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Crítica | O Último Samurai (2003)

por Kevin Rick
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O homem branco, geralmente americano, salvando um povo nativo em face a exterminação. Esta é uma história contada múltiplas vezes no cinema em diferentes gêneros e épocas, como por exemplo em Dança com Lobos, A Grande Muralha, entre outros, e se imaginaria que O Último Samurai seguiria o mesmo caminho, entretanto tem algo nesse filme que o distingue dos demais, ignorando o clichê hollywoodiano de que o herói americano é superior aos nativos ou a cultura deles. Entretanto, é importante ressaltar que ainda houve criticismo na época, principalmente quanto a publicidade do filme, que passava uma mensagem não tão sutil encorajando o público a perceber (erroneamente) o homem branco – e não um japonês – como o último grande líder da antiga cultura japonesa. Mas a real mensagem que a fita tenta conceber ao espectador é exatamente o oposto.

O filme conta a história de Nathan Algren (Tom Cruise), um veterano de guerra alcoólatra com nenhum propósito em sua vida, sendo contratado para treinar um exército para o imperador japonês para lutar contra a rebelião samurai durante a Restauração Meiji no Japão do século 19. Na sua primeira batalha, Algren é capturado pelos inimigos e deve passar um tempo com uma cultura nativa completamente diferente da sua, junto de Katsumoto (Ken Watanabe), um samurai orgulhoso, lutando contra o império, enquanto mantém-se leal a tradição do que o imperador representa. O enredo do filme foi inspirado na Rebelião Satsuma de 1877 liderada por Saigō Takamori e na ocidentalização do Japão por potências estrangeiras, embora no filme os Estados Unidos sejam retratados como a principal força por trás desse impulso.

O diretor e co-roteirista Edward Zwick junto do produtor-estrela Tom Cruise fizeram um épico do século 19 que ganha força ao explorar uma série de terrores contemporâneos: o medo do armamento moderno, do comércio frio destruindo a natureza e a cultura antiga, e de uma integridade americana em desaparecimento. A inegável voltagem da estrela de Cruise torna tudo palatável, e o filme é lindo de se ver e ouvir, desde as colinas verdes e os cavalos galopando até a música tema Lohengrin na trilha sonora.

Apesar de Cruise ser a “face” do filme, esta película não é necessariamente sobre seu personagem, mas sim sobre dois guerreiros divididos por culturas distintas. Dois protagonistas representando duas culturas em guerra uma com a outra, aprendendo a se respeitar e eventualmente se tornarem amigos. Entre a comunidade samurai, Algren gradualmente passa a entender seu modo de vida, sua disciplina e devoção a perfeição, encontrando algo neles que achava não existir mais: honra. E no final, acaba decidindo lutar com eles por uma causa nobre. Ken Watanabe traz um poder sereno para seu papel como Katsumoto, o líder samurai, bem como um magnetismo que lhe permite segurar a tela com Cruise. Ele pode parecer um pouco razoável e afável demais para um chefe de samurai da vida real – ou mesmo um chefe de samurai em um filme de Kurosawa – mas ele é o samurai de que esse filme precisa. O fato de Watanabe sobressair-se nas cenas na qual o grande líder faz pouco, exceto acenar maravilhado com a sabedoria de Algren, é uma medida da dignidade inata do ator.

Apesar das sequências de batalha serem épicas, fantasticamente bem montadas e emocionantes, o mais interessante é que o resultado não importa, não é sobre quem vence, e sim o que pode ser provado com a morte. E o foco do filme não é a guerra, e sim sobre esses dois guerreiros, um líder samurai que tenta entender seu inimigo e um homem quebrado procurando paz, testemunhando a cultura samurai em seus dias finais. Na superfície, esses dois personagens não poderiam ser mais diferentes, o que é a maior razão do diálogo entre eles ser tão eloquente e confrontador, e sua relação de amizade tão convincente. E não é apenas os dois, Taka (Koyuki Kato), esposa de um samurai morto por Nathan Algren, irmã do Senhor Katsumoto, Nobutada Moritsugu (Shin Koyamada), filho de Katsumoto, e Ujio (Hiroyuki Sanada), um dos samurais mais dedicados, leais e ferozes da comunidade, são personagens que ajudam o espectador a entender os diferentes papéis, classes e personalidades dessa cultura, enquanto impulsionam e moldam os arcos dos protagonistas, e são bem desenvolvidos em suas próprias subtramas.

Como dito anteriormente, existem inúmeros momentos épicos neste filme, desde a primeira batalha contra os samurais na floresta, até o emocionante combate final, porém existe uma cena em especial que considero umas da melhores experiências visuais na história do cinema. Enquanto está cativo, Algren acaba tendo um duelo com o samurai Ujio, com bastões de madeira. O personagem de Cruise é derrotado múltiplas vezes mas continua se levantando, enfurecendo seu oponente. Afinal, na mente de Ujio, ele venceu após o primeiro duelo. Se as armas fossem katanas reais e não de madeira, Algren estaria morto e o fato de não poder admitir sua derrota é vergonhoso e uma afronta a tudo que ele acredita. Entretanto, na cabeça de Algren, ele ainda não havia morrido, portanto, a luta não havia acabado. Duas formas diferentes de pensamento. Por um lado, se você aceitar sua derrota, você perde com honra e lutar novamente é desrespeitoso, e pelo outro lado, desistir é visto como fraqueza e lutar continuamente é considerado força de vontade. Uma cena vívida e espetacular que serve como metáfora para diferentes culturas do ocidente e oriente, sem sequer a necessidade de diálogo.

A perspectiva de Nathan nos permite descobrir os jeitos simples dos samurais através de seus olhos, e a doída transição de um país que valoriza sinceridade e honra até a morte, para um Japão frio e impulsado pela tecnologia. O final de O Último Samurai encapsula isso de forma perfeita, o fim dos samurais e o começo de um Japão industrializado. O domínio da espada e do arco substituídos pela produção em massa de armas de fogo. Esta era na história japonesa, o confronto entre o antigo xogunato e os modernistas de aparência ocidental, poderia ter sido contada de uma maneira diferente. Poderia ter sido a história de um grande povo escapando das garras do medievalismo e assumindo seu lugar de direito entre as nações do mundo. Mas esse não é o ponto de vista em ação aqui. Os samurais são retratados como disciplinados e sábios, e Zwick leva seu tempo, demorando-se no idílio bucólico de Algren e mergulhando na política japonesa do século 19 e na cultura dos samurais. Nunca para de surpreender como filmes são capazes de nos formar e nos afetar. Este é o tipo de obra que te faz questionar suas próprias crenças e sua forma de vida, entregando um novo apreço e conhecimento por um estilo de vida memorável.

O Último Samurai (The Last Samurai) – EUA, 2003
Direção: Edward Zwick
Roteiro: John Logan, Edward Zwick, Marshall Herskovitz
Elenco: Tom Cruise, Ken Watanabe, Timothy Spall, Billy Connolly, Tony Goldwyn, Hiroyuki Sanada, Koyuki Kato, Shin Koyamada, Masato Harada, Shichinosuke Nakamura, Seizo Fukumoto, Shun Sugata
Duração: 154 min.

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