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Crítica | Mr. Mercedes – 3ª Temporada

por Rafael Lima
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Mr. Mercedes não é uma série que teme se reinventar. Com Brady Hartsfield (Harry Treadaway), o personagem título, morto na temporada passada pela ex amiga Lou (Breeda Wool), o 3º ano altera radicalmente a dinâmica do show, que sempre se concentrou na disputa do vilão com Bill Hodges (Brendan Gleeson). A trama parte do assassinato de John Rothstein (Bruce Dern), um aposentado autor de livros de detetive, morto em casa durante um assalto. O invasor, Morris Bellamy (Gabriel Ebert), foge com milhares de dólares e algo mais valioso: um manuscrito com uma aventura inédita de Jimmy Gold, popular personagem do autor. Mas Morris se acidenta na fuga e perde o dinheiro e o manuscrito, que é encontrado por Peter Saubers (Rarmian Newton), um adolescente cuja família está em dificuldades financeiras. Enquanto Bill tenta livrar Lou da cadeia pela morte de Brady, ele é chamado para ajudar a investigar a morte de Rothstein, ao mesmo tempo em que Morris caça a pessoa que achou os manuscritos. Baseada no livro de Stephen King, Achados e Perdidos, a 3ª Temporada possui dois Plots centrais: a caça ao manuscrito e o julgamento de Lou. Estas tramas pouco se afetam  mas dividem o tema das marcas de um legado.

Morris é um antagonista bem diferente de Brady, não só por não agir sozinho, já que tem Alma Lane (Kate Mulgrew) como parceira, mas também por ser mais explosivo e humano, dividido entre momentos de grande fragilidade e raiva homicida. Já Alma Lane é uma vilã mais tradicional, uma mulher dominadora e sem consciência que se diverte com os crimes que comete e mantém com Morris uma sórdida e distorcida relação de mentora e aprendiz, desde que o violentou quando o criminoso era uma criança. Os Saubers, por sua vez, trazem elementos interessantes, como o fato do patriarca Tom (Josh Daugherty) ter perdido a mobilidade após ser ferido no massacre do Mercedes, causando a crise  da família. Tal situação de causa e efeito é inteligente, já que sem Hartsfield, talvez Peter tivesse agido diferente em relação ao manuscrito. Claro, Peter torna-se tão fascinado por Jimmy Gold, que assim como Morris, passa a se inspirar nas ações do personagem para lidar com a disputa do manuscrito. O problema é que Peter é irritante e pouco carismático. Sua persona arredia e fechada o torna muito difícil de se gostar, o que é um problema quando a narrativa dedica tanto tempo a ele.

As cenas na corte discutem com propriedade a questão da justiça com as próprias mãos, e tornam Lou a personagem mais instigante deste ciclo, ao mostrá-la sendo influenciada por visões do Mr. Mercedes. Nunca fica claro se Brady transferiu a sua consciência para a mente da colega (algo sugerido no fim da 2ª Temporada) ou se essa influência é fruto de um trauma, o que é uma ambiguidade interessante. A temporada explora bem os coadjuvantes, como  Holly (Justine Lupe), cujo papel no julgamento surge como um desafio de superação, enquanto a relação da moça com o advogado de Lou, Roland Finkelstein (Brett Gelman) é construída de forma sensível ao mostrar a jovem autista passar a permitir que alguém se aproxime de forma mais íntima. Ida (Holland Taylor) também ganha mais espaço pelo passado que compartilha com Morris e Rothstein, ainda que o fato de ela ser professora de Peter e vizinha de Bill seja uma incômoda conveniência narrativa.

