Crítica | Nosso Último Verão

“A última oportunidade para decidirmos quem queremos ser.”

Tem uma pequena cena perto da conclusão de Nosso Último Verão que define perfeitamente a experiência que é essa comédia romântica adolescente. Phoebe (Maia Mitchell) é uma jovem cineasta que quer vencer um festival para conseguir uma bolsa em uma universidade. Quando enfim exibe o seu filme-experimental, Nosso Último Verão tem a pachorra, porém, de mostrar algumas imagens do que é o resultado: planos belos, trilha-sonora bem contemporânea e um outro protagonista, Griffin (K. J. Apa), também o seu interesse amoroso, discursando sobre a importância do amor. Parece até uma piada paródica, mas não é. Tão vazio quanto bonito, o longa-metragem, contrariando outros exemplares deste gênero, contém um ar de auto importância que perturba. Embora O Date Perfeito não seja bom, contudo, ao menos Noah Centineo conseguia se entreter consideravelmente, vendo-se dentro de uma aura descompromissada. Já isso aqui, justamente ao passo que tenta tornar relevantes assuntos tratados tão banalmente, lembra um filtro de Instagram.

E como grande parte das fotografias compartilhadas nessa moderna rede-social, o visual é uma das maiores prioridades, mesmo que seja em detrimento de um conteúdo e de uma verdade. Eis uma estética consequentemente falsa, que mascara a ineficácia de um material pobre e sem qualquer coisa sincera a comentar sobre a juventude e a iminência do seu fim. Lembra até um mural de Instagram, sequenciando fotos e momentos, mas onde está a boa narrativa? Nosso Último Verão orquestra diferentes núcleos, sem muitas conexões uns aos outros, e já mostra a sua inoperância no senso rítmico que promove. Em micro ou macroescala, independe realmente as proporções quando o assunto é a montagem dessa obra. Um exemplo está na cena da festa, uma prévia a tudo o que o filme representa. Um dos personagens tenta paquerar uma garota, gerando aquela “graça” consequente ao desconforto. O erro é que a cena seguinte apresenta essa mesma pessoa num contexto totalmente novo. O montador não pensou estrutura nem a uma só sequência.

E caracterizar o conjunto como vazio, como ousei no primeiro parágrafo, é até um elogio. Nesse sentido, ao menos não teríamos nada a que reclamar, meramente duas horas inertes a qualquer avaliação mais avantajada. Contemplando um fundo do poço para o selo Netflix Original, a obra, no entanto, está mais para uma gigantesca bagunça de mau-gosto, que pode ser vista e revista sob inúmeras óticas. Um menino e uma menina descobrindo o amor. Um garoto e uma garota terminando um namoro para se verem preparados para a separação ao fim das férias. Um jovem querendo se envolver com todas as mulheres da cidade. Uma babá repensando seus planos para o futuro. E, encerrando com chave de ouro essa mistura maluca, também tem dois nerds que querem, pela primeira vez em suas vidas, terem alguma chance com as moças. William Hoy provavelmente executa o pior trabalho de sua carreira ao montar isso. Os arcos dos personagens simplesmente não engrenam, porque o ritmo é minado com uma intercalação estranha de núcleos.

O grande mal do projeto mora mesmo no seu argumento. William Bindley é um artista de meia-idade tentando entender a juventude, esse último resquício de adolescência que resta para jovens indo para uma universidade. Mas o cineasta, no final das contas, nem tem a audácia de traçar algo coerente sobre a juventude. Do contrário, temos unicamente uma trama perdida que envolve traições, esperanças, sonhos e oportunidades. Bindley, porém, está em um meio-termo extremamente contraditório. O seu universo de adolescentes é composto pelos maiores clichês: os garotos com “tanquinhos”, as garotas “burras”, os meninos “nerds”. Que seja para apresentar arquétipos, mas que exista algum semblante de propósito a isso. Quando Griffin está conversando textualmente com Phoebe e manda uma mensagem que se arrepende, Bindley estica a cena por alguns segundos para mostrar a espera do rapaz por uma resposta. Pena que verossimilhança o roteiro já comprometeu no monólogo do começo, auto-importante demais para ser a troco de nada.

O que era, contudo, para ser uma inofensiva história de amor, uma última antes da vida adulta, termina tornando-se um caso supostamente mais complexo, contendo reviravoltas abruptas. Do contrário, todo desenvolvimento é apenas imbecil. Os personagens são fracos, e as características que os definiriam como únicos escanteadas. Nesse sentido, tal universo teen também é composto por falsas subversões de alguns arquétipos presentes. Por exemplo, Erin (Halston Sage) é vista como sendo inteligente, um traço, em contrapartida, que é exemplificado apenas pelas constantes citações de seu ex-namorado, Alec (Jacob Latimore). O seu arco não tem nada a ver com isso. Na verdade, a personagem nem tem um arco em si. Erin envolve-se com um jogador de beisebol, interpretado por Tyler Polsey, apenas para que essa trama, um pouco graciosa, seja incinerada. O roteiro covardemente repete a mesma batida usada para desenvolver o enredo dos protagonistas e ainda enfiam uma resolução para o seu ex-namorado no meio. Tumblr demais para pouco cinema.

William Bindley, por fim, parece ser, mesmo que nunca tenha sido, uma encarnação dos nerds em questão quando mais jovem. É muito esquisito o ar quase pornográfico que o cineasta imprime na trama dessas figuras, conseguindo parecer serem acionistas da bolsa de valores e, com isso, envolverem-se com garotas muito mais velhas. O pior: Bindley satisfaz todos os desejos desses jovens, mesmo que, do outro lado da moeda, estivesse moralizando sobre o quão mentir é ruim e problemático. Grande parte das resoluções parecem piorar o que já estava péssimo. Só o arco dos protagonistas, aqueles com mais tempo de tela, encontra as resoluções esperadas e previsíveis. Assim, por ser o menor dos males, é o que menos incomoda e ganha até prestígio, por estar um pouco acompanhado do charme e da fofura piegas que o casal apresentou. Para ser honesto, o elenco de Nosso Último Verão não é de todo horrível – Maia Mitchell, Tyler Polsey e Halston Sage são simpáticos. Mas é impossível reconsiderar algo quando os olhos já se reviraram tantas vezes.

Nosso Último Verão (The Last Summer) – EUA, 2019
Direção: William Bindley
Roteiro: Scott Bindley, William Bindley
Elenco: K.J. Apa, Maia Mitchell, Jacob Latimore, Halston Sage, Tyler Posey, Mario Revolori, Sosie Bacon, Gage Golightly, Greer Grammer, Nicole Forester, Wolfgang Novogratz, Jacob McCarthy, Audrey Grace Marshall, Valerie Jane Parker
Duração: 109 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.