Crítica | Mr. Mercedes – 3ª Temporada

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Mr. Mercedes não é uma série que teme se reinventar. Com Brady Hartsfield (Harry Treadaway), o personagem título, morto na temporada passada pela ex amiga Lou (Breeda Wool), o 3º ano altera radicalmente a dinâmica do show, que sempre se concentrou na disputa do vilão com Bill Hodges (Brendan Gleeson). A trama parte do assassinato de John Rothstein (Bruce Dern), um aposentado autor de livros de detetive, morto em casa durante um assalto. O invasor, Morris Bellamy (Gabriel Ebert), foge com milhares de dólares e algo mais valioso: um manuscrito com uma aventura inédita de Jimmy Gold, popular personagem do autor. Mas Morris se acidenta na fuga e perde o dinheiro e o manuscrito, que é encontrado por Peter Saubers (Rarmian Newton), um adolescente cuja família está em dificuldades financeiras. Enquanto Bill tenta livrar Lou da cadeia pela morte de Brady, ele é chamado para ajudar a investigar a morte de Rothstein, ao mesmo tempo em que Morris caça a pessoa que achou os manuscritos. Baseada no livro de Stephen King, Achados e Perdidos, a 3ª Temporada possui dois Plots centrais: a caça ao manuscrito e o julgamento de Lou. Estas tramas pouco se afetam  mas dividem o tema das marcas de um legado.

Morris é um antagonista bem diferente de Brady, não só por não agir sozinho, já que tem Alma Lane (Kate Mulgrew) como parceira, mas também por ser mais explosivo e humano, dividido entre momentos de grande fragilidade e raiva homicida. Já Alma Lane é uma vilã mais tradicional, uma mulher dominadora e sem consciência que se diverte com os crimes que comete e mantém com Morris uma sórdida e distorcida relação de mentora e aprendiz, desde que o violentou quando o criminoso era uma criança. Os Saubers, por sua vez, trazem elementos interessantes, como o fato do patriarca Tom (Josh Daugherty) ter perdido a mobilidade após ser ferido no massacre do Mercedes, causando a crise  da família. Tal situação de causa e efeito é inteligente, já que sem Hartsfield, talvez Peter tivesse agido diferente em relação ao manuscrito. Claro, Peter torna-se tão fascinado por Jimmy Gold, que assim como Morris, passa a se inspirar nas ações do personagem para lidar com a disputa do manuscrito. O problema é que Peter é irritante e pouco carismático. Sua persona arredia e fechada o torna muito difícil de se gostar, o que é um problema quando a narrativa dedica tanto tempo a ele.

As cenas na corte discutem com propriedade a questão da justiça com as próprias mãos, e tornam Lou a personagem mais instigante deste ciclo, ao mostrá-la sendo influenciada por visões do Mr. Mercedes. Nunca fica claro se Brady transferiu a sua consciência para a mente da colega (algo sugerido no fim da 2ª Temporada) ou se essa influência é fruto de um trauma, o que é uma ambiguidade interessante. A temporada explora bem os coadjuvantes, como  Holly (Justine Lupe), cujo papel no julgamento surge como um desafio de superação, enquanto a relação da moça com o advogado de Lou, Roland Finkelstein (Brett Gelman) é construída de forma sensível ao mostrar a jovem autista passar a permitir que alguém se aproxime de forma mais íntima. Ida (Holland Taylor) também ganha mais espaço pelo passado que compartilha com Morris e Rothstein, ainda que o fato de ela ser professora de Peter e vizinha de Bill seja uma incômoda conveniência narrativa.