Mas se os coadjuvantes são melhor utilizados, o protagonista acaba deixado de lado. Os roteiros tentam suprir o vácuo deixado por Brady dando a Bill uma nova obsessão com o caso Rothstein, já que a obra do autor teria tido grande importância na formação do detetive. Mas o texto não da credibilidade a pessoalidade de Hodges com o caso, ainda que afirme que ela exista. Por mais que haja uma história para se contar sobre Hodges buscando um legado que supere o conflito com Hartsfield, tudo surge como uma reflexão tardia, incluindo o retorno da filha de Bill, Allie (Maddie Hasson), nos episódios finais. Apesar da escanteada em Bill, a trama do manuscrito consegue prender o nosso interesse até o fim, mais pelo carisma dos envolvidos (tirando Peter) do que pela investigação em si, embora a coisa melhore a partir da segunda metade da temporada, após uma recompensa milionária ser oferecida pelo manuscrito. E se elogiei o Plot do do julgamento, torna-se óbvio após a sua conclusão que ele parece mais preparar terreno para uma 4ª Temporada do que impactar os episódios atuais .

A direção da série sabe quando flertar com o gore trash e quando ser sutil, bastando observar o quão econômicas são as cenas de alucinação de Lou para preservar a ambiguidade de seu estado (e não trazer Harry Treadaway de volta nestas cenas se encaixa bem nesta proposta de ambiguidade). A trilha sonora segue sendo um ponto forte do show, ilustrando bem a personalidade e os momentos vividos pelos personagens. Brendan Gleeson vive Bill com uma naturalidade invejável, conseguindo fazer com que Hodges se destaque, mesmo com os conflitos fracos que recebe. Justine Lupe merece aplausos por sua interpretação delicada como Holly, evitando cair na armadilha de fazer dos tiques e manias da jovem uma muleta.  E se Breeda Wool entrega uma atuação inquietante como Lou, nos deixando sempre com o pé atrás em relação a moça, Gabriel Ebert faz de Morris um vilão com quem conseguimos simpatizar, apesar de tudo, enquanto Kate Mulgrew se diverte a beça como a psicótica Alma. Vale destacar ainda Bruce Dern como Rothstein, cujo comportamento ácido em cena nos dá uma ideia do tipo de personagem que o autor criou em seus livros e que cativou tanto Bill e Morris.

Ainda que não consiga ficar à altura do ano de estreia, a 3ª Temporada de Mr. Mercedes mostra-se muito mais consistente que a temporada anterior. A interessante temática de como pessoas tão diferentes como Brady Hartsfield, John Rothstein, e Bill Hodges podem marcar a vida das pessoas e deixarem legados tanto positivos quanto negativos, dá o senso de conclusão da nova leva de episódios. Como os ciclos passados, a temporada pode perfeitamente encerrar a história, mas com um caminhão de sorvete igual ao de Brady voltando a circular pelos subúrbios, uma sugestão de que podemos voltar a ver estes personagens é plantada. Embora a série ainda não tenha sido oficialmente cancelada, uma quarta temporada de Mr. Mercedes é improvável, especialmente após o fechamento do Audience Network, canal que produzia o programa. Eu não iria reclamar em ver Bill em uma 4ª (e última) temporada, mas se este foi o final, David E. Kelley e Jack Bender podem se orgulhar de terem dado um fim digno para a sua adaptação da Trilogia Bill Hodges, que mesmo longe de ser uma obra prima, firma-se como uma das melhores adaptações de  King para a TV.

Mr. Mercedes- 3ª Temporada – EUA, 10 de Setembro de 2019 a 12 de Novembro de 2019.
Criadores: David E. Kelley e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Jack Bender, Laura Innes, Michael J. Leone
Roteiro: David E. Kelley e Jonathan Shapiro (Baseado em romance de Stephen King)
Elenco: Brendan Gleeson, Justine Lupe, Breeda Wool, Holland Taylor, Jharrel Jerome, Maximiliano Hernandez, Gabriel Ebert, Kate Mulgrew, Rarmian Newton, Josh Daugherty, Claire Bronson, Brett Gelman, Bruce Dern,  Natalie Paul, Glynn Turman, Meg Steedle, Maddie Hasson, Patch Darragh.
Duração: 10 episódios de aproximadamente 50 minutos.

