Crítica | Jeremias – Pele

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Um dos mais antigos personagens de Mauricio de Sousa, Jeremias foi criado em 1960, como coadjuvante do Franjinha, e passou praticamente toda a sua existência nos quadrinhos em participações secundárias, aparecendo em enredos que não exploravam a sua personalidade ou lhe davam real importância. Foi exatamente por esse histórico que eu — e creio que muitos de vocês — fiquei espantado quando o título da 18ª Graphic MSP — o álbum da “maioridade” do projeto — foi anunciado. Com roteiro de Rafael Calça e desenhos e cores de Jefferson Costa, Pele coloca o delicado tema do racismo em cena e, com ele, os autores fizeram um trabalho fantástico, tornando esse volume um dos mais importantes e conscientes de todo o projeto até aqui.

É um pouco difícil não ter “medo” quando temáticas de cunho social/sociológico são abertamente trabalhadas em histórias em quadrinhos. A preocupação com o exagero ou com a superficialidade com que o tema será representado são os principais destaques nessas ocasiões. Conhecendo bem a linha MSP, eu já imaginava que haveria uma toada emotiva no tratamento da questão, mas confesso que não estava preparado para a maneira madura, forte e muito relevante com que o tema é explorado pelos autores. E o mais interessante de tudo isso é que a essência do projeto permaneceu imutável. Ainda estamos falando de um quadrinho que pode ser lido por adultos e crianças, ainda estamos falando de um tratamento “novo, mas sem perder de vista o tradicional” de um personagem do Mauricio, mas há algo diferente aqui. Há menos sugestões e há mais nomes dados aos bois. Há maior espaço para o realismo. Há algo que a gente consegue identificar em nosso dia a dia.

Pele é uma experiência única e sua visão inicial do Universo do protagonista já nos chama a atenção para o fato de que ele é um garoto de sorte. Sim, porque Jeremias é um menino de classe média, que mora com os pais e que, ao menos no aspecto de classe, não tem dificuldades. Essa quebra de um padrão de representação, não investindo na visão do “preto favelado“, abre as portas para um elogio imediato. Mas também deve-se elogiar o fato de vermos que, independente de classe social, a cor da pele, num país institucionalmente racista, sempre será um problema. E esta é uma questão que já se manifesta desde cedo, como a trama nos mostra muito bem.

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Como em toda HQ do projeto, o foco central do roteiro se mantém no cotidiano das crianças. E notem que tendo isso como foco, o enredo ganha ainda mais peso. Jeremias está em um estágio da vida onde a criança começa a se perceber e fazer valer a sua parte social do mundo. E sendo um garoto negro, ele precisa lidar com coisas que garotos brancos não precisam. Ele sofre, ele não entende, ele se enraivece. E todo esse dilema de recepção da realidade por uma criança é tão bem trabalhado nessa one-shot que não é de se espantar que tenha mexido algumas peças dentro da linha editorial das revistas da MS Editora. Também como em outras ocasiões, a arte nos traz um bom número de easter-eggs, tendo destaque para o Astronauta, por quem Jeremias é fascinado (ele quer ser astronauta). Mas também é possível ver a escola que aparece no Lições, a Turma da Mônica no Museu e uma série de outras referências ligadas à cultura negra, como a estátua da Mãe Preta (Largo Paissandu – SP) e o Monumento a Zumbi dos Palmares (Praça Antônio Prado – SP). No Museu, ainda vemos os quadros Pery e Cecy, de Horácio Hora, em homenagem a O Guarani, de José de AlencarBriga de Galo, de Benedito José de Andrade.

De cânone de Jeremias nos quadrinhos, o roteiro manteve a ideia de que a boina vermelha do garoto foi um presente do avô. A forma como o menino ganhou isso é uma novidade aqui e, assim como o discurso do pai em um momento de fúria e como a fala do próprio Jeremias na frente da sala, sobre a profissão de pedreiro, este momento da boina é um dos que trazem grande delicadeza e emoção na história. Sobre o avô, ainda vale dizer que o fato dele se chamar Graciano veio de uma homenagem a Sergio Tiburcio Graciano, que trabalhou com Mauricio de Sousa de 1966 a 2016.

Exibindo um problema real sem exageros e com muita pertinência, Rafael Calça e Jefferson Costa criam em Pele um ponto alto de abordagem para a Graphic MSP. E aqui nós temos de tudo, desde as “brincadeirinhas” racistas de amigos no colégio (os mesmos que depois dizem “eu não quis ofender ninguém!“) até uma abordagem truculenta da polícia no pai de Jeremias, que saca a Carteira de Trabalho para poder provar que não era um bandido. Um quadrinho forte, mas que em nenhum momento perde a essência da série e abre as portas para que o selo traga ainda mais dilemas sociais sofridos por crianças em nosso país. Coisas assim precisam ser ditas, seu impacto precisa ser mostrado e a esperança de melhoria e superação, exatamente como acontece em Pele, precisa estar sempre no horizonte.

Jeremias – Pele (Brasil, abril de 2018)
Graphic MSP #18
Roteiro: Rafael Calça
Arte: Jefferson Costa
Cores: Jefferson Costa
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Sousa Editora
Páginas: 98

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.