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Crítica | Nosso Último Verão

por Gabriel Carvalho
45 views (a partir de agosto de 2020)

“A última oportunidade para decidirmos quem queremos ser.”

Tem uma pequena cena perto da conclusão de Nosso Último Verão que define perfeitamente a experiência que é essa comédia romântica adolescente. Phoebe (Maia Mitchell) é uma jovem cineasta que quer vencer um festival para conseguir uma bolsa em uma universidade. Quando enfim exibe o seu filme-experimental, Nosso Último Verão tem a pachorra, porém, de mostrar algumas imagens do que é o resultado: planos belos, trilha-sonora bem contemporânea e um outro protagonista, Griffin (K. J. Apa), também o seu interesse amoroso, discursando sobre a importância do amor. Parece até uma piada paródica, mas não é. Tão vazio quanto bonito, o longa-metragem, contrariando outros exemplares deste gênero, contém um ar de auto importância que perturba. Embora O Date Perfeito não seja bom, contudo, ao menos Noah Centineo conseguia se entreter consideravelmente, vendo-se dentro de uma aura descompromissada. Já isso aqui, justamente ao passo que tenta tornar relevantes assuntos tratados tão banalmente, lembra um filtro de Instagram.

E como grande parte das fotografias compartilhadas nessa moderna rede-social, o visual é uma das maiores prioridades, mesmo que seja em detrimento de um conteúdo e de uma verdade. Eis uma estética consequentemente falsa, que mascara a ineficácia de um material pobre e sem qualquer coisa sincera a comentar sobre a juventude e a iminência do seu fim. Lembra até um mural de Instagram, sequenciando fotos e momentos, mas onde está a boa narrativa? Nosso Último Verão orquestra diferentes núcleos, sem muitas conexões uns aos outros, e já mostra a sua inoperância no senso rítmico que promove. Em micro ou macroescala, independe realmente as proporções quando o assunto é a montagem dessa obra. Um exemplo está na cena da festa, uma prévia a tudo o que o filme representa. Um dos personagens tenta paquerar uma garota, gerando aquela “graça” consequente ao desconforto. O erro é que a cena seguinte apresenta essa mesma pessoa num contexto totalmente novo. O montador não pensou estrutura nem a uma só sequência.

E caracterizar o conjunto como vazio, como ousei no primeiro parágrafo, é até um elogio. Nesse sentido, ao menos não teríamos nada a que reclamar, meramente duas horas inertes a qualquer avaliação mais avantajada. Contemplando um fundo do poço para o selo Netflix Original, a obra, no entanto, está mais para uma gigantesca bagunça de mau-gosto, que pode ser vista e revista sob inúmeras óticas. Um menino e uma menina descobrindo o amor. Um garoto e uma garota terminando um namoro para se verem preparados para a separação ao fim das férias. Um jovem querendo se envolver com todas as mulheres da cidade. Uma babá repensando seus planos para o futuro. E, encerrando com chave de ouro essa mistura maluca, também tem dois nerds que querem, pela primeira vez em suas vidas, terem alguma chance com as moças. William Hoy provavelmente executa o pior trabalho de sua carreira ao montar isso. Os arcos dos personagens simplesmente não engrenam, porque o ritmo é minado com uma intercalação estranha de núcleos.

O grande mal do projeto mora mesmo no seu argumento. William Bindley é um artista de meia-idade tentando entender a juventude, esse último resquício de adolescência que resta para jovens indo para uma universidade. Mas o cineasta, no final das contas, nem tem a audácia de traçar algo coerente sobre a juventude. Do contrário, temos unicamente uma trama perdida que envolve traições, esperanças, sonhos e oportunidades. Bindley, porém, está em um meio-termo extremamente contraditório. O seu universo de adolescentes é composto pelos maiores clichês: os garotos com “tanquinhos”, as garotas “burras”, os meninos “nerds”. Que seja para apresentar arquétipos, mas que exista algum semblante de propósito a isso. Quando Griffin está conversando textualmente com Phoebe e manda uma mensagem que se arrepende, Bindley estica a cena por alguns segundos para mostrar a espera do rapaz por uma resposta. Pena que verossimilhança o roteiro já comprometeu no monólogo do começo, auto-importante demais para ser a troco de nada.

O que era, contudo, para ser uma inofensiva história de amor, uma última antes da vida adulta, termina tornando-se um caso supostamente mais complexo, contendo reviravoltas abruptas. Do contrário, todo desenvolvimento é apenas imbecil. Os personagens são fracos, e as características que os definiriam como únicos escanteadas. Nesse sentido, tal universo teen também é composto por falsas subversões de alguns arquétipos presentes. Por exemplo, Erin (Halston Sage) é vista como sendo inteligente, um traço, em contrapartida, que é exemplificado apenas pelas constantes citações de seu ex-namorado, Alec (Jacob Latimore). O seu arco não tem nada a ver com isso. Na verdade, a personagem nem tem um arco em si. Erin envolve-se com um jogador de beisebol, interpretado por Tyler Polsey, apenas para que essa trama, um pouco graciosa, seja incinerada. O roteiro covardemente repete a mesma batida usada para desenvolver o enredo dos protagonistas e ainda enfiam uma resolução para o seu ex-namorado no meio. Tumblr demais para pouco cinema.

William Bindley, por fim, parece ser, mesmo que nunca tenha sido, uma encarnação dos nerds em questão quando mais jovem. É muito esquisito o ar quase pornográfico que o cineasta imprime na trama dessas figuras, conseguindo parecer serem acionistas da bolsa de valores e, com isso, envolverem-se com garotas muito mais velhas. O pior: Bindley satisfaz todos os desejos desses jovens, mesmo que, do outro lado da moeda, estivesse moralizando sobre o quão mentir é ruim e problemático. Grande parte das resoluções parecem piorar o que já estava péssimo. Só o arco dos protagonistas, aqueles com mais tempo de tela, encontra as resoluções esperadas e previsíveis. Assim, por ser o menor dos males, é o que menos incomoda e ganha até prestígio, por estar um pouco acompanhado do charme e da fofura piegas que o casal apresentou. Para ser honesto, o elenco de Nosso Último Verão não é de todo horrível – Maia Mitchell, Tyler Polsey e Halston Sage são simpáticos. Mas é impossível reconsiderar algo quando os olhos já se reviraram tantas vezes.

Nosso Último Verão (The Last Summer) – EUA, 2019
Direção: William Bindley
Roteiro: Scott Bindley, William Bindley
Elenco: K.J. Apa, Maia Mitchell, Jacob Latimore, Halston Sage, Tyler Posey, Mario Revolori, Sosie Bacon, Gage Golightly, Greer Grammer, Nicole Forester, Wolfgang Novogratz, Jacob McCarthy, Audrey Grace Marshall, Valerie Jane Parker
Duração: 109 min.

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