A terceira encadernação de Imortal Hulk, apropriadamente intitulada Hulk no Inferno, é o ponto em que Al Ewing deixa de apenas flertar com o horror metafísico e decide atravessar o limiar de vez. Se os dois primeiros volumes funcionavam como um retorno às raízes, como meu colega Ritter Fan pontuou em suas críticas de Homem, Monstro… ou Ambos? e A Porta Verde, primeiro ao Hulk gótico, solitário e perseguido, depois à sua colisão inevitável com o Universo Marvel, este terceiro arco abandona qualquer pudor e mergulha o personagem em uma dimensão alegórica, teológica e existencial que redefine e ao mesmo tempo resgata, com violência e ousadia, o que significa ser o Hulk.
Desde suas primeiras páginas, Hulk no Inferno deixa claro que não está interessado em infernos genéricos ou em pirotecnia sobrenatural vazia, utilizando o Gama para criar um ambiente meio radioativo, pós nuclear no purgatório que lemos. Carl Creel, Walter Langkowski, Eugene Judd, a Base Sombra, o Novo México tudo e todos são sugados para uma mesma lógica de sofrimento estrutural, em que o inferno de Ewing não é só um lugar, mas um estado de existência. É um inferno menos dantesco e mais lovecraftiano, menos religioso no sentido tradicional e mais metafísico em sua crueldade impessoal.
É nesse cenário que o Hulk imortal se torna, paradoxalmente, a figura mais disruptiva possível. Enquanto Banner “pertence” Àquele Abaixo de Todos — entidade que se revela como o verdadeiro deus desse inferno —, o Hulk não pertence a nada. Essa distinção é fundamental. Ao longo do arco, Ewing cristaliza algo que vinha sendo construído desde o primeiro volume: Banner é o homem quebrado, culpado, moldável; o Hulk é a recusa absoluta. Não a recusa heroica, mas a recusa primitiva, irracional, quase cósmica e ancestral, inclusive com o resgate de momentos clássicos do herói.
A revelação do Um Abaixo de Todos funciona como o eixo conceitual do volume. Ele não é apenas mais um vilão abstrato, mas a personificação do ódio primordial, da pulsão de destruição que se infiltra em tudo. Nesse sentido, o Um Abaixo de Todos é menos um antagonista tradicional e mais uma força de entropia moral, algo que existe para lembrar que a violência não é exceção, é regra. Falta uma certa lógica ou pelo menos uma explicação básica para certos acontecimentos em torno do vilão, mas o texto se apropria bem dessa ideia mais de alegorias do que uma história mais tácita.

Visualmente, o arco acompanha essa escalada conceitual com uma arte que abraça o grotesco sem reservas. Joe Bennett, novamente central, entrega talvez seu trabalho mais desconfortável na série até aqui. Os corpos são distorcidos, dilacerados e reconfigurados em um ótimo uso de horror corporal. O Hulk não é apenas grande ou forte; ele é errado; um erro de existência. Bennett entende que o horror de Imortal Hulk não está apenas no sangue ou no gore, mas na sensação constante de que nada ali deveria existir daquela forma. As páginas ambientadas no inferno têm uma textura sufocante, quase orgânica, como se o próprio cenário estivesse vivo e hostil.
Ewing também é inteligente ao contrastar esse mergulho infernal com o retorno de figuras fundamentais no “mundo de cima”: Betty Banner e Doc Samson. Suas reintroduções não funcionam como alívio, mas como contraponto temático, seguindo a toada da série em voltar às raízes do protagonista. Betty, especialmente, retorna carregando não apenas seu passado trágico, mas uma promessa de transformação que ainda não se revela por completo (gosto do gancho do tiro nela). Samson, por sua vez, traz de volta a dimensão psicológica explícita da série, lembrando que, por trás de deuses do ódio e monstros imortais, ainda existe um homem profundamente traumatizado. Essas presenças reforçam um retorno mais fundamental à essência do Hulk e daqueles à sua volta (temos até um aprendiz do General Ross).
Narrativamente, Hulk no Inferno é o arco mais arriscado da série até aqui e também o mais divisivo. Não há aqui a mesma linearidade investigativa do primeiro volume, nem a dinâmica quase clássica de confronto do segundo. Este é um arco de conceitos, de imagens, de ideias. Em alguns momentos, Ewing se aproxima perigosamente do excesso, especialmente na verborragia metafísica e na insistência em certas metáforas. Ainda assim, é difícil não reconhecer a coragem criativa envolvida. Pouquíssimos roteiristas em títulos mainstream se permitem ir tão longe, tão fundo e tão desconfortavelmente.
O maior acerto do volume está na consolidação definitiva da separação entre Banner e Hulk. Se antes a dualidade era psicológica, aqui ela se torna ontológica. Banner pode ser possuído, condenado, reclamado. O Hulk, não. Ele não pode ser mantido, nem mesmo pelo inferno. Essa recusa não é apresentada como triunfo moral, mas como condição de existência. O Hulk não vence porque é bom; ele persiste porque é inevitável. É uma leitura profundamente pessimista e, ao mesmo tempo, estranhamente libertadora, conduzida por ótimos diálogos sobre a raiva e as emoções do personagem, valendo destacar os diversos trechos sobre Jó.
Ao final do arco, Hulk no Inferno deixa claro que Imortal Hulk não é apenas uma reconstrução do personagem, mas uma reinterpretação radical de seu papel simbólico. O Hulk não é mais apenas o monstro interior de Banner, nem o reflexo de traumas infantis, nem mesmo uma força da natureza. Ele é a resposta violenta a um universo que naturaliza o sofrimento. Em um mundo regido pelo ódio estrutural, o Hulk é o corpo que se recusa a se encaixar, mesmo que isso signifique existir eternamente em conflito.
Pode-se discutir se essa guinada metafísica é “boa” para o personagem a longo prazo. Pode-se questionar se todo esse aparato teológico não resultará, inevitavelmente, em mais um grande retcon. Mas, no aqui e agora, Hulk no Inferno é um arco impressionante, perturbador e singular dentro da produção contemporânea da Marvel. Al Ewing não apenas leva o Hulk ao inferno; ele nos força a encarar a ideia de que talvez nunca tenhamos saído de lá.
O Imortal Hulk – Vol. 3: Hulk no Inferno (The Immortal Hulk – Vol. 3: Hulk in Hell – EUA, 2019)
Contendo: The Immortal Hulk #11 a 15
Roteiro: Al Ewing
Arte: Joe Bennett, Kyle Hotz
Cores: Paul Mounts
Letras: Cory Petit
Capas: Alex Ross
Editoria: Tom Brevoort, Wil Moss
Editora original: Marvel Comics
Editora no Brasil: Panini Comics
Páginas: 120
