Quando criança, eu tinha o sonho de me tornar biólogo, ou melhor, pesquisador de animais. Era completamente fascinado por bichos selvagens e passava mais tempo assistindo ao Animal Planet do que a desenhos animados ou filmes. Claro, com exceção daqueles que tinham animais envolvidos de alguma forma. Nesse contexto, um dos filmes que mais vi na infância foi Dr. Dolittle (1998), com Eddie Murphy. Foi ali que conheci o personagem e seu conceito encantador de um homem capaz de conversar com animais. Gostava tanto daquela ideia que, às vezes, me pegava conversando com meus cachorrinhos, como se, quem sabe, eles fossem me responder.
Muitos anos depois, já escrevendo sobre cinema, pouco antes da estreia de Dolittle (2020), com Robert Downey Jr., decidi revisitar a saga protagonizada por Eddie Murphy. Antes dessa maratona, resolvi pesquisar mais a fundo sobre a origem do personagem e descobri que ele vinha de contos infantis publicados na década de 1920 do escritor Hugh Lofting. Foi então que me deparei com essa primeira adaptação, O Fabuloso Doutor Dolittle, e fiquei surpreso ao saber que se tratava de um musical da era clássica de Hollywood, indicada a nove categorias no Oscars, incluindo Melhor Filme e sendo vitoriosa em duas: Melhor Canção Original, com Talk to the Animals, além de Melhor Efeitos Visuais.
Como fazia muito tempo que eu não visitava os filmes com Eddie Murphy, optei por não revê-los antes de conhecer esta versão de 1967, para que minha experiência fosse a mais honesta possível, livre de comparações com aquilo que, até então, eu considerava o “original” na minha memória afetiva. Também não busquei mais informações para além do básico que foi citado – como a recepção majoritariamente negativa pela crítica e público, o que poderia fazer a diferença em minha experiência. O resultado se configurou como uma verdadeira viagem no tempo. Não apenas aos anos 60 retratados na tela, mas aos meus próprios tempos lúdicos de infância, quando o fascínio pelos animais e pela ecologia moldava minha imaginação.
Ao me deparar com aqueles animatrônicos, naqueles cenários grandiosos e as interações de Dolittle com alguns animais reais em cena e toda a materialidade daquele universo dentro de uma narrativa clássica em tom de épico infantil, me fizeram reencontrar aquela pureza infantil só que através de um filme completamente novo. Essa conexão, no entanto, vai além do apego pessoal de alguém que cresceu fascinado por bichos e parte de um deslumbramento consciente com a condução da mise-en-scène do cineasta Richard Fleischer, que já havia demonstrado domínio do cinema de aventura em 20.000 Léguas Submarinas (1954) e Viagem Fantástica (1966).
Fleischer tinha como uma de suas principais qualidades a valorização da escala das locações por meio de uma organização precisa dos espaços. Cada ambiente apresenta densidade e textura, ampliando o universo da narrativa e renovando a sensação de descoberta que acompanha a jornada. A força visual nasce da integração entre a profundidade da composição e o detalhismo da direção de arte, apoiada em elementos concretos, cores vibrantes, figurinos marcantes e cenários que transformam aquela fantasia em algo plausível, sustentando a imersão do espectador ao longo de sua extensa duração.
Há quem diga que o filme é longo demais, mas vejo a duração como consequência desse cuidado com a valorização cenográfica, responsável por construir a atmosfera lúdica e clássica característica dos grandes musicais da época. O problema não está exatamente no tempo, e sim na irregularidade da parte musical. Muitas canções apresentam melodias pouco memoráveis e encenações que interrompem a fluidez da aventura, soando como pertencentes a outra proposta estética e, assim, fragilizando o clima de encantamento em vez de ampliá-lo.
Ainda que seja por meio da musicalidade que o filme didatize suas principais mensagens ecológicas e humanistas, como o respeito ao “diferente” em uma sociedade que marginaliza aquilo que não compreende (exemplificado na lhama de duas cabeças), a empatia como valor central das relações e a defesa dos animais – incluindo um discurso que questiona a exploração e critica a violência institucionalizada, algo que hoje pode ser lido como próximo de uma consciência pró-veganismo –, acredito que esses valores poderiam emergir com a mesma força apenas pela construção imagética da jornada e pela força de seu protagonista.
Basta observar a ótima performance de Rex Harrison como Dolittle. Mesmo sem grande habilidade vocal, algo perceptível nas passagens musicais, ele exala ternura e generosidade nas interações com os animais e imprime carisma ao excêntrico veterinário, abraçando o tom fabular sem recorrer à ironia. Sua interpretação se apoia na cadência da fala, no timing cômico preciso e na construção de uma figura obstinada e gentil, mais do que na potência musical propriamente dita. Embora lhe falte um elenco de apoio à altura, especialmente no caso do par romântico vivido por Samantha Eggar, com quem há pouca química em cena, sua presença sustenta o filme e funciona como o eixo que ancora o espetáculo.
O Fabuloso Doutor Dolittle é injustamente tratado como um dos piores indicados a Melhor Filme da história do Oscar. Trata-se de uma fantasia carismática, digna dos bons títulos de “Sessão da Tarde”, que simboliza o fim de uma era dos grandes musicais de estúdio, ainda que, como musical propriamente dito, esteja longe de ser memorável. É um filme de um tempo em que Hollywood apostava na ingenuidade como força motriz do espetáculo e confiava que o público se deixaria levar por criaturas falantes e cenários extravagantes, construídos para serem vistos e admirados.
Em termos de comparação, ainda guardo muito carinho pela versão com Eddie Murphy, mas gostaria de ter assistido a esta adaptação de 1967 na infância. Talvez ela também ocupasse um espaço afetivo semelhante na minha memória. Hoje, ao conhecê-la já adulto, encontro outro tipo de encanto, não o da nostalgia imediata, mas o da redescoberta consciente de um cinema movido pelo imaginário e por valores simples e humanos, cuja delicadeza ainda conversa com aquele menino que um dia tentou falar com seus próprios bichos de estimação esperando, de verdade, que eles respondessem.
O Fabuloso Doutor Dolittle (Doctor Dolittle | EUA, 1967)
Direção: Richard Fleischer
Roteiro: Leslie Bricusse (baseado na obra de Hugh Lofting)
Elenco: Rex Harrison, Samantha Eggar, Anthony Newley, Richard Attenborough, Peter Bull, Muriel Landers, William Dix, Geoffrey Holder, Portia Nelson, Norma Varden
Duração: 149 minutos.
