Crítica | O Quinto Poder

Informação sempre foi poder, das narrativas situadas na Antiguidade e Idade Média, aos tempos contemporâneos da velocidade comunicacional. Em seus eficientes créditos de abertura, O Quinto Poder faz um panorama circular dos suportes de comunicação da humanidade, dos primeiros registros aos smartphones atuais. É um plano situacional deslumbrante e didático para o que a produção ofertará enquanto conteúdo dramático ao longo de seus 128 minutos. Sob a direção de Bill Condon, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro escrito por Josh Singer, dramaturgo inspirado nos livros de David Leigh, Daniel Domscheit-Berg e Luke Harding, o filme faz uma radiografia do Wikileaks e da trajetória da parceria de seus criadores, do momento que se conheceram ao rompimento tomado por fúria e irônica falta de habilidade comunicacional.

A produção acompanha a criação do portal e da parceria entre Julian Assange (Benedict Cumberbatch) e Daniel Domscheit-Berg (Daniel Bruhl). Eles se conhecem numa convenção em Berlim e após a troca de e-mails, decidem dar vazão ao ativismo on-line que não apenas lhes concede a suposta empolgante situação de poder, mas também alimentam os seus egos que necessitam constantemente de alguém ou algo para inflar. Em especial, Assange, apresentado por Cumberbatch como uma pessoa instável, excessivamente arrogante e nada saudável para relacionamentos mais íntimos. Deste contato inicialmente promissor surge o site Wikileaks, especializado em vazar informações dos mais altos escalões da política e da economia, assuntos inflamáveis, tais como o manual de instruções para prisioneiros em Guantánamo, material que promoveu debates polêmicos na mídia e levantou questões sobre Direitos Humanos.

O plano de seus idealizadores é a informação como algo de acesso geral, pois há tantos segredos de estado que a população que acredita viver numa democracia não sabe que muitas falcatruas circulam nas dinâmicas do poder. Essa atitude rebelde levanta vários debates sobre o exercício da ética na era da internet, mas a dupla e seus colaboradores não fazem questão alguma de tentar entender os impactos filosóficos disso tudo. O que eles querem é derrubar sistemas, espalhar informações para o máximo de pessoas e desvelar alguns segredos que os poderosos gostariam que estivessem mais protegidos. As postagens e a entrega de documentos hackeados para outros conglomerados da mídia tradicional que aceita o material como parte do “furo” transforma a vida de muitos líderes estatais num verdadeiro caos.

O ácido Assange deixa claro em diversos momentos: o Wikileaks não edita!”. Ele, juntamente com Domscheit-Berg, acredita que o trabalho que desenvolvem permite aos oprimidos a proteção ideal, juntamente com a sensação de justiça constante. Em outro trecho, Assange afirma que “qualquer um pode pegar um monte de informações e jogar num site para chamar de notícia”. É uma fala crítica ao jornalismo porco e de conluio com muitos jogos de poder envoltos em nossa sociedade sempre em crises no campo da corrupção. Importante observar, no entanto, que o personagem se comporta de maneira tão egoísta em várias passagens, a ponto de não nos permitir acreditar que as suas atitudes sejam em prol do outro. Parece mais que a benevolência das atitudes vem dos desdobramentos da ação de seu ego de hacker mega inflado.

Para o bem ou para o mal, algumas informações importantes para nosso conhecimento são reveladas. Se o emissor é arrogante, quem se importa, não é mesmo? Um dos documentos mais perigosos que a dupla explanou ao mundo marcou uma crise nas relações externas estadunidenses. Foi o vazamento que envolveu a presença das tropas do exército na era do governo Bush no Afeganistão, abordagem militar que resultou na morte indevida de vários civis. Conforme o filme avança, o lema de Assange é que “um povo livre deve ter conhecimento”. E assim, vamos acompanhando a luta da dupla para manter o site on-line, algo seguido do afastamento de ambos por conta das diversas diferenças no que tange ao posicionamento político e regras de convívio. Assange, neste caso, é tido como o temperamental.

