Não entendo muito bem como ainda dizem por aí que a Marvel segue uma fórmula engessada se cada uma de suas séries live-action é completamente diferente da outra, mesmo que, claro, todas tenham que compartilhar em maior ou menor grau o mesmo universo e, com isso, criar as circunstâncias para que as conexões sejam feitas. Claro que há variações de qualidade entre elas, como não poderia ser diferente, vale dizer, mas a insistência com afirmações essas sim formulares de que existe uma fórmula parece ignorar a variedade do que vem sendo apresentado no Disney+ desde que WandaVision aportou nas telinhas no começo de 2021. Reconheço que a fadiga com material de super-heróis é real e eu mesmo a sinto, mas isso não é suficiente para colocar tudo no mesmo saco, com Magnum sendo somente a mais recente prova de que o Universo Cinematográfico Marvel consegue entregar abordagens realmente interessantes e ricas aos seus personagens, dos mais ao menos importantes no contexto geral.
Afinal, aqui, temos uma minissérie que ao mesmo tempo introduz Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II), o Magnum, ao UCM, como serve de bem-vindo encerramento do arco narrativo mais improvável desse universo compartilhado, o do ator Trevor Slattery (Ben Kingsley), que foi apresentado como a sensacional versão falsa do Mandarim no ainda injustamente subestimado Homem de Ferro 3, ganhando o curta Todos Saúdem o Rei e aparecendo pela última vez em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. E isso em uma embalagem cuidadosa que foge de rótulos fáceis e aborda e critica aspectos sobre a desalmada máquina hollywoodiana de fazer filmes de forma mais esperta e mais relevante do que a celebrada primeira temporada de O Estúdio, algo que fica particularmente evidente no episódio em preto e branco integralmente dedicado ao super-herói Porta, vivido por Byron Bowers, e que explica a “cláusula Porta” que impede que pessoas com superpoderes atuem em Hollywood e que, claro, aflige sobremaneira o protagonista da minissérie.
Erigida sobre a estrutura de uma comédia dramática, Magnum faz de Simon Williams um ator talentoso que, porém, revela toda sua insegurança fruto de décadas escondendo quem ele verdadeiramente é, ao tornar-se o chato no set de filmagem que, para fazer uma mera ponta em uma série com apenas uma fala, precisa discutir o roteiro profundamente com diretora e roteirista até o ponto da exaustão absoluta que torna mais simples e econômico simplesmente demiti-lo. Essa sua característica é introduzida logo nos primeiros minutos e, somente com o tempo entendemos de onde ela vem, com tudo ganhando forma quando, durante uma sessão do brilhante Perdidos na Noite, filme que permanece presente constantemente no pano de fundo espiritual da minissérie, ele conhece Trevor Slattery que, indiretamente, o leva à uma audição para o remake do filme oitentista Magnum de que Simon é um grande fã em função de seu pai. No entanto, como não demora a ficar claro, o encontro de Simon com Trevor não foi sem querer e algo mais sinistro começa a surgir por trás que se relaciona tanto com o passado de Trevor quanto com o poder suprimido de Simon, mesmo que a relação de amizade entre os dois floresça e seja genuína.
É perfeitamente possível afirmar que Magnum não é uma série de super-heróis, pois essa característica, exatamente como os poderes que Simon tenta manter escondidos para poder ter chance na profissão que escolheu, fica quase que totalmente no banco de reservas, só realmente aparecendo em momentos muito breves e específicos, além de substancialmente discretos até o epílogo alongado – e, ao meu ver, desnecessário – do último episódio, o único momento em que vemos algo mais na linha do que em tese esperamos de uma obra dessa natureza. No entanto, o que realmente interessa é que essa decisão criativa de Destin Daniel Cretton (diretor e corroterista de Shang-Chi e Andrew Guest, que trabalhou na ótima Gavião Arqueiro) funciona muito bem, quase que passando a mensagem que ter superpoderes nesse universo não é mais algo tão extraordinário assim e que a vida segue normalmente com ou sem eles. Yahya Abdul-Mateen II, em seu terceiro papel baseado em quadrinhos – depois de Arraia Negra em Aquaman e Aquaman 2 e Cal Abar/Doutor Manhattan na minissérie Watchmen – convence desde os primeiros segundos em que aparece na tela como um homem inteligente, estudioso, mas profundamente ansioso e fechado em si mesmo e em seus objetivos que não consegue manter relacionamentos amorosos ou mesmo amizades, com a chegada de um Ben Kingsley novamente mais do que inspirado em seu já clássico papel estabelecendo química imediata, algo essencial para a “comédia de amigos” focada em personagens bem construídos funcionar com toda a eficiência possível.
Magnum é mais uma oferta não formular da Marvel em seu crescente e variado universo que, muito provavelmente, será ignorada e descartada – até mesmo pela própria produtora – sob rótulos que a minissérie evidentemente não merece, pois tudo o que vem importando nos últimos anos são os “filmes fan service” ou, talvez melhor dizendo, os fan services que, de longe, com boa vontade, lembram filmes. Histórias humanas como as do tocante e também trágico relacionamento mentorado-mentor de Simon Williams e Trevor Slattery em que demonstrações pirotécnicas de poderes por pessoas com uniformes coloridos não têm vez, parecem não ter mais espaço em um mundo provavelmente saturado – e não sem razão – pela mera menção da palavra super-herói no meio audiovisual.
Magnum (Wonder Man – EUA, 27 de janeiro de 2026)
Criação e desenvolvimento: Destin Daniel Cretton, Andrew Guest
Direção: Destin Daniel Cretton, James Ponsoldt, Tiffany Johnson, Stella Meghie
Roteiro: Andrew Guest, Paul Welsh, Madeline Walter, Zeke Nicholson, Anayat Fakhraie, Roja Gashtili, Julia Lerman, Kira Talise
Elenco: Yahya Abdul-Mateen II, Kameron J. Meadows, Ben Kingsley, X Mayo, Zlatko Burić, Arian Moayed, Joe Pantoliano, Byron Bowers, Josh Gad, Ashley Greene, Béchir Sylvain, Olivia Thirlby, Phumzile Sitole, Lauren Weedman, Blake Robbins
Duração: 267 min. (oito episódios)
