Crítica | O Dia de Jerusa

Memória e esquecimento. Sensação de abandono. Resgate histórico. Se O Dia de Jerusa fosse um trabalho acadêmico, estas poderiam ser as palavras-chave. Lançado em 2014, a produção dirigida e escrita por Viviane Oliveira retrata um dia na vida da personagem interpretada com graça e vigor por Léa Garcia, uma das atrizes negras brasileiras, relegada há tempos para papéis secundários em telenovelas, haja vista questões óbvias que nós já sabemos acerca do Brasil, uma nação contraditoriamente multicultural, mas extremamente racista.

Em O Dia de Jerusa, temos a representação das trajetórias de duas mulheres que se cruzam. Silvia (Débora Marçal), a agente de uma pesquisa sobre sabão em pó que bate à porta de Jerusa exatamente no dia que a personagem completou 77 anos de uma longa vida, repleta de memórias que começam a pulular ao passo que as duas interagem. Destinada a levantar dados para uma pesquisa de opinião sobre um produto que faz parte da lista das donas de casa, Silvia pretende passar 15 minutos com Jerusa, mas o encontro promove um contato mais duradouro e intenso.

Ao passo que Jerusa responde ao questionário de Silvia, informações relevantes são fornecidas ao espectador, o que permite a compreensão de suas necessidades dramáticas, bem como a formação de um perfil delineado, com leve aprofundamento psicológico, mesmo para uma narrativa de pouco tempo de duração. Com momentos singelos e tocantes, O Dia de Jerusa nos apresenta uma história sobre alguém muito marcada pelas circunstâncias do passado e do presente, sem muitas perspectivas futuras.

O cenário é de abandono, solidão e luta por sobrevivência. Sozinha, Jerusa é mais uma das tantas mulheres que não contam com a presença da família e de outras companhias para passar os seus dias, ficção espelho da nossa sociedade. Em sua fala, a senhora versa também sobre a vida das mulheres negras na senzala, além da origem do seu nome e de como trabalhou tanto no passado, para ter a condição mínima de sobrevivência digna quando fosse idosa.
Visualmente detalhista, mas simples, O Dia de Jerusa teve direção de arte assinada por Laura Carvalho, também responsável pelos figurinos. Tiago Quadrado, ao assumir a direção de fotografia, capta pormenores que representam adequadamente a “humanidade” da pesquisadora e a singeleza da entrevistada, bem representada por Léa Garcia, responsável pelos melhores momentos da produção. Filmado em Bixiga, bairro paulistano de origem italiana, mas com fortíssima presença da cultura negra. Bairro onde se encontram a Rua 13 de Maio e a Rua da Abolição. Um local de demarcação crítica e política da cineasta.

Desta maneira, o filme de Viviane Ferreira é poético até nas cenas onde não há diálogos, como por exemplo, em sua abertura, com a travessia de Silvia até a chegada ao domicilio de Jerusa. Um poeta, em situação delicada de abandono social, declama trechos do poema Minha Mãe, de Luiz Gama, noutra demarcação crítica da cineasta, desta vez sob a ótica da referência literária, muito bem selecionada por sinal, exercício intelectual preocupado com a coerência e coesão de seu discurso.

As reflexões sobre a mulher negra inicialmente perpassam tangencialmente pela produção, mas depois ganham maior significância, ao passo que o roteiro revela as camadas mais profundas das personagens, num filme de protagonismo feminino negro relevante, idealizado para apontar a desigualdade ainda presente no bojo do cinema brasileiro, pouco oportuno para artistas negros, ora apresentados pela míope ótica do estereótipo, ora estigmatizados e relegados aos papéis secundários ou pouco expressivos.

O Dia de Jerusa (Brasil – 2014)
Direção: Viviane Ferreira
Roteiro: Viviane Ferreira
Elenco: Léa Garcia, Débora Maçal, Adriana Paixão, Dirce Thomaz, Flavia Rosa, Edson Montenegro, André Luís Patrício, Majó Cesar
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.