Crítica | O Expresso Polar

A comparação pode ser considerada vulgar para alguns, mas convenhamos, os comerciais elaborados para as campanhas da Coca-Cola todo final de ano, ao menos em minha infância e adolescência, eram materiais dignos de todas as premiações possíveis dentro do segmento. A textura visual, a simbiose entre imagem e som, bem como as escolhas estéticas fizeram destes produtos de marketing algo tão memorável que ao assistir O Expresso Polar, tenho a impressão de estar diante destas peças publicitárias num formato mais extenso e aperfeiçoado.

A intensidade do contraste entre os tons de azul e a presença do branco da neve traz a boa sensação de estarmos diante de um período que pode ter se tornado a ode ao consumo das sociedades contemporâneas, mas também possui outros significados, afinal, o natal também é uma época de diminuição do ritmo habitual do nosso cotidiano, para a maioria das culturas ocidentais. É quando também renovamos os nossos votos para o próximo ano, pois numa existência cheia de simbologias, o fechamento de ciclos é importante para muitas pessoas, época de fazermos balanço, equilibramos as metas e sondarmos o que foi conquistado e o que precisa ser alcançado na próxima etapa.

Dirigida pelo veterano Robert Zemeckis, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro que ele mesmo escreveu, em parceria com William Broyles Jr., ambos inspirados no livro homônimo de Chris Van Alburg, O Expresso Polar não é exatamente sobre as reflexões descritas brevemente nos primeiros parágrafos, mas parte de um tema e de escolhas estéticas que por convenções ao longo da nossa história, ficam entrelaçadas ao período: os reencontros, a neve do cinema hollywoodiano, antítese do nosso verão escaldante de dezembro, o ato de presentear, as tensões nas ceias familiares, dentre outras coisas.

Lançado em 2004, O Expresso Polar é uma produção que descortina, ao longo de seus 100 minutos, a história de um garoto estadunidense no final da década de 1950. Ao testemunhar a parada do expresso polar na porta de sua casa, o jovem terá a experiência mais fantástica de sua vida, algo que o marcará para sempre e permitirá que a sua crença no natal, não tão firme como era de esperar para uma criança, fique ainda mais sólida. Inicialmente reticente, o jovem aceita partir no trem que o leva por um passeio cheio de aventuras incríveis. Cada pedaço de território atravessado é um aprendizado diferente, marcante em sua trajetória ainda incipiente. Ele se bate com Scrooge, o famoso espírito mal natalino, imortalizado pela literatura de Charles Dickens, passa pela famosa Aurora Polar, local com o fenômeno óptico pelo brilho observado nos céus noturnos das regiões polares, em decorrência do impacto de partículas de vento solar com a alta atmosfera da terra, canalizadas pelo campo magnético do nosso planeta, isto é, um espetáculo visual impressionante e que não deixa ninguém indiferente.

Diante dos conflitos, pois cabe ressaltar, o menino não acredita mais no Papai Noel, a narrativa se torna uma alegoria para a necessidade de se acreditar e investir no “tal” espírito natalino. Conferimos com certa resistência, pois o pé na realidade não nos permite se entregar demais às utopias propostas pelo discurso cinematográfico estadunidense. No entanto, uma das “tarefas” da arte é justamente nos permitir elucubrar sobre a realidade por meio de propostas ficcionais, sendo assim, o bilhete de entrada no mundo do filme de Zemecks é “comprado” por todos aqueles que se entregam aos encantos da narrativa que se desdobra diante de nossos olhos, conjunto de cenas construídas por meio de recursos visualmente incríveis.

Assim, em seu processo narrativo, O Expresso Polar conta com imagens deslumbrantes, oriundas do virtuosismo fantástico dos elementos que compõem o setor estético. Na voz de Bing Crosby, White Christmas entoa na tela, tal como Santa Claus Is Coming To Town, na versão de Frank Sinatra, gravada em 1948, juntamente com outras músicas e texturas percussivas oriundas da trilha sonora de Alan Silvestri. A direção de fotografia de Don Burges e Robert Presley empregam ao espetáculo visual os quadros ideais para que possamos contemplar cada detalhe do design de produção também produzido em dupla, formada por Rick Carter e Doug Chiang.

A técnica de captura de movimento, novidade na época, traz ao filme a junção de “imagens reais” e animação, numa das experiências cinematográficas natalinas mais surpreendentes em toda a história do cinema. Ademais, O Expresso Polar é um filme muito, muito bonito e cuidadoso com sua temática, mesmo que a história pudesse ter personagens e conflitos mais densos para deixar a experiencia ainda mais inesquecível. Ainda assim, é uma bela produção sobre amizade e como devemos, sem se iludir demais, cultivar os nossos sonhos, tendo em vista deixar a nossa existência mais suportável.

O Expresso Polar (The Polar Express/Estados Unidos, 2004)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis, William Broyles Jr.
Elenco: Tom Hanks, Brendan King, Charles Fleischer, Chris Coppola, Dante Pastula, Daryl Sabara, Debbie Lee Carrington, Ed Gale, Eddie Deezen, Gordon Hart, Gregory Gast, Isabella Peregrina, Jimmy Bennett, Jon Scott, Josh Eli, Julene Renee, Leslie Zemeckis, Mark Goodman, Mark Mendonca, Mark Povinelli, Michael Jeter, Nona Gaye, Peter Scolari, Phil Fondacaro, Rolandas Hendricks, Sean Scott, Steven Tyler
Duração:  100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.