Mas se os coadjuvantes são melhor utilizados, o protagonista acaba deixado de lado. Os roteiros tentam suprir o vácuo deixado por Brady dando a Bill uma nova obsessão com o caso Rothstein, já que a obra do autor teria tido grande importância na formação do detetive. Mas o texto não da credibilidade a pessoalidade de Hodges com o caso, ainda que afirme que ela exista. Por mais que haja uma história para se contar sobre Hodges buscando um legado que supere o conflito com Hartsfield, tudo surge como uma reflexão tardia, incluindo o retorno da filha de Bill, Allie (Maddie Hasson), nos episódios finais. Apesar da escanteada em Bill, a trama do manuscrito consegue prender o nosso interesse até o fim, mais pelo carisma dos envolvidos (tirando Peter) do que pela investigação em si, embora a coisa melhore a partir da segunda metade da temporada, após uma recompensa milionária ser oferecida pelo manuscrito. E se elogiei o Plot do do julgamento, torna-se óbvio após a sua conclusão que ele parece mais preparar terreno para uma 4ª Temporada do que impactar os episódios atuais .

A direção da série sabe quando flertar com o gore trash e quando ser sutil, bastando observar o quão econômicas são as cenas de alucinação de Lou para preservar a ambiguidade de seu estado (e não trazer Harry Treadaway de volta nestas cenas se encaixa bem nesta proposta de ambiguidade). A trilha sonora segue sendo um ponto forte do show, ilustrando bem a personalidade e os momentos vividos pelos personagens. Brendan Gleeson vive Bill com uma naturalidade invejável, conseguindo fazer com que Hodges se destaque, mesmo com os conflitos fracos que recebe. Justine Lupe merece aplausos por sua interpretação delicada como Holly, evitando cair na armadilha de fazer dos tiques e manias da jovem uma muleta.  E se Breeda Wool entrega uma atuação inquietante como Lou, nos deixando sempre com o pé atrás em relação a moça, Gabriel Ebert faz de Morris um vilão com quem conseguimos simpatizar, apesar de tudo, enquanto Kate Mulgrew se diverte a beça como a psicótica Alma. Vale destacar ainda Bruce Dern como Rothstein, cujo comportamento ácido em cena nos dá uma ideia do tipo de personagem que o autor criou em seus livros e que cativou tanto Bill e Morris.

Ainda que não consiga ficar à altura do ano de estreia, a 3ª Temporada de Mr. Mercedes mostra-se muito mais consistente que a temporada anterior. A interessante temática de como pessoas tão diferentes como Brady Hartsfield, John Rothstein, e Bill Hodges podem marcar a vida das pessoas e deixarem legados tanto positivos quanto negativos, dá o senso de conclusão da nova leva de episódios. Como os ciclos passados, a temporada pode perfeitamente encerrar a história, mas com um caminhão de sorvete igual ao de Brady voltando a circular pelos subúrbios, uma sugestão de que podemos voltar a ver estes personagens é plantada. Embora a série ainda não tenha sido oficialmente cancelada, uma quarta temporada de Mr. Mercedes é improvável, especialmente após o fechamento do Audience Network, canal que produzia o programa. Eu não iria reclamar em ver Bill em uma 4ª (e última) temporada, mas se este foi o final, David E. Kelley e Jack Bender podem se orgulhar de terem dado um fim digno para a sua adaptação da Trilogia Bill Hodges, que mesmo longe de ser uma obra prima, firma-se como uma das melhores adaptações de  King para a TV.

Mr. Mercedes- 3ª Temporada – EUA, 10 de Setembro de 2019 a 12 de Novembro de 2019.
Criadores: David E. Kelley e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Jack Bender, Laura Innes, Michael J. Leone
Roteiro: David E. Kelley e Jonathan Shapiro (Baseado em romance de Stephen King)
Elenco: Brendan Gleeson, Justine Lupe, Breeda Wool, Holland Taylor, Jharrel Jerome, Maximiliano Hernandez, Gabriel Ebert, Kate Mulgrew, Rarmian Newton, Josh Daugherty, Claire Bronson, Brett Gelman, Bruce Dern,  Natalie Paul, Glynn Turman, Meg Steedle, Maddie Hasson, Patch Darragh.
Duração: 10 episódios de aproximadamente 50 minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.