cena da travessia das Rochas Estrondosas ou na passagem em que um diminuto Jasão visita o Monte Olimpo.

Jasão e os Argonautas é uma produção que envelheceu muito bem de modo geral. Sem grandes pretensões dramáticas, o filme de Don Chaffey cumpre com êxito o seu principal objetivo de entreter, e funciona como uma vitrine brilhante para o belo trabalho do genial Harryhausen. Poucas vezes os monstros da mitologia grega foram transpostos para a tela com tanta paixão.

Jasão e Os Argonautas (Jason and the Argonauts)- Inglaterra. 1963
Direção: Don Chaffey
Roteiro: Beverly Cross, Jan Read
Elenco: Todd Armstrong, Nancy Kovack, Gary Raymond, Laurence Naismith, Nigel Green, Honor Blackman, Niall Macginnis, Michael Gwynn, Douglas Wilmer, Jack Gwillim, John Cairney, Patrick Troughton, Andrew Faulds, Ennio Antonelli, John Crawford, Ferdinando Poggi.
Duração: 104 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.