Crítica | O Massacre da Serra Elétrica: Uma Verdade Chocante

O Massacre da Serra Elétrica é uma das grandes marcas do cinema de horror moderno. Dentre tantas produções retrospectivas, preocupadas em dialogar com seu legado, temos o documentário em questão, com subtítulo Uma Verdade Chocante. Em seu desfecho, somos levados a refletir sobre ser ou não verdadeiramente chocante a história contada ao longo de seus 75 minutos de duração, organizados pelo texto escrito e dirigido por David Gregory, também responsável por editar o material lançado diretamente para o mercado de vídeo em 2000.

Com depoimentos dos principais membros da equipe do filme de 1974, o documentário traz verdades e curiosidades interessantes, mas não chega a ser tão chocante. Há alguns momentos, inclusive, que o marasmo toma conta da tela, nada que estrague demais a pesquisa e a condução das entrevistas sobre os bastidores de produção deste slasher controverso. O que falta mesmo é um pouco mais de adrenalina, ritmo, tal como a própria história que é contada. Narrado por Matthew Bell, Uma Verdade Chocante foca no contexto histórico prévio ao dia 15 de julho de 1973, data de início do processo de filmagem que durou 32 dias em pleno verão de Austin, no Texas.

Os crimes de Charles Manson tinham assombrado a sociedade na virada dos anos 1960 para a década seguinte. O Vietnã seguia seu fluxo com mais baixas a cada dia, chanceladas pelo governo que apoiava a continuidade da guerra. Os movimentos que até algum tempo eram chamados de “contracultura” clamavam por mudanças e o cinema promovia debates sobre a violência em filmes que abandonaram de vez temáticas góticas clássicas para flertar com o medo contemporâneo, distante do tom sobrenatural. Aniversário Macabro, concebido por Wes Craven, em parceria com Sean S. Cunningham, causou horror na plateia despreparada para tal espetáculo de sangue.

Em 1968, outro filme trouxe bastante desânimo para o público desejo de finais felizes: os zumbis de A Noite dos Mortos-Vivos denunciavam a terrível fase para a sociedade estadunidense e o seu encerramento sem uma conclusão alienante reforçou as condições em que a população se encontrava. A família, outro setor da sociedade abalado, teve as suas estruturas bombardeadas por novos padrões sociais. O tom disfuncional aparece de maneira sadicamente irônica em O Massacre da Serra Elétrica, versão macabra das peças publicitárias que exaltavam a felicidade e reforçavam que tudo estava indo muito bem. Mesmo que os atingidos soubessem que não.

Para construir essa fábula, Tobe Hooper conta que o trabalho foi árduo. A sua equipe trabalhava no mínimo 12 horas por dia, a semana inteira. Com depoimentos de Gunnar Hansen e Marilyn Burns, a produção narra meticulosamente os momentos mais difíceis de filmar, as dificuldades financeiras, o legado alcançado por uma produção que ninguém dava nada e o fato de ter fãs que os acompanham até hoje, pessoas que sequer tinham nascido quando o filme foi lançado. Dentre as histórias mais curiosas, há o fato de Hooper ter editado em sua casa, espaço que também serviu de estúdio para criação dos efeitos sonoros.

Próximo ao fim, Uma Verdade Chocante flerta com as continuações, todas fracassadas se comparadas ao filme ponto de partida. Das interferências do estúdio em O Massacre da Serra Elétrica 2 ao rumo dado para Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno. O documentário investe no padrão das retrospectivas, exaltando o filme de 1974, rico e cheio de energia no que tange ao subtexto político forte. O diretor de arte Robert A. Burns e o roteirista Kim Henkel, responsável pelo roteiro, complementam o painel de depoimentos necessários para tornar a produção uma boa fonte de informações.

O Massacre da Serra Elétrica: A Verdade Chocante (The Texas Chainsaw Massacre: The Shocking Truth) — Estados Unidos, 2000
Direção: David Gregory
Roteiro: David Gregory
Elenco: Tobe Hooper, Marilyn Burns, Kim Henkel, Gunnar Hansen, Robert A. Burns,
Duração: 75 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.