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Crítica | O Besouro Verde – 1X01: The Silent Gun

por Ritter Fan
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 01
Número de episódios: 26
Período de exibição: 09 de setembro de 1966 a 17 de março de 1967
Há continuação ou reboot?: Não. Mas há um filme com os personagens, lançado em 2011.

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É fascinante voltar no tempo para lembrar da progressão de personagens que levou à criação dos super-heróis como os conhecemos hoje em dia. Nomes vistosos, identidades secretas, máscaras, uniformes, gadgets, sidekicks e mais uma sucessão de elementos que formam a infraestrutura dos mais variados personagens hoje tão famosos vieram de fontes que remontam ao final do século XIX e começo do século XX, com um dos “marcos” iniciais tendo sido o Pimpinela Escarlate, criado pela Baronesa Emmuska Orczy, em 1905 que tinha absolutamente tudo que se tornou padrão nas décadas seguintes: uma identidade civil de um rico aristocrata que finge ser muito mais preocupado com si mesmo do que com os outros, disfarces variados, nom de guerre cativante (que, no caso, é uma flor), habilidades incomparáveis na hora da ação e um senso de justiça que o faz agir para salvar aqueles que merecem ser salvos. Foi a partir dele que tivemos, em sucessão, Zorro, Sombra, Fantasma, Cavaleiro Solitário e Besouro Verde, dentre outros, todos antecessores dos chamados heróis modernos, começando pelo Superman e seguido de perto pelo Batman.

O Besouro Verde e seu sidekick asiático Kato em particular foram criações radiofônicas de  George W. Trendle e Fran Striker em 1936, a mesma dupla responsável pelo Cavaleiro Solitário e seu sidekick nativo Tonto três anos antes a ponto de, a uma determinada altura do programa, os autores terem feito a conexão entre os personagens, transformando o Besouro Verde em sobrinho-neto do Cavaleiro Solitário. E, se olharmos com atenção para as características do Besouro Verde que, obviamente, são evoluções dos personagens mascarados que citei, ele é o que mais se aproxima do Batman, que seria criado três anos depois, com sua identidade secreta, Britt Reid, sendo um rico playboy dono de um império editorial durante o dia e vigilante mascarado, com chapéu, sobretudo e um altamente tecnológico automóvel preto batizado de Beleza Negra, durante a noite em uma cidade grande sem nome, em tese fictícia, mas que se parece muito com Nova York, além de um sidekick mais novo que é seu mecânico, mordomo, faz-tudo e motorista Kato, com sua identidade secreta sendo conhecida pelo procurador de justiça da cidade e sua secretária, que ajudam a dupla, muitas vezes vista como vilanesca pelo público em geral e pela polícia, na empreitada. E isso sem contar com uma base de operações tecnológica onde Reid vive, ainda que não exatamente uma caverna em uma mansão isolada, claro.

Essa conexão extremamente próxima com o Batman é inclusive algo que curiosamente se repetiu no contexto da curta, mas famosa série de TV do Besouro Verde que foi ao ar entre 1966 e 1967, a reboque do sucesso dos serials do personagem e justamente da célebre série do Homem Morcego do começo de 1966, criada e produzida por William Dozier. Vendo o interesse no Cruzado Encapuçado crescer quase que imediatamente, ele tratou de colocar o Besouro Verde em produção, escalando Van Williams como o personagem titular e ninguém menos do que o ainda desconhecido (nos EUA) Bruce Lee, como Kato, em seu primeiro papel em Hollywood. O espectador desavisado achará que o inseto é cópia do mamífero alado, enquanto que a verdade é justamente o contrário, como apontei, mas é verdade absoluta que a série do Besouro jamais veria a luz do dia sem a do Morcego, com o Besouro inclusive fazendo participações especiais na série do Morcego, em uma simbiose excelente.

A presença de Bruce Lee com o destaque que tem na série foi uma felicidade, pois esse foi o primeiro real contato do público americano com artes marciais genuínas, iniciando uma febre que tomaria os anos 70 e o começo dos anos 80. Foi Lee que, aliás, insistiu que Dozier o deixasse lutar em seu estilo e não no estilo “americano” que a série originalmente pedia, o que foi imediato sucesso a ponto de Van Williams ter tido aulas com Lee justamente para não ficar “atrás” na moda. Mas, diferente da série do Batman, Dozier imprimiu uma pegada série e dramática para O Besouro Verde exatamente para diferenciar muito claramente os dois materiais. Estruturalmente, as duas séries são quase idênticas, mas é alvissareiro notar como a produção cuidou para que todos os elementos clássicos do Besouro Verde e de Kato fossem mantidos, mesmo quando havia coincidência “forte” com a série do Batman então em andamento.

Sem a abordagem boba e camp, O Besouro Verde, em seu primeiro episódio, lida com o surgimento de um revólver que atira balas sem fazer som ou faísca, permitindo os mais variados assassinatos em plena luz do dia e em lugares inusitados, como acontece no funeral que abre o capítulo. É interessante notar como o roteiro escrito por Ken Pettus não só não perde tempo introduzindo os personagens – o Besouro Verde e Kato já são apresentados como vigilantes que atuam há tempos na cidade -, como cria uma resolução até complexa para a história, lidando com facções vilanescas concorrentes e uma trama envolvendo testemunhas pagas e muito dinheiro. É, nesse aspecto, que O Besouro Verde é a completa antítese da série do Batman, algo certamente muito bem-vindo, mas que possivelmente foi a razão do sucesso apenas moderado da série que seria cancelada ao fim de 26 episódios.

A inesquecível música-tema originalmente composta por Nikolai Rimsky-Korsakov para os programas radiofônicos do personagem foi mantida, mas com uma rearranjo jazzístico por Billy May, condução de Lionel Newman e um belíssimo solo de trompete por Al Hirt, com a direção de arte se esmerando na simbologia do besouro, no fantástico Beleza Negra, um Chrysler Imperial modificado, com luz verde nos faróis, nos uniformes da dupla e também nos cenários, ainda que muito da fotografia noturna seja escura demais para salientar esses elementos. Curiosamente, The Silent Gun, que efetivamente foi o primeiro episódio a ir ao ar, parece não ter sido pensado como tal, já que o terceiro, Programmed for Death, não só parece ter mais jeito de episódio introdutório (ainda que passe longe de qualquer relação com história de origem), como coloca o Besouro Verde e Kato usando máscaras com os contornos dos olhos bem mais estilizados.

Seja como for, The Silent Gun é um baita começo de série para o Besouro Verde e seu inesquecível sidekick Kato. Uma pena que ela não tenha tido uma vida mais longa na televisão americana e que os personagens, depois disso, tenham sido fundamentalmente esquecidos por aí, mesmo reaparecendo nos quadrinhos e em um filme de 2011 estrelado por Seth Rogen e Jay Chou.

O Besouro Verde – 1X01: The Silent Gun (The Green Hornet – EUA, 09 de setembro de 1966)
Desenvolvimento: William Dozier (baseado em criação de George W. Trendle e Fran Striker)
Direção: Leslie H. Martinson
Roteiro: Ken Pettus
Elenco: Van Williams, Bruce Lee, Wende Wagner, Lloyd Gough, Walter Brooke, William Dozier, Lloyd Bochner, Charles Francisco
Duração: 25 min.

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