Crítica | O Imortal Hulk – Vol. 1: Homem, Monstro… ou Ambos?

A capa de O Incrível Hulk #1, publicada em maio de 1962, continha a seguinte pergunta, em letras garrafais: “É ele humano ou monstro… ou ambos?”. Essa icônica pergunta já foi respondida de infindáveis maneiras diferentes ao longo da quase sexagenária carreira do Gigante Esmeralda, com o personagem ganhando versões diferentes e um sem-número de derivados. No entanto, poucos autores realmente tentaram voltar à essência da pergunta, extirpando o lado super-heroístico do personagem e lidando com a dualidade que reside não só em mais essa criação de Stan Lee e Jack Kirby, mas também em nós. Al Ewing, em O Imortal Hulk, parte da iniciativa Fresh Start da Marvel Comics que resgata a relevância de seus personagens clássicos e que vem produzindo ótimos títulos (vide os arcos de Pantera Negra, Capitão América, Vingadores e Venom) faz justamente isso, trazendo à tona, a partir da parte final da pergunta da edição sessentista, que batiza a edição #1 do novo título e também o encadernado que compila os primeiros cinco números, todos os valores clássicos desse grande personagem.

E o resultado é surpreendente.

Começando sem tentar de forma alguma manter o mistério sobre a volta de Bruce Banner – e do Hulk – do mundo dos mortos, depois das flechas certeiras do Gavião Arqueiro em Guerra Civil II (e das ressuscitações momentâneas que se seguiram), o autor já estabelece esse fato de cara e já dando a entender aquilo que o título deixa evidente: Banner até pode não ser imortal, mas Hulk é. Mas sua volta, dentro do Universo Marvel em si, ainda é uma incógnita e a repórter Jackie McGee, a versão feminina do inesquecível Jack McGee da série setentista do Hulk (e que teve uma versão cinematográfica em O Incrível Hulk), tenta investigar o que exatamente está acontecendo. McGee, aliás, é um testamento da vontade de Ewing de realmente voltar às raízes do Hulk como um homem/monstro solitário e perseguido pelos Estados Unidos afora, algo que é um prazer ver acontecer aqui nesse primeiro arco.

E Ewing não tem problemas em retratar a violência dos homens e do próprio Hulk. Mortes e mutilações (até tortura!) acontecem com uma certa constância, mas sem aquela gratuidade boba para chamar atenção de adolescentes impúberes. Esse aspecto está, ao contrário, inserido profundamente no DNA da obra e serve para desenvolver exatamente o que seu título pergunta. Banner, porém, tem um propósito nessa narrativa que permite que as edições tenham uma natureza episódica e razoavelmente estanque: ele persegue as “assinaturas” da radiação gama, encontrando-a de várias formas no interior de seu país. Esse não é o único motor narrativo, mas ele é a costura que leva ao clímax em que ele enfrenta Sasquatch, o membro monstruoso da Tropa Alfa que também deve sua origem aos raios gama. Confesso que trepidei quando notei a entrada de Walter Langkowski na metade do arco, não poder ela não ser orgânica, pois é, mas sim porque ele poderia retirar o caráter íntimo da história. Mas a grande verdade é que Ewing tem ambições e Sasquatch serve como veículo para revelações sobre o passado de Banner/Hulk que podem modificar e ampliar o horizonte da história sendo contada.

Mas o que realmente importa é que o texto do roteirista é reverente ao Golias Verde sem ser escravo de décadas de cronologia. Nada de Hulk de armadura, de Hulk gladiador, de Hulk apaixonado por princesa do microverso, de Hulk espacial, de Hulk destruidor da Terra, de Hulk de terno e gravata ou de Hulk amigo de Rick Jones. O Hulk imortal de O Imortal Hulk é, para usar o jargão do momento, o Hulk “raiz”, mais para o lado do horror, de calças roxas rasgadas (aliás, elas ganham uma explicação!), de violência extremada, de melancolia profunda e, sim, de heroísmo, mesmo que de forma enviesada. O Hulk de Ewing não se preocupa em ser o Hulk da Marvel Comics, mesmo sendo. A leitura, portanto, não exige carga alguma de conhecimento que não seja aquilo que é explicado ali dentro de maneira suave e simples: Hulk estava morto, agora não está mais. E o estudo de personagem que parte daí é estupendo do começo ao fim, com a simbologia clássica de Mary Shelley e de Robert Louis Stevenson, que beberam sem dó de fontes góticas, bíblicas, psiquiátricas e biomédicas, presentes todo o tempo, sem nenhum momento de leniência para o pobre Banner ou mesmo para nós, leitores.

A arte é primordialmente de Joe Bennett, que sabe trabalhar o Hulk grotesco que a história precisa, além de conseguir lidar muito bem com as sequências de destruição completa e pancadaria visceral que se fazem presentes de maneira ritmada, evitando que as páginas das revistas sejam apenas rinhas de galo sem sentido. Bennett também é hábil ao imprimir a cadência visual para o que Ewing escreve, com inspirados momentos – ainda que raros – em que ele manipula as páginas de maneira a quebrar a divisão tradicional de quadros. Com isso, a história toda flui muito bem e as revelações sobre o passado do Hulk são trazidas com naturalidade. Tenho implicância com o exagero da simbologia do uso de espelhos e reflexos, já que ela é usada tantas vezes que perde o efeito desejado, além de ser o tipo de didatismo que poderia ser evitado lá pela 34ª vez. No entanto, no cômputo geral, este é um problema menor dentro de um arco inaugural quase irretocável.

Com Homem, Monstro… ou Ambos, Al Ewing parece realmente querer reunir o melhor de dois mundos: o Hulk clássico com reviravoltas de rigueur que alteram seu passado. Ainda é cedo para dizer se a essência do Golias Esmeralda será mudada – espero fortemente que não! -, mas não poderia esperar um (re)começo melhor para um personagem tão querido.

O Imortal Hulk – Vol. 1: Homem, Monstro… ou Ambos (The Immortal Hulk – Vol. 1: Or Is He Both? (EUA, 2018)
Contendo: The Immortal Hulk #1 a 5
Roteiro: Al Ewing
Arte: Joe Bennett, Paul Hornschemeier, Marguerite Sauvage, Garry Brown
Arte-final: Ruy José
Cores: Paul Mounts, Paul Hornschemeier, Marguerite Sauvage, Garry Brown
Letras: Cory Petit, Travis Lanham
Capas: Alex Ross
Editoria: Tom Brevoort, Wil Moss
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto a novembro de 2018
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: julho de 2019
Páginas: 132

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.