Crítica | Ligeiramente Grávidos

“Porque o seu rosto parece uma vagina.”

Judd Apatow é conhecido por comédias que tratam do tempo envolvendo os seus personagens e como esse tique-taque pode ser problemático. O primeiro longa-metragem de sua carreira continha enquanto premissa justamente os esforços de um homem com quarenta anos em perder a sua virgindade. O envelhecimento, noutros casos, também surgiria como pauta para as produções do cineasta, assim como, mais especificamente, a narrativa de um comediante com pouco tempo de vida. Ligeiramente Grávidos, por sua vez, é o oposto, porque traz o pretexto de personagens novos entrando no espaço costumeiramente ocupado por pessoas mais velhas. Alison Scott (Katherine Heigl) e Ben Stone (Seth Rogen) são jovens que subitamente precisam confrontar o surgimento de uma gravidez indesejada. Como nem se conheciam verdadeiramente antes, terminam adentrando numa jornada para descobrir quem são, quais seus pontos positivos e seus pontos negativos. Um relacionamento é necessariamente destinado a fracassar? Em meio a uma camada de comédia romântica e igualmente o retrato de uma gravidez precoce demais para ser ansiada, o que se revela mais profundamente, curiosamente, é Apatow enxergando a si mesmo e o mundo de Ben como irresponsáveis mediante os universos de responsabilidades que as vidas dos adultos trazem.

Assim como o ritmo de rotina que o cineasta é muito competente em recriar, dando valor a uma relação causa-consequência mais ordinária, a montagem da comédia, já nas suas primeiras cenas, exemplifica outras intenções do longa. Com a contraposição do cotidiano de Ben com o de Alison, Apatow estabelece a imaturidade de um ambiente contrastando a maturidade de outro. Enquanto, em um caso, a garota mostra estar empregada em um lugar respeitável, consegue inclusive uma promoção e pode até mesmo ajudar a sua irmã em transportar as suas sobrinhas para a escola, noutro uma certa calamidade é notória. Seth Rogen, juntamente com seus amigos, simplesmente se comportam do modo como as usuais comédias com o ator normalmente se comportam. Por que Martin Starr ter muitos pelos no rosto seria uma gag, senão como amostra de um tipo de humor muito particular, quase escolar? Com isso, grande parte do elenco masculino de Freaks & Geeks, que possuiu o envolvimento de Judd na produção, retorna. E significa bastante, ao mesmo tempo, o fato de nenhum desses personagens terem nomes próprios, apenas pegando os primeiros dos seus respectivos atores. Até James Franco pôde aparecer. Eles não são personagens, porém, arquétipos.  E Apatow os criticará, enquanto usa da comédia real para zombar do quão inúteis são.

O roteiro, que o próprio diretor escreveu, estabelece com profusão, portanto, o quão destinado a fracassar um relacionamento como esse é. Ora, o sobrenome de Ben é logo Stone, sugerindo uma piadinha em vista do seu personagem usar drogas com bastante frequência. O segmento posterior ao sexo que ocasiona a gravidez, nesse sentido, nos garante que um encontro daquele nunca se repetiria novamente. Alison aparenta até arrependimento. A química entre os dois simplesmente não acontece. Mas, agora, um bebê está a caminho, e o convívio é retomado, para sorte ou azar dos que encontram-se à espera de uma criança. Se outras comédias românticas tratariam dos romances que têm que tornar-se realidades, pautados em almas que precisam estar juntas pois o universo as reuniu, Ligeiramente Grávidos não se preocupa com isso. O amor, aqui, reside na construção, na superação de passo a passo. Aos poucos, Ben compreende os nervos de Alison, e Alison passa a rir das piadas de Ben. O problema do roteiro, contudo, é não ter a menor noção de como resolver o arco do protagonista, que parece encontrar, inesperadamente, algum sucesso, após redundar no fracasso. Judd guarda apenas alguns instantes para redefinir os planejamentos do personagem. Como se comprar uma casa e arrumar um emprego fosse algo tão simples assim.

O cineasta, no mais, exagera um pouco na duração do projeto, pois poderia retirar uma quantidade enorme de piadas entre os personagens masculinos, que tornam-se repetitivas. Durante o parto, por exemplo, Jonah Hill e Jay Baruchel aparecem brincando em cadeiras de rodas, mas sem nenhuma razão aparente. A exceção no quarteto de amigos é Jason Segel, que recebe boas cenas pontuais para contracenar com Leslie Mann. Por sinal, essa narrativa com a irmã e o cunhado da protagonista, interpretado por Paul Rudd, ganharia uma continuação na comédia Bem-Vindo aos 40, também dirigida por Apatow. Já aqui serve para representar uma possibilidade de futuro ao casal protagonista. Uma das polêmicas que a comédia traz, no entanto, ganha sustento com esse núcleo e o papel de Mann, acerca do tratamento às personagens femininas, vistas como estraga-prazeres. Porém, os homens, em contraste às mulheres, são extrovertidos, embora infantis. Da quase caricatura orquestrada em termos de maturidade e imaturidade aos gêneros, origina-se essa discriminação. Como Apatow não é tão preciso ao concluir o arco de Rogen, não humaniza-se perfeitamente o relacionamento. Mesmo assim, a comédia articula com consistência a necessidade de crescimento e compreensão mútua que relacionamentos, para poderem se sustentar, precisam.

Ligeiramente Grávidos (Knocked Up) – EUA, 2007
Direção: Judd Apatow
Roteiro: Judd Apatow
Elenco: Seth Rogen, Katherine Heigl, Leslie Mann, Paul Rudd, Jason Segel, Jay Baruchel, Jonah Hill, Martin Starr, Maude Apatow, Iris Apatow, Harold Ramis, Alan Tudyk, Kristen Wiig, Bill Hader, Craig Robinson, Charlyne Yi, Ken Jeong, B. J. Novak, Adam Scott, James Franco
Duração: 129 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.