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Crítica | O Pecado Mora ao Lado

por Ritter Fan
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Provavelmente mais lembrado pela cena em que o vestido branco de Marilyn Monroe é levantado pelo vento passando pelas grades do metrô de Nova York, cena esta que ironicamente não está no filme da forma como o imaginário popular acha que está, O Pecado Mora ao Lado é uma comédia leve, mas muito inteligente e divertida que Billy Wilder e George Axelrod escreveram com base na peça de teatro deste último e que aponta todos os seus canhões para aquele tipo de masculinidade que considera uma obrigação o homem hétero “caçar” mulheres mesmo quando são casados ou em relacionamento estável. Muitos podem até considerar o longa como moralista, mas ele, na verdade, apenas defende o respeito nos relacionamentos e isso só é ser moralista em um mundo distorcido por noções boçais que, infelizmente, muitos têm por aí.

Na história, Richard Sherman (Tom Ewell) é um homem de meia-idade casado há sete anos que, as férias de verão, manda sua esposa e filho para o Maine enquanto permanece trabalhando na canícula da cidade grande. Chegando em casa do trabalho, ele descobre que uma loira escultural (Monroe, em uma papel creditado apenas como “A Garota”, mas que Sherman, ao final, diz que “talvez seja Marilyn Monroe”) mudou-se para o apartamento de cima, o que o leva a uma hilária espiral que começa com sua fantasiosa autoafirmação de que todas as mulheres bonitas ao seu redor gostam dele, desaguando em uma paranoia sobre o que sua esposa estaria fazendo no Maine e o que ela possa ou não saber de seu “relacionamento” com o pecado que mora em cima e não ao lado. Sherman, no começo, é a encarnação do homem que, para ser homem, precisa mostrar que é HOMEM, assim mesmo, com letras maiúsculas e negrito, e isso significa necessariamente correr atrás de todos os rabos de saia ao seu redor, somente para que o espertíssimo roteiro vá lentamente esvaziando em balão cheio de ego ridículo.

Como a origem do longa é uma peça de teatro, Wilder manteve a restrição espacial, estabelecendo a ação quase que exclusivamente no apartamento térreo de Sherman que é caracterizado principalmente por uma escada no meio da sala que não leva a lugar nenhum (ou melhor, leva ao apartamento de cima – onde vive “A Garota” – mas cuja comunicação foi selada pelo proprietário para dividir o dúplex em dois apartamentos), quase que exatamente simbolizando até onde levam os devaneios do protagonista. Aliás,  a origem teatral é mantida com rigor, pois Ewell foi o ator que primeiro viveu o personagem na Broadway, migrando para a versão cinematográfica em seguida, o que resulta em uma performance que, diria, estabelece o equilíbrio perfeito entre o exagero do palco e a sutileza do Cinema.

Monroe vive basicamente ela mesma, mas não digo isso de forma alguma pejorativamente. Ela é o lindo bibelô loiro que atrai toda a atenção quando está presente em uma cena, mas que não é a “loira burra” ou mesmo inocente que muitos podem imaginar. Seu papel é autoconsciente, quase metalinguístico, já que a atriz tinha a perfeita consciência do que ela representava diante das câmeras e principalmente também fora do set de filmagens. Enquanto Sherman é caracterizado como o homem bobalhão – e não somos todos? -, ela tem o comando da situação, um olhar até sábio que tem a perfeita noção do poder que tem mesmo que não faça ideia quem seja Sergei Rachmaninoff, que o protagonista insiste em tocar para criar ambientação em seu apartamento.

Os diálogos são espertos, cheios de duplo sentido e, fora da esfera da dupla principal, vale lembrar da breve, mas hilária sessão psiquiátrica de Sherman com o Dr. Brubaker (Oscar Homolka), o psiquiatra que deseja publicar seu livro pela editora em que ele trabalha. É nesse contexto que o título original do filme é explicado como a “coceira” da infidelidade que os homens (os homens, não as mulheres, claro!) supostamente sentem depois de sete anos de casados e é também nesse contexto que o ridículo da situação é exposto pela forma como Brubaker ecoa as bobagens que Sherman diz exasperado.

Percebe-se, porém, que o roteiro não consegue se fechar em si mesmo de maneira completa, já que Wilder e Axelrod foram obrigados a fazer concessões ao estúdio, que exigiu o corte de diversas passagens mais picantes, inclusive e especialmente a efetivação da infidelidade de Sherman, quando ele passa uma noite com a jovem loira. Não li e não assisti a peça, mas, no filme, esse acontecimento mataria a estrutura da própria obra e o esvaziaria de sua sátira ferina à masculinidade imbecil, mas fica evidente que faltou algo no longa que solucionasse esse problema, já que não permanece – ainda bem! – nem mesmo a sugestão de que os dois transaram, o que deixa um “buraco” narrativo na história que tinha que, talvez, encontrar outra saída.

Mas esse drible que o roteiro dá a uma situação quase inevitável entre os dois não desmonta o longa e nem sua intenção inicial ou sequer desdiz as performances de Monroe e Ewell, perfeitos em seus respectivos papeis. Fica apenas aquela leve coceira de que algo diferente deveria ter acontecido, sem que o conjunto de O Pecado Mora ao Lado perca sua potência ou sua graça, mesmo que a cena do vestido branco levantado ocorra de maneira significativamente diferente à que todos “lembram”.

O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch – EUA, 1955)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, George Axelrod (baseado em peça teatral de George Axelrod)
Elenco: Marilyn Monroe, Tom Ewell, Evelyn Keyes, Sonny Tufts, Robert Strauss, Oscar Homolka, Marguerite Chapman, Victor Moore, Donald MacBride, Roxanne, Carolyn Jones, Tom Nolan, Doro Merande, Kathleen Freeman
Duração: 105 min.

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