Apesar de seu nome “wiki”, o site não permite que os leitores editem o material veiculado. Com a primeira publicação datada de 2006, o Wikileaks geralmente faz postagens anônimas e divulga arquivos confidenciais sobre governos e grandes corporações. Há críticas, inclusive, ao seu modo de operação ativista, pois muitos condenam que portais como New York Times, The Guardian, dentre outros, sejam considerados parceiros. Se são parcerias, não há nada de fuga ao tradicional neste esquema de informação. O que será que a dupla ganhava com tudo isso? Enfim, são questões que se desdobram em nossa cultura não unânime. Vejo, neste aspecto, a veiculação dos materiais vazados nestas mídias como uma maneira de reforçar o conteúdo e coloca-los dentro de uma zona de legitimação, tendo em vista alcançar o maior número de pessoas possíveis.

No desenvolvimento de O Quinto Poder, os aparatos estéticos não apresentam problemas. A direção de fotografia de Tobias A. Schlleessler contempla bem os espaços do design de produção cibernético de Mark Tildesley, sempre iluminado de acordo com o estado de espírito dos personagens diante de suas missões na exposição da “verdade”. Acompanhados pela condução sonora de Carter Burnwell, os personagens estão constantemente em busca da “retirada do manto da verdade”, no intuito de fazer parte da “história”, não apenas ler sobre. São criaturas em ritmo acelerado, sempre prontas para o embate, reativas e muito intensas. Alguns, em breves momentos, quebram até ousam e quebram a quarta parede, num exercício cinematográfico que também se faz da linguagem dos games nas cenas de maior intensidade.

Lançado em 2013, O Quinto Poder purgou o mesmo que tantas outras cinebiografias: a irritabilidade do biografado, neste caso, Julian Assange, insatisfeito com a abordagem supostamente muito ficcional de sua trajetória. Para expor o filme e torna-lo um fracasso, Assange publicou partes do roteiro com seus comentários, num acesso que ninguém se pronunciou como emissor. Acredita-se que ele tenha conseguido o material por causa de suas habilidades bem delineadas na produção e expurgou o seu descontentamento nas mídias que lhe deram espaço. O resultado foi o lançamento direto em home vídeo por aqui, em paralelo ao naufrágio nas bilheterias, haja vista as poucas salas de exibição. Um exagero, do biografado e da crítica implicante, pois o filme não é nocivo esteticamente e traz discussões bastante relevantes sobre o compartilhamento de informações na atual era da cibercultura.

Algumas observações sobre O Quinto Poder se voltaram ao filme como uma narrativa que não toma partido, tampouco se compromete na crítica ao biografado. Creio ser engano, pois os diálogos do protagonista, em paralelo ao desempenho dramático de Cumberbatch deixam claro que há duas vias para se pensar o papel que a Wikileaks estabeleceu na dinâmica informacional contemporânea. Alguns segredos são importantes e devem sim ser divulgados ao mundo, mas a postura frenética de Assange e Domscheit-Berg nem sempre permite a reflexão dos impactos imediatos de tais atitude. Sarah Shaw, a personagem de Laura Linney, até esbraveja num determinado momento: “uma frase mal interpretada por mandar o mundo ao inferno”. Há consciência nos diálogos e eles estão expostos na trama o tempo inteiro, do começo ao fim.

É uma observação consciente dos perigos, acompanhados de outros tópicos que permitem demais reflexões sobre temas ligados ao relacionamento humano com o mundo virtual. O Quinto Poder reflete o que de fato é sigilo e o que é publicidade, aborda a multiplicidade de versões para uma mesma história, dialoga com o fluxo de informações no contemporâneo e expõe como o direito público à informação se redefiniu no século XXI, tal como a fluência das notícias, não dependentes apenas dos suportes tradicionais. Na seara do entretenimento, a produção se alonga um pouco mais do que deveria, dando ao ritmo frenético inicial um pouco de marasmo da metade ao desfecho. Ainda assim, é um filme empolgante e relevante que não se prende ao tom documental de certas narrativas biográficas, sem também santificar ou demonizar seus “mitos”.

O Quinto Poder (The Fifth Estate) – EUA, 2013
Direção:
Bill Condon
Roteiro: Josh Singer
Elenco: Alicia Vikander, Anthony Mackie, Benedict Cumberbatch, Carice van Houten, Dan Stevens, Daniel Brühl, David Thewlis, Hera Hilmar, Jamie Blackley, Jeany Spark, Laura Linney, Michael Jibson, Moritz Bleibtreu, Peter Capaldi, Stanley Tucci
Duração: 124 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.