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5 comentários

Alexandre Tessilla 17 de julho de 2020 - 16:42

Bela crítica! essa temporada não supera a 1°, mas o elenco segura bem. O elenco principal que o diga, sempre de alto nível. Achei a parte do julgamento meio forçada. todo mundo querendo defender a Lou, como se todo mundo se sentisse culpado por somente ela ter tido a coragem. Ela merecia pegar uma pena mínima, isso inquestionável. Um ato de coragem e sacrifício. E depois dela demonstrar estar pirando, muito claramente, deveriam ter repensado sobre ela ser internada, mesmo que fosse depois de ser absolvida. Já a trama do escritor teve altos e baixos. Achei a família do Peter um pouco irritante. Cometem erros á todo momento e tentam consertar com mais erros. mas esses pontos fracos não tiram o brilho da série. Se houver uma 4ª temporada, espero que não seja só uma desculpa pra trazer o Brady no corpo da Lou e começar tudo de novo. Seria muito previsível. Ou apenas para dar ao Bill o final que ele tem no livro.

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Rafael Lima 18 de julho de 2020 - 03:21

O elenco dessa série é mesmo fantástico. Brendan Gleeson impecável, Justine Lupe com uma interpretação muito delicada, para Holly, Kate Mulgrew roubando a cena como Alma, e por ai vai.

Acho que Bill e cia se sentiam culpados não tanto pelo fato da Lou ter matado o Brady, mas por eles terem pressionado ela a chegar perto dele, algo que ela claramente não queria. Pessoalmente, eu gostei muito dos trechos do julgamento, mas isso por que eu adoro dramas de tribunal, o que foi muito bem feito aqui, pois o texto apresentava muito bem os argumentos da defesa e da promotoria.

O núcleo do Peter e o da família era o mais chatinho mesmo. Honestamente, tinha horas que eu torcia pro garoto se dar mal nas mãos da Alma e do Morris. Hehehe

Pelo fim da temporada, caso a série ganhe um 4º ano (o que acho improvável no momento), acho meio inevitável que mostrem a Lou assumindo o legado do Brady, já que ela basicamente assumiu a vida dele. Se ele não tivesse explodido a própria casa na 1ª temporada, era capaz da Lou ir morar lá.

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Alexandre Tessilla 18 de julho de 2020 - 15:58

Com certeza, a Lou iria morar na mesma casa. Espero mais surpresas se houver uma última temporada. Uma dúvida: a série Outsider, poderia se dizer que se passa alguns anos após os eventos de Mr. Mercedes? Sei que as séries não são interligadas, e ainda não li esses livros, mas dá pra considerar que, por mais que seja uma personagem bem diferente de Mr. Mercedes, a Holy está mais madura e ciente de suas habilidades na sua nova versão em Ousider? Na minha opinião, ela parece outra personagem. Mas me interessou rever Outsider dessa perspectiva de continuação.

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Rafael Lima 20 de julho de 2020 - 00:29

Não cheguei a ler “Outsider”, vi só a minissérie da HBO mesmo. Mas falei com quem leu o livro, e realmente, “The Outsider” (o livro) se coloca como uma sequência (não direta) da “trilogia Bill Hodges” se passando alguns anos depois da morte do Bill. Tanto que pelo que falaram comigo, no livro, a Holly acredita no sobrenatural justamente por causa da onda de assassinatos psíquicos do Brady.

As versões da Holly de “Mr. Mercedes” e “The Outsider” são bem diferentes mesmo. Gosto das duas versões, mas prefiro a versão da Justine Lupe, pois acho a Holly dela mais humana, enquanto a “The Outsider” é mais etérea.

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Alexandre Tessilla 20 de julho de 2020 - 11:52

Interessante! Achei a série Outsider incrível! Eu gosto das duas versões da Holly. Assim como você disse, em Mr. M ela é mais humana, e em Outsider achei ela mais enigmática e com uma mente bem aberta, mas bem centrada, mas psicológicamente bem mais distante.

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