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Crítica | Neon Genesis Evangelion

por Kevin Rick
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Depois do Segundo Impacto, o cataclismo causado pelo contato humano com Adão, metade da população da Terra morreu. Na cidade futurística de Neo Tóquio-3, o restante da humanidade passa seus dias lutando contra os “Anjos”, criaturas descendentes de Adão que querem causar o Terceiro Impacto, extinguindo a raça humana. Uma organização paramilitar chamada Nerv combate o inimigo através de máquinas orgânicas chamadas EVA’s, pilotadas por raras crianças que conseguem sincronizar com o sistema misterioso. Essa é a premissa de Neon Genesis EvangelionComplexidade chega a ser eufemismo… isso porque não falei sobre a Instrumentalização Humana, um programa que tem como objetivo criar a consciência coletiva do ser humano; ou então da onde saiu Adão e o restante dessas criaturas fantásticas; por que apenas um grupo seleto de crianças conseguem pilotar as EVA’s, que, por sua vez, não sabemos como são controladas ou foram parar nas mãos da Nerv, etc, etc, etc.

Honestamente, nem sei o quão assertivo fui na explicação da base da trama, dada sua melindrosa mitologia. É importante notar como o anime se tornou um clássico por causa desses conceitos intrincados, simbologias religiosas e discurso existencialista, que trazem debates e pesquisas para entender significados da obra. Desde os nomes das criaturas (Adão, EVA, Lilith, entre outras extensões de nomes bíblicos angelicais e demoníacos), as explosões em forma de cruz, os símbolos/menções de judaísmo, xintoísmo e cristianismo espalhados pelo show, além de toda a discussão de gênero em torno da criação do mundo com Adão e Eva (submissão), e Adão e Lilith (igualdade) – segundo o texto medieval O Alfabeto de Ben-Sira, Lilith foi criada junto de Adão, sendo posteriormente descrita como demônio por não aceitar ser submissa, ideia também imbuída ao show no debate do machismo.

Tudo isso é maravilhosamente interessante durante os 26 episódios, tanto do ponto de vista de construção de mundo quanto da utilização de metáforas para versar a já mencionada discussão de gênero, como também paternidade (a importância e a falta dela) – as máquinas controladas por crianças têm um cabo de energia chamado “cordão umbilical”, por exemplo -, também temos conflitos, ainda que em menor escala, de questões messiânicas e heróicas com o protagonista Shinji, que, na verdade, vai na contramão do “salvador” em crenças religiosas e até de animes mesmo, em outra subversão interessante da obra. Mas, finalmente dado esse contexto amplo e diversificado da animação, largamente utilizada como ótima função visual e simbólica de expressão de discurso temático, além de ser uma sacada inteligente para chamar atenção do público – também conectado à utilização do popular subgênero Mecha -, a abordagem narrativa de Neon Genesis Evangelion se distancia bastante de todo o pano de fundo épico e mitológico, aprofundando-se no drama intimista.

Se em um primeiro momento o anime se popularizou por sua complexidade conceitual, é seu conteúdo substancialmente pessoal que eleva a obra para seu patamar clássico. Fico feliz de notar a existência, pelo menos o pouco que percebi pela recepção do público, de uma percepção atual mais digna da abordagem íntima de Hideako Anno. Ao longo da história conhecemos três pilotos adolescentes: Shinji Ikari, Rei Ayanami e Asuka Langley, além da capitã Misato Katsuragi e a cientista Ritsuko Akagi, que ganham o tratamento dramático focalizado na falha humana. É uma proposta especialmente equilibrada dentro do escopo divino da obra, conectando-se com a trama de “homens querendo ser deuses”, mas a essência do anime reside majoritariamente em seu aspecto cotidiano.

Conflitos comuns como o peso de expectativas, a solidão, relacionamentos tóxicos, depressão e, claro, como eu já disse anteriormente, um grande enfoque para problemas familiares, desde Shinji e seu pai manipulador, Ritsuko e Asuka com suas mães negligentes, até Misato e seu traumas paternais que ela projeta no seu namorado Ryoji Kaji, que ganham o destaque de grande porção da temporada. A Rei acaba se configurando como a maior problemática dentro desse discurso por personificar a conexão de tema e ficção científica com sua origem heterogênea – há até o desenvolvimento de uma subtrama do “robótico” ganhando emoção. É um misto enorme de diferentes falhas mundanas que dão um tom intimista para uma obra superficialmente épica e grandiosa.

Hideako Anno cria essa atmosfera melancólica com bastante esmero estruturalmente e visualmente. A maioria dos episódios, principalmente no miolo da série, têm um viés procedimental com o “Anjo da semana”. Podem ser erroneamente conotados como repetitivos, mas o diretor manuseia o caráter episódico para desenvolver personagens. O roteiro leva em conta a construção da valorização do indivíduo entre relacionamentos, considerando que a classe de personagens são emocionalmente distantes e/ou inseguros. Aliás, o bloco apontado como clímax do anime (do episódio 15 ao 24), é mais fraco em comparação com esse lado intimista do primeiro ato, já que dão mais destaque à mitologia, mais interessante simbolicamente do que narrativamente para mim, perdendo um pouco a experiência dramaticamente contemplativa do terço inicial – uma das poucas reclamações que tenho com a série.

E, como eu disse, Anno coloca sua abordagem imageticamente no mesmo sentido lúgubre da dramaturgia. Temos vários planos em quartos frios (sempre tonalmente azuis), ou então cenas que passam um sentimento de desolação, como conversas existenciais ao lado de escombros da batalha ou as várias sequências quase espirituais dos pilotos dentro dos EVA’s. Aliás, a direção de Anno traz a abordagem para as lutas contra os Anjos, sempre curtas, destacando combates de sentimento (a sincronização tecnológica que necessita de equilíbrio emocional, as batalhas mentais, a falta de controle), e os desfechos anticlimáticos que dão enfoque aos traumas e não a vitória – sempre voltamos a hospitais, isolamentos, mortes e destruição.

Neon Genesis Evangelion é, acima de tudo, uma obra humanista; teologicamente e psicologicamente confrontadora, colocando em xeque a existência e ambição humana, sempre procurando o micro dentro do macro para sua experiência reflexiva em contextos intrínsecos. Os dois episódios finais, equivocadamente criticados pelo estilo de “terapia experimental”, com muitos culpando a conclusão adversa em questões extra fílmicas da falta de verba, concluem perfeitamente o estudo de personagem de Anno. Nunca foi sobre explicações de mitologia ou desfechos bombásticos, mas sim a intimidade e empatia com dramas frequentes em um ambiente fantástico. Apesar de ter algumas ressalvas com o desfecho bonitinho de aprendizado e mensagem moral, continuo adorando como Hideako Anno sempre une seu conteúdo com a forma, especialmente na corajosa resolução de “psicanálise surrealista”, esteticamente absurdo e deslumbrante, fechando com excelência criativa um grande clássico.

Neon Genesis Evangelion (Shinseiki Evangerion) | Japão, 1995-1996
Criador: Hideaki Anno
Direção: Hideaki Anno, Masayuki, Kazuya Tsurumaki
Roteiro: Hideaki Anno, Akio Satsukawa
Elenco: Megumi Ogata, Kotono Mitsuishi, Megumi Hayashibara, Yūko Miyamura, Fumihiko Tachiki, Yuriko Yamaguchi, Motomu Kiyokawa, Kōichi Yamadera, Hiro Yūki, Miki Nagasawa, Takehito Koyasu, Akira Ishida, Tomokazu Seki, Tetsuya Iwanaga, Junko Iwao,
Duração: 612 min. (26 episódios)

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