Crítica | Mayans M.C. – 2X01: Xbalanque

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

Kurt Sutter e Elgin James não estão brincando com Mayans M.C. Depois de entregar uma temporada inaugural surpreendente, a dupla não perde o passo e começa a segunda já sacudindo o status quo e novamente trazendo um dilúvio de informações e de jogos duplos capaz de fazer qualquer um ficar tonto se não prestar muita atenção.

Para começo de conversa, há um salto temporal de algo como oito meses. Nesse tempo, aprendemos que Adelita está grávida, mas que ninguém sabe quem é o pai, com o episódio fazendo de tudo para apontar para Miguel Galindo. Na mesma linha, a mãe de Galindo está com saúde em franca deterioração, com a revelação de queimaduras misteriosas em suas costas. O que exatamente aconteceu e se o que ela está sentido é (também) um problema psicológico causado por seu afastamento de seu filho depois que ele descobre que ela e Nestor o traíram, saberemos ao longo da temporada. O ponto principal é que o roteiro de Sutter joga uma rede ainda mais ampla na já complexa narrativa criada da primeira temporada, o que cada vez mais contribui para que a série saia de uma vez por todas da sombra de Sons of Anarchy.

No entanto, essa não será uma tarefa muito simples, considerando que a reviravolta do final da temporada – a revelação de que Happy Lowman, membro do SAMCRO, teve pelo menos algum envolvimento com a morte da mãe de EZ e Angel -, é expandida aqui. Vemos Happy não só reconhecendo Felipe, como também revirando seu baú de memórias para achar arquivos do casal Reyes, além de EZ obtendo mais informações sobre Happy e usando-as, ao final, para, com uma cajadada só, tentar acertar as desavenças com o irmão e reunir a família em torno do problema. Confesso que ainda não consigo gostar de verdade dessa conexão, por ela parecer forçada para causar atritos entre os clubes, mas, por outro lado, confio que a questão não será trabalhada de forma banal, pelo que terei ainda que esperar para ver como ela se desenvolve.

Reparem que o que descrevi acima são, apenas, os acontecimentos de cunho pessoal trabalhados no episódio. Há muito mais por trás que serve como o intrincado pano de fundo – ou tabuleiro de xadrez – para que tudo se desenrole e a palavra-chave é, como na temporada anterior, traição. Temos o cartel Galindo trabalhando abertamente com Lincoln Potter para desbaratar os Los Olvidados e secretamente com os próprios Los Olvidados para mantê-los funcionando ativamente nas barbas das autoridades. As cortinas de fumaça são geniais e mostram um motor azeitado funcionando a todo vapor e mantendo o obsessivo Potter na crença que suas ações ao longo de todos esses meses têm chegado a algum resultado prático.

Mas é claro que, não demora, e a proverbial chave de fenda é arremessada nessa engrenagem, no caso a ação conjunta de mercenários do Departamento de Justiça americano, dos Mayans e de Marcus Alvarez para dar o golpe final nos Olvidados (na verdade, traficantes de pessoas que os Mayans fazem passar de Olvidados) dando muito errado. A pequena Mini é localizada pelos mercenários e, quando está prestes a ser torturada para revelar tudo, os Mayans resolvem acabar com os ex-soldados da maneira mais brutal possível, o que, evidentemente, faz a sobrancelha de Potter levantar e por em dúvida toda a operação que vinha orquestrando.

E isso sem contar com a aproximação que Potter faz a Felipe, revelando que ele sabe da verdadeira identidade do ex-assassino e que usará isso para trazer os Reyes para debaixo de seu controle e as desavenças internas nos Mayans com mais uma pequena traição. Ou seja, o que Sutter e Elgin articulam já aqui nesse primeiro episódio é uma bomba relógio, um barril de pólvora prestes a explodir e que promete não deixar pedra sobre pedra seja para que lado olharmos. Fiz essa pergunta antes na primeira temporada e repito-a aqui: não consigo imaginar como é que os showrunners conseguirão desatar esse impressionante nó que amarra eficientemente cada ponta e cada núcleo em diversos níveis de forma que, ao mexer em um, outro é afetado e assim por diante.

Em termos estéticos, além de uma nova abertura com direito a um novo arranjo e uma nova voz, percebi uma paleta de cores mais exuberante ao longo de Xbalanque, trazendo para o seio da série toda a aridez da região onde ela se passa, mas sem que isso seja paralelizado com algo negativo ou triste. De certa forma, vejo isso como mais um elemento que mostra que a série está realmente assentando e ganhando sua personalidade própria, apossando-se com vontade de sua natureza fronteiriça, quase que de faroeste. Igualmente, J.D. Pardo, que ainda não consigo considerar como um bom ator, parece mais assimilado ao seu papel, apresentando latitude dramática surpreendente aqui e que abre caminho para que ele desabroche ao longo dos próximos episódios.

Mayans M.C. recomeça com vigor e sem tornar as coisas fáceis para o espectador. Há muito o que processar e apreciar nesse novo trabalho de Sutter e James que, arriscaria dizer, já nasce mais adulto e mais completo do que a querida série original.

Mayans M.C. – 2X01: Xbalanque (EUA – 03 de setembro de 2019)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Kevin Dowling
Roteiro: Kurt Sutter
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa
Duração: 55 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.