Crítica | Instinto Selvagem 2

É possível realizar uma continuação que seja superior ou ao menos mantenha o mesmo nível do filme ponto de partida? A maioria dos casos nos demonstra que não, mas a indústria cinematográfica já comprovou que é possível repetir uma fórmula sem desgaste. Francis Ford Copolla e Wes Craven são dois casos pontuais. O Poderoso Chefão 2 e Pânico 2 conseguem manter o clima de seus antecessores, talvez até os superando em estética e composição dramatúrgica. O mesmo, no entanto, não pode ser dito do roteiro escrito pela dupla formada por Leora Barish e Henry Bean, responsáveis pela continuação do explosivo Instinto Selvagem. Há uma atmosfera razoável, Sharon Stone estava linda e exuberante, mas os diálogos, os exageros dos pontos de virada e o esgotamento da temática “mulher fatal assassina e sedutora” não permitiram ao filme um lugar digno na história do cinema recente.

A abertura estabelece um tom que aos poucos se perde ao passo que a narrativa avança. Numa sequência análoga ao ato sexual, com o crescimento do desejo, da “ação”, o estabelecimento “clímax” e o relaxamento após todo o processo, Catherine Trammel (Sharon Stone), a perigosa escritora viciada em perigo está com um parceiro sexual em alta velocidade. Enquanto dirige, o homem aparentemente amortizado pelo efeito de alguma droga faz ela se divertir: ele a masturba, ela avança semáforos e delineia as ruas de Londres velozmente, até que ambos sofrem um acidente. Ele morre, ela sai ilesa. Acusada pela justiça pela morte do homem que a acompanhava, Trammel precisa comprovar que não é uma mulher perigosa.

Para conferência do perfil psicológico da investigada, o psiquiatra Michael Glass (David Morissey) é escalado para avaliar a condição da escritora. Atraído logo no primeiro encontro, o contato entre ambos vai dar inicio a um jogo que envolverá sexo, mentiras, crimes e sangue. Ao ser liberada pela justiça, Trammel procura o analista para as suas sessões pessoais, interessada em mais um homem para realizar os seus “jogos sensuais e mortais”. O resultado vai ser uma trilha de corpos e situações bizarras envolvendo as pessoas que gravitam em torno de Michael e Catherine. Seduzido por essa “sereia”, falta astúcia para o personagem livrar-se do problema. Conselhos não lhe faltam. A Dra. Milena Gardosh (Charlotte Rampling) pede que ele tenha cuidado, mas levar Trammel para a cama parece mais importante que os seus projetos profissionais e pessoais. Há também outro sinal de alerta constante, interpretado por David Thewlis, isto é, o detetive Roy Washburn, homem que não se cansa de investigar Trammel, desconfiado da sua conduta criminosa.

Caricato e vulgar, Instinto Selvagem 2 pega todo o esquema narrativo do seu antecessor, repleto de ousadia e sensualidade, e o deforma, transformando o filme numa narrativa apenas mediana sobre uma mulher que usa o seu poder de persuasão para deixar alguns homens aos seus pés. Espécie de arquétipo de si mesma, Catherine acha que é a mulher mais imperdível do planeta. Sua voz rouca e o seu figurino repleto de fendas e decotes demonstram que ela é bem engajada na arte de seduzir, elementos ideais para conduzir Michael em sua obsessão que trará resultados trágicos até o final da narrativa.

Há alguns pontos que merecem destaque: a cenografia é sombria e emula bem os estereótipos do cinema noir. O tema de Jerry Goldsmith, ponto alto do primeiro filme, é reutilizado, elemento que estabelece um clima gélido e erótico em algumas cenas pontuais. A direção de fotografia assinada por Gyula Pados é eficiente, num constante diálogo com os edifícios sensuais da arquitetura de Londres. Esqueça os clichês dos policiais fardados, das tomadas no Big Ben ou do Parlamento, bem como os ônibus vermelhos de dois andares. Ao longo do filme, temos a captação do lado soturno da capital inglesa, espaço geográfico escolhido pela anárquica e amoral personagem de Sharon Stone, interessada em se divertir ao devastar vidas alheias. Todos os elementos, entretanto, não são suficientes para salvar o filme dos seus problemas narrativos.

