Crítica | Game of Thrones – 8X04: The Last of the Starks

Ela é abominável. E eu também.
– Lannister, Jaime

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Depois de um desapontador intervalo em que os showrunners se livraram de qualquer jeito da subtrama dos zumbis, Game of Thrones volta à sua programação normal em um episódio exemplar que balanceia muito bem despedidas e decisões em um novo rearranjo de tabuleiro de um lado e ação do tipo que efetivamente impulsiona a trama de outro. Temos, em The Last of the Starks, um belo e respeitoso epílogo para a Batalha de Winterfell e o efetivo começo do fim, com as forças da Mãe dos Dragões em oposição às de Cersei no que promete ser um embate inesquecível.

Mas, começando pelo começo, David Nutter, responsável tanto por Winterfell quanto por A Knight of the Seven Kingdoms, tira o melhor do roteiro da dupla David Benioff e D. B. Weiss para lidar com as consequências e o preço da guerra contra o Rei da Noite. As baixas da “longa noite” são relembradas em momentos solenes, com Jorah Mormont e Theon Greyjoy ganhando as lágrimas de Daenerys e Sansa respectivamente, Beric Dondarrion recebendo o respeito de Arya e Eddison Tollett a lembrança de Sam, sobrando até tempo para um olhar de pesar de Jon em relação à valente Lyanna Mormont e para Melisandre ganhar uma menção ambivalente de Sor Davos. Um poético fechamento para o derramamento de sangue no mais completo escuro.

E, do lado dos sobreviventes, Arya ganha o reconhecimento que merece, mas que não quer; Gendry ganha o título de nobreza que nem sabia que merecia, e que certamente queria e todos banqueteiam como se não houvesse amanhã. Essa sequência toda, que inclui momentos inesquecíveis como o jogo de adivinhações entre Brienne, Podrick, Tyrion e Jaime, com direito a um Tormund investindo na recém-Cavaleira somente para ver seu último traço de esperança estilhaçado, além de um choque entre os tipos de alianças que Daenerys e Jon suscitam, é, possivelmente, o último momento de alegria e felicidade na série. Ou talvez fosse melhor dizer que esse foi um dos poucos que realmente tivemos, em uma escolha inteligente do roteiro para levar o espectador a uma sensação inquieta de alívio, como se o pior já tivesse passado, valendo até mesmo duas codas da festa, a primeira com Bronn, no dia seguinte, chantageando os irmãos Lannister em um momento que magistralmente reuniu algum grau de tensão com comicidade e a segunda uma terna sequência em que Arya reune-se ao Cão a caminho de Porto Real para ambos acertarem suas contas por lá.

Mas o pior não é e, convenhamos, nunca foi, o Rei do Norte e sua horda de zumbis. Por mais que eles tenham ganhado essa aura de final boss de videogame, Game of Thrones não é, ainda bem, um videogame, já que o confronto entre humanos, entre pares, é sempre mais interessante, cruel e doloroso. Sou o primeiro a reconhecer que a forma como os desmortos foram despachados, em apenas uma noite depois de oito anos de construção narrativa, foi frustrante, mas, como mencionei na abertura da presente crítica, o que passou passou. Viremos a página e sigamos para o que realmente interessa.

Benioff e Weiss, imediatamente, mergulham de cabeça no conflito entre Daenerys e Jon. O segredo da ascendência do ex-bastardo é o fiel da balança do poder durante toda a narrativa, primeiro entre o casal – agora de tia e sobrinho – e, depois, como elemento principal para uma longa e série conversa entre Varys e Tyrion. O roteiro exagera um pouco no didatismo, na exposição e na repetição temática nesse aspecto ao longo de todo o episódio, mas o assunto tabu talvez precisasse ser mesmo martelado. Daenerys dá seu aviso sobre como a paz entre eles dois seria possível, aviso esse que Jon decide ignorar, espalhando a história para Sansa e Arya. Como Varys depois nos lembra, não há mais segredo depois de tanta gente saber e a legitimidade de Jon, digo Aegon Targaryen ao trono é inegável (ainda que, em termos de matéria de prova, falte muita coisa). O conflito interno futuro é inevitável.

