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Crítica | Major Grom contra o Dr. Peste

por Ritter Fan
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A ideia inicial era lançar o que acabaria sendo Major Grom contra o Dr. Peste, primeiro filme russo baseado em quadrinhos, em 2018 ou 2019, não muito tempo depois do competente curta-metragem de 2017 que mostrou as possibilidades de uma adaptação cinematográfica do epônimo personagem, criação de Artyom Gabrelyanov e Evgeny Fedotov para a Bubble Comics em 2012. No entanto, problemas com a obtenção de fundos que levaram à troca da equipe de produção e outros contratempos variados, inclusive a pandemia, claro, atrasaram o lançamento do longa que só acabou vendo a luz do dia na Rússia em 2021, mas com bilheteria acanhada, o que provavelmente precipitou sua distribuição mundial pelo Netflix.

Apesar de o longa desdizer o curta de 2017, que era sem dúvida apenas um test drive, ele não o esquece. Muito ao contrário, todo o movimentado preâmbulo que apresenta o policial Igor Grom (agora vivido por Tikhon Zhiznevsky, pois Aleksandr Gorbatov não quis retornar) aos espectadores é uma versão do assalto ao banco que é objeto do curta, mas focado na fuga do bandidos com as máscaras da animação russa Puck! Puck! e aqueles tenebrosos agasalhos vermelhos clássicos da Adidas em um carro forte, perseguidos a pé pelo protagonista, com resultados desastrosos para a cidade de São Petersburgo, claro. É também nesse começo que o frenético jogo de câmeras do curta e o artifício de “repetir” cenas com base nas várias formas que Grom pensa em agir são introduzidos, de certa forma as marcas registradas cinematográficas do personagem.

Mas o começo movimentado, explosivo e um tantinho diferente logo abre espaço para uma história policial padrão, repleto dos clichês do gênero, com o completamente unidimensional Grom levando bronca seu chefe Fedor Prokopenko (Aleksei Maklakov) por sua irresponsabilidade, sendo pareado com o policial novato Dmitry “Dima” Dubin (Aleksandr Seteykin), criando inimizade com a vlogueira Yulia Pchyolkina (Lyubov Aksyonova) e tendo que lidar com Evgeny Strelkov (Mikhail Evlanov), do Serviço Federal de Segurança. Como pano de fundo para isso, há o surgimento quase que do nada de um super-vilão com máscara medieval bicuda de Médico da Peste, armadura de Batman e manoplas incendiárias que altera toda a atmosfera do longa, afastando o viés mais despreocupado, bobo e divertido e tornando a película mais sombria, com um discurso sócio-político que diria ser indefinido, já que por vezes parece querer uma revolução das massas e, por outras, parece conformar-se com o status quo.

O Dr. Peste do título é uma espécie de Justiceiro, com a população logo ficando do lado dele, já que ele mata aqueles que considera que merecem Justiça, mas que estão acima do alcance do Sistema em razão de sua riqueza, colocando em pauta as desigualdades sociais da Rússia, mas sem aprofundar na temática e justamente aí criando uma abordagem pouco clara do que pretende de fato dizer, especialmente ao considerarmos a identidade secreta do vilão. Grom, mesmo proibido de investigar o criminoso, usa de seus métodos para ignorar a ordem e parte pelo submundo levando Dima a tiracolo para ajudá-lo em uma estrutura mais do que familiar e mais do que previsível, ainda que previsibilidade não seja problema para mim, como já tive oportunidade de afirmar antes.

Apesar de ser uma produção inegavelmente bonita, com cuidado e investimento na direção de arte, o que inclui figurinos e cenários, além de uma mais do que eficiente fotografia noturna de Maxim Zhukov, o que realmente atrapalha o longa é o quanto ele parece genérico ao se recusar a tratar Major Grom e o Dr. Peste da mesma maneira que Grom é tratado no preâmbulo do assalto (ou no curta-metragem, claro). Com isso, a direção de Oleg Trofim troca o que tinha potencial para estabelecer um diferencial à obra por uma abordagem comum, banal mesmo, com cada um dos movimentos do jogo de xadrez sendo comunicados com bastante antecedência e didatismo para o espectador.

Esse encaminhamento pouco empolgante e nada original continua até o ponto de uma reviravolta no terço final – já esperada, claro, mas bem executada, sem dúvida – que marca o ponto de virada na narrativa e encaminha o longa para o final. A partir desse momento, o filme “acorda”, sai do automático e do apenas mais do mesmo e encontra fôlego para uma boa estirada de ação que devolve a Grom e companhia os diferenciais do preâmbulo, com uma boa dose de pancadaria bem executada e um trabalho de câmera empolgante e divertido. Não que o filme de repente se torne uma maravilha, pois ele está longe disso, mas é em seu terço final (naturalmente alongado pela duração inchada do longa) que Trofim encontra seu ritmo e parte para fazer de Major Grom contra o Dr. Peste o puro filme de ação que ele deveria ter sido durante toda sua duração.

Se o curta de 2017 foi um divertido test drive que mostrou que a HQ do Major Igor Grom poderia mesmo torna-se um longa metragem, o filme resultante é passo em definitivo na direção correta, acertando no polimento visual, no cuidado com a fotografia e na boa construção de mitologia geral (ainda que falhando na personalidade inexistente de Grom), mas sem conseguir ir muito além do básico. Talvez em uma futura continuação, algo que as duas cenas pós-créditos fazem questão de estabelecer, o quadrinho russo realmente ganhe uma adaptação que não pareça apenas mais um filme de ação qualquer.

Major Grom contra o Dr. Peste (Mayor Grom: Chumnoy Doktor – Rússia, 07 de julho de 2021)
Direção: Oleg Trofim
Roteiro: Vladimir Besedin, Evgeny Eronin, Artyom Gabrelyanov, Aleksandr Kim, Roman Kotkov, Nikolay Titov, Oleg Trofim, Valentina Tronova (baseado em criação de Artyom Gabrelyanov)
Elenco: Tikhon Zhiznevsky, Lyubov Aksyonova, Aleksei Maklakov, Aleksandr Seteykin, Sergei Goroshko, Dmitry Chebotaryov, Mikhail Evlanov, Kyivstoner, Oleg Chugunov, Anton Bogdanov, Nikita Kologrivy, Oisel More Despaigne, Yuri Nasonov, Anna Nevskaya, Yuri Vaksman, Vitaly Khaev, Yulia Pashruta, Konstantin Khabensky, Vitaly Milonov
Duração: 136 min.

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