Crítica | No Amor e Na Guerra

Hemingway é um escritor que exerceu fascínio não apenas por sua produção literária e experiência em guerras e conflitos políticos, mas também por seus relacionamentos conturbados que fornecem material expressivo para dramas rocambolescos cinematográficos e televisivos. Espirituoso e tomado pela utopia de mudar o mundo com as suas ideias, o membro do cânone literário teve uma vida cheia de histórias transformadas em narrativa e expostas ao público por meio das alegorias de sua condição nos livros que publicou. Nesta versão da sua juventude, no entanto, as coisas não saíram muito bem. Por qual motivo? Vários.

Um dos principais é a representação insípida do amor, sentimento carregado de nuances e que não reflete necessariamente e exclusivamente a plenitude dos envolvidos em suas cargas emocionais na vida real ou na ficção. Inclusive, assim é No Amor e Na Guerra, um drama romântico que toma liberdades para expor supostos fatos que demarcam a biografia do escritor. Escrito por Allan Scott e Clancy Sigal, inspirados no livro de Henry S. Villard, a produção em questão foi comandada por Richard Atenborough. Querido pelo público estadunidense e amado também em escala mundial, o escritor conhecido por sua prosa coesa e objetiva, repleta de elementos profundamente psicológicos não encontrou nesta “cinebiografia” uma reflexão que estivesse à sua altura.

O filme é direto em sua proposta, isto é, apresentar a experiência de Ernest Hemingway (Chris O’Donnel) em sua incursão nos combates italianos da Primeira Grande Guerra Mundial. Ainda movido pelo espírito juvenil, antes da carreira de escritor e dos conflitos que levaram ao desfecho trágico de sua vida, Hemingway é ferido em combate e tratado com atenção mais especial que o convencional pela enfermeira Agnes von Kurowsky (Sandra Bullock). Desse contato nasce o amor, apenas ficcional, pois segundo as fontes, eles sequer conseguiram consumar a relação.

Sendo assim, em plena irracionalidade da guerra, suposta crítica social realizada pela produção, outro ponto que não dá certo, o futuro escritor e a enfermeira vivem um romance apaixonante. Ao passo que a narrativa avança, no entanto, podemos observar oportunidades desperdiçadas. Falta coesão, ânimo, sagacidade e convencimento no que diz respeito aos supostos sentimentos. Tudo parece um relacionamento morno, sem emoção alguma, pouco convincente. O elenco, carismático, faz seus esforços, mas é preciso mais que simpatia para dar conta de uma história repleta de complexidades, principalmente por ser um filme de época, condição levada à risca no que concerne aos elementos da letargia e marasmo.

Em meio aos sons da condução musical de George Fenton, os personagens atravessam situações embaraçosas em busca da sobrevivência em meio aos conflituosos combates da Primeira Grande Guerra Mundial. A direção de fotografia capta, por meio de planos abertos (a guerra) e fechados (o amor) a relação do escritor e da enfermeira, adornada por sofrimento e dor, algo contemplado pelo design de produção de Stuart Craig, eficiente, em especial, no setor de figurino, assinado por Penny Rose, adequado em seu resgate histórico.

Em suma, No Amor e Na Guerra seria um drama romântico mais interessante se os seus personagens fossem trabalhados com mais profundidade. É preciso ressaltar, também, a necessidade de uma boa história, pois sem uma base os personagens trafegariam numa narrativa estéril e sem coesão, coerência e aderência do espectador.  Importante observar, por sua vez, que também se faz necessário uma boa direção, pois sem a devida execução, uma história com potencial pode se transformar num engodo narrativo, caso do drama em questão, um equívoco na carreira de Sandra Bullock que não mancha o currículo, mas também não traz nada memorável.

No Amor e Na Guerra (In Love and The War – Estados Unidos, 1996)
Direção: Richard Attenborough
Roteiro: Allan Scott, Anna Hamilton Phelan, Clancy Sigal, Dimitri Villard
Elenco: Sandra Bullock, Chris O’Donnell, Emilio Bonucci, Ingrid Lacey, MacKenzie Astin, Diane Witter, Alan Bennett, Ingrid Lacey, Margot Steinberg
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.