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Crítica | Josey Wales, o Fora da Lei

por Luiz Santiago
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Assistindo a Josey Wales, o Fora da Lei (1976), ninguém diria que o livro de 1972 no qual é baseado — The Rebel Outlaw: Josey Wales, que depois teve o título mudado para Gone to Texas — foi escrito por um ex-líder e retórico da KKK, tendo coescrito o desgraçado e famoso discurso do governador do Alabama, George Wallace, que em 1963 apregoava “segregation now, segregation tomorrow, segregation forever“. O roteiro de Philip Kaufman e Sonia Chernus, no entanto, cria uma obra que passa uma mensagem progressivamente pacifista (como parte do amadurecimento do personagem principal) e claramente anti-segregação.

A produção do filme, no entanto, não teve um início pacífico. As filmagens começaram em 6 de outubro de 1975, sob a direção de Philip Kaufman. Divergências criativas e pessoais (ligadas ao flerte que ambos faziam à atriz Sondra Locke) resultaram na demissão de Kaufman 18 dias depois de iniciadas as filmagens, e quem assumiu a direção foi a estrela do filme, Clint Eastwood. A ação foi tão mal vista em Hollywood, que o Sindicato dos Diretores aprovou uma regra apelidada de “the Eastwood Rule“, proibindo que qualquer produtor ou membro da equipe demitisse um diretor contratado para um projeto e assumisse a cadeira de direção em seu lugar. E mesmo com todo esse inferno inicial, Eastwood ainda conseguiu criar uma fantástica história de vingança, maturidade e reconstrução de uma vida após uma grande tragédia.

A trama começa apresentando o evento que colocará Josey Wales (Eastwood) em uma trilha de vingança contra os que destruíram a sua propriedade e mataram sua família, premissa que não é novidade no faroeste, mas que o roteiro trabalha de forma analítica e madura, inserindo um evento histórico que raramente aparece nos filmes, o período de 1854 a 1861 (portanto pré-Guerra Civil Americana) chamado Bleeding Kansas, onde grupos anti e pró-escravidão se enfrentaram violentamente no território fronteiriço do Kansas (em torno do qual se debatia o fato de entrar para a União como um Estado escravista ou não) e também em algumas cidades do Missouri. A luta de guerrilhas, a presença de comancheros e a própria Guerra Civil são bem representadas aqui e marcam esse cenário de violência, perseguição e brigas “ideológicas” que atingiam às três principais raças do país: brancos, negros e índios.

O espectador percebe uma certa mudança no nível de detalhamento dos planos entre o início e o restante do longa, mas a qualidade da obra não cai. O que Eastwood faz aqui é colocar alguém que passou por terríveis momentos na vida, causados por querelas sociais/estatais, e faz com que este indivíduo inesperadamente se reconecte com as pessoas e talvez passe ver o mundo de uma forma menos amarga. Cada um dos que cruzam o caminho de Wales (e compassadamente o texto se permite um tom cômico diante desse cruzamento) traz-lhe alguma coisa nova, a ponto de a reta final da película quebrar duas grandes expectativas de violência, uma no encontro do protagonista com o comanche Dez Ursos (Will Sampson) e outra no encontro dele com Fletcher (John Vernon), na sequência final do filme, esta sim, com um resultado não totalmente positivo.

Há uma semelhança de propósito dramático entre este filme e O Estranho Sem Nome, primeiro western dirigido por Eastwood, mas a diferença entre as obras é que em Josey Wales há espaço para duas coisas que normalmente não figuravam como essência na fase clássica do gênero, mas que nesta Era dos Finais Sem Glória apareciam pelo menos como uma ironia: a possibilidade de paz entre os diferentes e a esperança de uma vida e um mundo melhor. A vingança não é negada a quem quer vingança e os horrores das muitas guerras possíveis no Velho Oeste ainda estão aqui. Mas a alteração no espírito do protagonista coloca as coisas em perspectiva e nos faz ver que talvez exista algo melhor na vida do que apenas satisfazer uma ira acumulada.

Josey Wales, o Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales) — EUA, 1976
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Philip Kaufman, Sonia Chernus (baseado na obra de Forrest Carter)
Elenco: Clint Eastwood, Chief Dan George, Sondra Locke, Bill McKinney, John Vernon, Paula Trueman, Sam Bottoms, Geraldine Keams, Woodrow Parfrey, Joyce Jameson, Sheb Wooley, Royal Dano, Matt Clark, John Verros, Will Sampson
Duração: 135 min.

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