E esse conflito começa a ser cozinhado aqui, justamente na conversa de coxia entre Varys e Tyrion, com o primeiro abertamente advogando pela posição mais equilibrada e traidora, claro, que coloca a questão de maneira bem simples: independente de qualquer coisa, quem seria o melhor governante? E essa pergunta não precisa de resposta. Nós sabemos qual é. E Tyrion também sabe, mas ele permanece ao lado da Mãe dos Dragões por um misto perfeitamente compreensível de admiração, lealdade e medo, com esse seu momento finalmente trazendo de volta a latitude dramática que Peter Dinklage sempre demonstrou ter, mas que já há muito tempo não tinha oportunidade de mostrar. Vemos sua dúvida, sua tristeza em concluir – mas sem verbalizar – contra sua Rainha e mesmo assim mantendo sua lealdade. Sensacionais momentos de intriga e costura de alianças podem sair desse alongado diálogo entre dois dos mais interessantes personagens de toda a série (Mindinho era o terceiro, mas ele se foi tão cedo…).

No lado da ação, The Last of the Starks foi econômico. Não era mesmo necessário momentos grandiosos e alongados depois da Batalha de Winterfell e tudo se resume à destruição da frota de navios de Daenerys com as poderosas balestras de Cersei manejadas pelo louco varrido do Euron Greyjoy depois que mais um inútil dragão é eliminado da equação. Não há muito tempo para pensar na cena, mas ela é muito bem conduzida por Nutter, que trabalha breves  e eficientes planos-sequência, notadamente o de Tyrion perdido no convés do navio, além de esplendorosas tomadas abertas que escancaram logo de início que Team Daenerys sofrerá perdas. Particularmente não gosto do famoso recurso do “teletransporte”, pois a navegação para Porto Real durou o equivalente a um estalar de dedos, mas não há mais tempo para preciosismos como esse, ainda que uma montagem mais eficiente tivesse resolvido a questão.

No entanto, cansa um pouco a completa ausência de um mínimo de estratégia. Tudo bem que as balestras eram mesmo um elemento surpresa daqueles inadivinháveis pelas forças “do bem” (como faz falta um espião nessas horas…), mas mesmo com um dragão a menos, se Daenerys tivesse parado para respirar, ela poderia ter simplesmente voado ao redor da frota inimiga para queimá-la a partir das popas dos navios que, até onde pude notar, não contavam com as malditas balestras. Arriscado? Talvez, mas muito mais sensato do que simplesmente fugir e deixar todo mundo à mercê do rolo compressor de Euron.

É claro, porém, que sem o espetáculo da breve batalha marítima, não teríamos o fechamento destruidor do capítulo, com a captura e subsequente assassinato de Missandei pela espada do Montanha, ao término da tentativa de Tyrion de obter a rendição da rainha-que-vale. Mesmo com o momento sendo telegrafado desde que a jovem desaparece, a tensão é palpável, assim como o prazer inenarrável de Cersei em oferecer aquele show de horrores para sua plateia que ainda consegue ficar incrédula com o que ela é capaz de fazer. Mas é isso que eu defendo: o verdadeiro horror está no que os humanos são capazes de perpetrar, e não em criaturas misteriosas geladas que transformam mortos em zumbis. Lena Headey, que desde o começo da série incorporou incrivelmente seu papel, tem, assim como Dinklage, seu momento para brilhar na temporada e isso sem precisar dizer mais do que uma ou duas frases.

The Last of the Starks é Game of Thrones raiz, como se diz por aí. É o que a série sempre ofereceu de melhor. O jogo de tronos está de volta a todo vapor e não me parece que sobrará muita gente para sentar nele…

Game of Thrones – 8X04: The Last of the Starks (Idem, EUA – 05 de maio de 2019)
Showrunners: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: David Nutter
Roteiro: David Benioff, D. B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Alfie Allen, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, John Bradley, Isaac Hempstead, Rory McCann, Conleth Hill, Carice van Houten, Kristofer Hivju, Hannah Murray, Jerome Flynn, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Ben Crompton, Hafþór Júlíus Björnsson, Jacob Anderson, Daniel Portman, Anton Lesser, Tobias Menzies, Bella Ramsey, Staz Nair, Lino Facioli, Rupert Vansittart, Gemma Whelan, Vladimir Furdik, Marc Rissmann
Duração: 78 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.