Crítica | Logorama

É um tanto difícil postular um motivo para que um dos curta-metragens mais criativos de todos os tempos ainda seja pouco conhecido mesmo por um público mais versado em cinema. Logorama conquistou festivais como Cannes e Sundance e arrebatou uma estatueta no Oscar de 2010. O curta animado foi escrito a seis mãos pelos franceses François Alaux, Hervé de Crecy e Ludovic Houplain e cria uma verdadeira cidade-propaganda – algo distópica, mas ao mesmo tempo dosando humor e leveza em sua concepção. Mesmo assistindo a Logorama por dezenas de vezes, não é possível identificar todas as marcas, logos, símbolos e mascotes espalhados pelas ruas coloridas da cidade. É claro que toda essa poluição (não somente visual) não foi colocada lá à toa. O espectador olha confuso para um mundo em que os símbolos de diversas empresas dominaram todo o espaço urbano e, identificando algumas delas, se vê impelido a olhar para o nosso próprio mundo. O quão distantes estariam a nossa realidade e a fantasia proposta pelo trio francês?

Esse é só o primeiro desconforto que se tem assistindo à história cujo arco central é a perseguição de um Ronald Mcdonald nada simpático por dois policiais com forma de bonecos da Michelin. O segundo, como já deixei implícito, é o fato de que nem pessoas de fato há no enredo. Todos os cidadãos se transformaram em logomarcas de grandes corporações. Até os animais se converteram em mascotes, a exemplo do famoso leão da MGM, que não só ruge como se esconde de constrangimento em dado momento. Com uma trama bem simples, Logorama leva seus personagens a uma caça desenfreada, aludindo à própria disputa feroz entre as empresas que dominam o capitalismo mundial. O resultado é a ruína da própria cidade, que parece ter se esgarçado a ponto de não suportar mais os seus próprios apetites consumistas.

A crítica ao capitalismo parece bastante surrada, mas é em sua roupagem que o curta-metragem triunfa. Conhecer cientificamente os problemas do sistema capitalista não é o mesmo que ver uma cidade contaminada por suas cores, seus símbolos e sua ansiedade transformada em perseguição e destruição gráfica. Não me lembro de ter visto no cinema tamanha conspurcação visual, causada pelo sistema econômico mundial, como se vê em Logorama. Só isso já tornaria o curta-metragem uma oportunidade única e imperdível de ver a arte dando tão bem o seu recado. Mas é preciso tratar mais a fundo também do ponto mais crítico da obra para mim, já que ele tem desdobramentos que vão ainda além do que está explicitado nela. Eu me refiro à despersonalização do homem nessa cidade-propaganda. Se cada cidadão foi convertido em um letreiro, então se faz necessário notar que tudo se tornou produto. Até o homem.

As implicações disso transcendem de modo interessante o que está de fato no escopo do curta-metragem. Uma década após o lançamento de Logorama, vemos alguns desdobramentos mais profundos dessa ideia no contexto das próprias mídias sociais. Continuamos a nos medir por números na disputa que travamos uns com os outros, seja ostentando emblemas cada vezes maiores em nossas próprias roupas (os cavalos de certa marca não param de crescer a cada nova coleção), seja travando uma batalha infinita por likes e seguidores em redes sociais. Além disso, temas tão antigos e desafiadores, como a felicidade, adquiriram nova embalagem em nosso tempo e também se encontram à venda. São ofertados como bem de consumo pronto e universal na mórbida febre dos coaches, que tentam ensinar o que nunca aprenderam e possivelmente nunca saberão. Tudo isso pode ser trazido à mente vendo e revendo o singelo e exitoso curta-metragem francês. Se sua duração é tão curta – apenas 16 minutos –, o efeito reflexivo que provoca pode ser bem mais duradouro para um espectador mais esperto.

Demandando tão baixo orçamento, Logorama merece maior destaque não só dentro do gênero, mas como ótima ferramenta para todo interessado em pensar o nosso tempo com alguma desenvoltura, em vez de simplesmente viver à deriva em um mar de signos inúteis e estupidez precificada – metáfora essa que não é minha, mas encerra com excelência a provocativa obra.

Logorama – França, 2009
Direção: François Alaux, Hervé de Crecy e Ludovic Houplain
Roteiro: François Alaux, Hervé de Crecy e Ludovic Houplain
Duração: 16 minutos.

 

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.