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Crítica | Jovens Bruxas

por Leonardo Campos
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Os anos 1990 foram notáveis na representação das bruxas no cinema, era de produções voltadas ao cômico, ao horror com toques românticos e ao reduto mais familiar destas personagens que apareceram em Convenção das Bruxas, Abracadabra, As Bruxas de Salem, Da Magia à Sedução, dentre outros, feixe de realizações que também contempla o olhar juvenil e feminista de Jovens Bruxas, pequeno clássico moderno que marcou profundamente algumas gerações e apesar de ter envelhecido um pouco em alguns aspectos dramáticos, continua relevante em seus aspectos visuais e na abordagem de velhos problemas comportamentais que acompanham a humanidade como se fosse uma sina. Racismo, bullying, misoginia, distúrbios psicológicos ocasionados por traumas familiares e outras crises contemplam o conteúdo geral desta narrativa de 105 minutos, comandada pelo cineasta Andrew Fleming, também responsável pelo roteiro, escrito em parceria com Peter Filard, autor do argumento desenvolvido no filme que ressalta valores wicca, tradição que busca harmonia entre o meio que se vive e com quem se convive, com elementos pagãos marcados pelos ciclos lunares e solares, em suma, a natureza.

Na trama, acompanhamos a chegada de Sarah (Robin Tunney) em São Francisco, jovem que se muda junto com o seu pai e a madrasta. De passado conturbado, a jovem encontra alguma dificuldade em estabelecer novas amizades na escola e não demora para que se aproxime do clã tratado com rejeição por muitas pessoas da instituição, o grupo formado por Nancy (Fairuza Balk), Bonnie (Neve Campbell) e Rochelle (Rachel True), garotas adeptas do paganismo, conhecidas pelos corredores como as “Vadias de Eastwick”. Lideradas pelo gênio forte de Nancy, a jovem que vive uma relação abusiva em casa, com a mãe alcoólatra e o padrasto misógino, cada uma é apresentada diante de seus conflitos internos e externos, bem como delineadas necessidades dramáticas. Enquanto Nancy possui espelhos comportamentais agressivos em casa que a fazem reagir de maneira ácida diariamente, Bonnie é a insegura, receosa de sua aparência por causa de queimaduras que tomam boa parte de seu corpo. Já Rochelle, por ser negra, sofre os esperados problemas raciais em torno da sua imagem e grupo social.

No fundo, as três, juntamente com a recém-chegada, buscam a tal normalidade de se viver sem pressões e alijamentos sociais intrínsecos de contatos sociais conflituosos. Parece, no entanto, que as pessoas não estão interessadas num favorável clima de paz e ao passo que a narrativa se desdobra, determinadas situações ganham um caminho insuportável que culmina no uso de magia em prol do maligno. Chris (Skeet Ulrich) é um dos babacas cafajestes da instituição de ensino onde parte do filme se desenvolve. Ele sai com Sarah e espalha boatos nada gentis sobre a moça, colocando-a numa posição comprometedora. No caso de Rochelle, a figura algoz é Laura (Christine Taylor), a loira branca racista que pratica atos de bullying constantes com o cabelo e a cor da pela da jovem. Junte ao caldeirão de ódio de uma era pré Columbine, os tratamentos dados a Bonnie e sua aparência fora dos padrões de beleza social e a ira de Nancy com a vida para que as jovens comecem a utilizar magia em prol da vingança.

Ao invocar Manon, uma entidade secular fictícia, as coisas fogem do controle. Sarah começa a se afastar dos ideais das três jovens reativas e violentas. É nessa jornada de afastamento que ela se autodescobre: a sua mãe, falecida durante o seu parto, era uma bruxa verdadeira e diferente das novas amigas que se tornam inimigas, os poderes regidos não são oriundos de invocação de magia, mas fazem parte de sua própria formação. Perseguida pelas recém-conhecidas, Sarah adentra numa sufocante jornada para tentar salvar a si e aos que gravitam muito próximos de sua vida. Uma guerra é travada dentro e fora da escola, com uma série de conflitos psicológicos envolvendo as personagens mergulhadas nos embates construídos com eficiência pela equipe técnica de Andrew Fleming: Kelley Ray, nos efeitos visuais, permite que Jovens Bruxas cumpra com eficiência a sua jornada estética voltada ao horror, com manipulação digital da imagem, recurso somado aos efeitos especiais e design de produção, este último, assinado por Marek Dobrowolski.  A supervisão de maquiagem de Tony Gardner também cumpre bem a sua função.

Na condução das imagens, Alexander Gruszynski dirige a fotografia fílmica com iluminação imersiva e alguns enquadramentos sofisticados, mas nada muito surpreendente para um filme com personagens e objetos em levitação e demais truques de bruxaria. Outros dois setores funcionam bem para o avanço da narrativa: a partitura de Graeme Revell, trilha sonora envolvente para os temas abordados pelo enredo, e os figurinos de Deborah Everton, eficientes no desenvolvimento das características visuais acerca das necessidades dramáticas das personagens, bem como material que ultrapassou os limites cinematográficos e ganhou dimensões sociais, um vasto legado de moda gótica para 1996 e os anos subsequentes. Há relatos que reforçam também a importância dos aspectos visuais e temáticos da produção para a massificação do olhar exclusivamente excêntrico em torno da bruxaria, tema ainda envolto em polêmicas e interpretações influenciadas por pontos de vista cristãos.  Ademais, maior do que deveria ser em sua duração, Jovens Bruxas é uma trama relativamente monótona e com discurso que ao ser retomado quase três décadas depois, pode ganhar uma roupagem bastante conectada com as celeumas em torno dos atuais relacionamentos humanos.

Jovens Bruxas (The Craft/Estados Unidos, 1996)
Direção: Andrew Fleming
Roteiro: Andrew Fleming, Peter Filardi
Elenco: Robin Tunney, Fairuza Balk, Neve Campbell, Rachel True, Skeet Ulrich, Christine Taylor, Breckin Meyer
Duração: 101 min

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