Instinto Selvagem 2 já começa em desvantagem por conta das comparações com o filme anterior. Após 14 anos das primeiras atitudes criminosas de Catherine Trammel, o cineasta Michael Caton-Jones faz o que é possível, mas não consegue alcançar a atmosfera da trama situada em 1992, em São Francisco. A química entre Michael Douglas e Sharon Stone não se repete com o novo parceiro, tampouco a plausibilidade de alguns acontecimentos desta versão, repleta de elementos, digamos, mais “exagerados”. Tudo isso, no entanto, não faz da continuação um filme abominável como apontado por muitos críticos e pelas premiações da época de seu lançamento. Apesar de previsível, vulgar e pouco criativo, o filme consegue estabelecer um clima de tensão e sedução que nos atrai, haja vista o magnetismo de Sharon Stone com a câmera, bem como o jogo de sedução que mesmo soando artificial em alguns trechos, consegue promover uma excitação rápida em outros momentos.

Os problemas de bastidores envolveram a produção desta continuação desde os primeiros esboços do roteiro. Na indústria se dizia que era um projeto de risco. Entre idas e vindas, Sharon Stone processou os produtores, pois enquanto não se decidiam sobre o inicio das filmagens, ela perdia outras oportunidades. Em 2001, a atriz sofreu um aneurisma, celeuma que a afastou do mundo do entretenimento e da dramaturgia durante alguns anos. Os atores que eram convidados desistiam constantemente e quando alguns aceitavam, a atriz alegava que não eram ideais. Quando tudo entrou nos eixos, os envolvidos não faziam ideia das consequências. Fracasso de crítica e bilheteria, Instinto Selvagem 2 enterrou qualquer possibilidade para um terceiro filme, ideia cogitada pelos produtores antes do lançamento e dos resultados.

Para um filme que tem o sexo como elemento básico da narrativa, esta sequência fica devendo bastante ao espectador. A opinião de um crítico na época pode ser corolário para refletirmos sobre a sua condição: “Instinto Selvagem 2 está mais para uma transa rápida que um orgasmo inesquecível”. Sem dúvida, opinião certeira e humorada. A produção não chega a ser memorável, mas também não é totalmente descartável. Lembra muito o caso Jodie Foster e Hannibal. Sharon Stone, entretanto, não teve a sabedoria para se esquivar do projeto. Quando convidada para a continuação de O Silêncio dos Inocentes, Foster recusou a participação, pois ao ler o roteiro, não acreditou que o sucesso se repetiria, além de achar a trama muito violenta e menos intensa que o embate que rendeu cinco estatuetas do Oscar aos envolvidos.

Sharon Stone, por sua vez, não conseguiu detectar as falhas do roteiro da continuação de Instinto Selvagem, provavelmente escancaradas no material escrito. O resultado culminou na entrega de várias estatuetas, mas desta vez, sem o prestígio do “maior” prêmio da indústria, afinal, para quem se lembra, Instinto Selvagem 2 levou a maioria das “framboesas” de ouro referente ao seu período lançamento. O troféu é uma piada e nem deve ser levado em consideração, haja vista algumas incongruências, mas foi a resposta da crítica e do público para uma das continuações mais esperadas entre os anos 1990 e 2000.

Instinto Selvagem 2 — (Basic Instinct 2) Alemanha, 2006.
Direção: Michael Caton-Jones
Roteiro:  Leora Barish, Henry Bean
Elenco:  Sharon Stone, Anne Caillon, Charlotte Rampling, David Morrissey, David Thewlis, Hugh Dancy, Iain Robertson, Stan Collymore
Duração: 118 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.