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Crítica | O Que As Mulheres Gostam

Ouvir as mulheres transforma.

por Davi Lima
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O que as Mulheres Gostam é uma obra sobre um homem constrangido por ser o herói de que as mulheres salvam. Dentro de uma visão feminista, bem generalizante, há um erro crasso de um filme focar na transformação de um homem machista por invadir as mentes das mulheres. Mas o que Nancy Meyers quer nos anos 2000 é mudar o status quo que esse tema pode tratar, utilizando o realismo sobrenatural. Com uma comédia romântica, em que o homem se dispõe a ouvir as mulheres, e não ser mais servido por elas, do humor para o drama.

A figura máscula do ator Mel Gibson como o protagonista Nick se apresenta peculiar por causa de sua origem, mostrada nos primeiros minutos do filme. Nick é criado, quando criança, por uma mulher do show business teatral do cabaré em Nova York, forjando um homem adorado por um estereótipo de mulheres, além de ser sexista e misógino. Há aí uma linguagem freudiana na relação de mãe e filho, o tal Complexo de Édipo

O intuito disso é para que a transformação cinematográfica do personagem seja plausível, mesmo com seus comportamentos masculinos anteriores. Mas isso nunca fica claro dramaticamente, em que a diretora prefere focar no quão diverso Mel Gibson pode ser em sua inspiração musical de Frank Sinatra para dançar pela sua casa mobiliada, ou ouvir a trilha de Meredith Brooks para experimentar o material de trabalho feminino, no tal método de entrar na mente feminina usando os categorizados utensílios femininos no mercado.

Nisso não há o constrangimento, e sim o fator diferencial. Mel Gibson não tem medo de ser visto como um travesti por usar meia calça para compreender as mulheres e ter ideias no trabalho, ou se assumir homossexual para que uma mulher esteja tranquila quanto à atitude machista dele esquecer as mulheres em uma noite de sexo. Porém, tudo isso está em um campo cômico, em que a sobrenatural transformação do personagem Nick surge na suspensão de descrença clássica da comédia romântica. O diferencial são os contextos e a montagem que o filme enfatiza para tornar a história cada vez mais realista e plausível no drama. 

Um exemplo disso é que certa hora há um afunilar estético de Nick ficar perdido entre ouvir Darcy (Helen Hunt) e ler sua mente num plano holandês (eixo horizontal da câmera gira entre 15 a 45 graus para criar desconforto), utilizando o zoom no rosto da personagem. Isso acontece após a diretora exercitar a inserção de ideias no espectador sobre o excesso e a falta de pensamentos femininos na sociedade, e por consequência no filme.

O exercício mais sobrenaturail ocorre com narrações em off entre montagens abruptas de aberturas variadas no close (enquadramento mais detalhista, normalmente focando no rosto ou em um objeto) de um plano fotográfico para retratar o universo psiquico envolta de Nick. Tudo isso sem medo de ridicularizar os contextos realistas que o filme preserva, como o ambiente de trabalho e os discursos feministas sobre empoderamento no marketing de produtos femininos.

Assim, a transformação de Nick não se baseia em sua escolha, é baseada numa sistemática de fatores estéticos e sociais de confronto “dramédicos”. Em meio à abrangência com o trato feminino, o romance que ele vai criando por Darcy é por gostar cada vez mais de ouvi-la, não ler sua mente. Mas inicialmente ele vai se tornando o herói das mulheres por saber fazer o sexo como uma mulher gosta, e por falar o que as mulheres queriam que ele falasse por ler suas mentes. A mediação disso é extremamente problemática, porque automaticamente transforma o homem para ele se moldar aos que as mulheres querem em meio a constrangimento dele. A mulher não se torna o foco, e ainda tem que ter o peso de salvar o homem? Ele é a vítima? Essa contradição só será “resolvida” por dinâmicas sobrenaturais e suspensão de descrença da comédia romântica.

Daí a mudança de status quo do tema, que necessita do cinema, a crença na história e na imagem que a conta. Mel Gibson, especialmente pensando no seu retrospecto de ator, criou uma repulsa na crença da mudança do machista, mas no filme seu personagem é criado por uma mulher do cabaré, e caracterizado, em diálogos, no começo do filme por sua filha e sua ex-mulher. Ou seja, a voz feminina é o que inicia o filme, não Nick em sua cama após um sexo de uma noitada. 

Sim, são mulheres comentando sobre um homem; mas qual seria a melhor forma de ditar para um filme um homem mudar por se inserir mentalmente no mundo feminino quando ele é contextualizado por elas? Há várias outras formas, até melhores. No entanto, entre as fáceis contradições de catar no discurso de Nancy Meyers em seu filme, há essa coerência cuidadosa, de que as mulheres definitivamente dão a voz ao filme usando um homem, não elas servindo-o. Sem dúvida uma maneira singular de utilizar o universo hollywoodiano para dar voz as mulheres.

Por fim, Nick se torna um herói; herói da filha, herói de uma funcionária depressiva de que ele era chefe, e por fim é salvo como homem pela progressão narrativa de mulheres. A dialética, a tese e a antítese, é essa, em meio ao problemático subgênero da romcom, que sempre preserva a guerra dos sexos e jogos masculinos e femininos como única vida dentro da sexualidade. 

Quando se pensa como Nancy Meyers tira a música de Frank Sinatra do foco e coloca apenas a trilha incidental de Alan Silvestri para emocionar os últimos beijos do filme, é o cinema de uma mulher dizendo algo. A ação de Nick deixar a sua casa mobiliada na madrugada para subir a escada de uma casa não mobiliada no centro de Nova York de uma mulher independente como Darcy se torna ação certa, do personagem, e da diretota, que o constranja em busca da salvação.

Mesmo no seu meio burguês, branco e privilegiado, digno de crítica e observação, ainda mais para a voz feminista contemporânea, sem dúvida Nancy sabe constranger o homem para provocar no espectador masculino alguma transformação quanto a ouvir as mulheres de maneira geral.

O Que As Mulheres Gostam (What Women Want) – EUA, 2000
Direção: Nancy Meyers
Roteiro: Josh Goldsmith, Cathy Yuspa
Elenco: Mel Gibson, Helen Hunt, Marisa Tomei, Alan Alda, Ashley Johnson, Mark Feuerstein, Lauren Holly, Delta Burke, Valerie Perrine, Judy Greer, Sarah Paulson
Duração: 127 minutos

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