Crítica | O Vampiro da Noite

Poucas histórias de terror foram tão contadas e recontadas quanto a do Conde Drácula, o Lorde vampiro da Transilvânia criado no romance de Bram Stoker, que deixa a sua terra natal para provocar um reino de terror em Londres. Mas existem dois filmes que cimentaram o imaginário popular em torno desta história. O primeiro é Drácula de 1931, adaptação da Universal que imortalizou Bela Lugosi no papel do vampiro. O segundo é O Vampiro Da Noite de 1958, produzido pela Hammer Film, que já havia investido no terror gótico de forma bem-sucedida no ano anterior com A Maldição de Frankenstein, e que com esta adaptação de Drácula tornar-se-ia definitivamente a nova casa do terror gótico, produzindo uma série de filmes de estilo semelhante nos anos seguintes.

Dirigido por Terence Fisher e escrito por Jimmy Sangstes (que haviam trabalhado juntos no ano anterior em A Maldição de Frankenstein, assim como boa parte da equipe), O Vampiro da Noite toma muitas liberdades em relação ao romance de Stoker, mas possui o mesmo ponto de partida, a visita de Jonathan Harker (John Van Eyssen) ao castelo do Conde Drácula (Christopher Lee), para organizar os documentos do Conde. Este 1º ato é interessante por evocar a natureza epistolar do livro, ao ser narrado por Jonathan como trechos de seu diário à medida em que o homem percebe que não é um hóspede, mas sim um prisioneiro no castelo do vampiro. Fazendo um movimento relativamente ousado ao nos apresentar um falso protagonista na figura de Jonathan, o roteiro sintetiza bastante o material original, reduzindo o numeroso elenco do livro e criando uma conexão de parentesco entre a maioria dos personagens principais, simplificando a trama em uma vingança de Drácula contra uma família.

É interessante (e eu diria até arriscado) que, após este primeiro ato, o roteiro de Sangster opte por manter Drácula fora de tela por boa parte da narrativa, concentrando-se na investigação do Dr. Van Helsing (Peter Cushing) sobre o desaparecimento de seu amigo Jonathan e posteriormente da misteriosa doença que acometeu a noiva de Harker, Lucy Holmwood (Carol Marsh). Entretanto, tal decisão reforça a visão de o filme parece lançar sobre o icônico vampiro, como um ser animalesco que prefere espreitar as suas vítimas do que socializar com elas, não tendo paciência para ficar se infiltrando em círculos sociais, como outras versões do vilão. De fato, o Conde fala somente em sua primeira aparição quando se apresenta para Jonathan Harker, mantendo-se como uma ameaça silenciosa pelo resto da obra. Tal recurso também faz com que cada aparição de Drácula tenha grande impacto, pois cada vez que o vampiro surge em cena, é um evento dentro da narrativa.

Com este filme, Terence Fisher firma-se como o melhor diretor a trabalhar com a Hammer, e um dos grandes cineastas do terror britânico. Sua direção concede ao projeto uma elegância ímpar, ao mesmo tempo em que dá grande erotismo às cenas de ataques, sem nunca vulgarizá-las. Fisher também consegue criar quadros de grande impacto visual, como a primeira aparição de Drácula, visto por Harker como uma enorme silhueta sombria no topo da escada. O diretor é igualmente competente na criação de um crescendo de suspense ao criar planos longos que nos deixam na expectativa de que algo horrível está para ocorrer na tela. Um exemplo é a passagem em que Drácula encurrala Mina (Melissa Stribling) em seu quarto e fecha a porta atrás dele, onde o diretor mantém a imagem da porta fechada por um bom tempo antes de nos revelar o que está havendo dentro do quarto.

Mas claro, O Vampiro da Noite nunca teria sido tão icônico sem a presença dos cavalheiros do horror Christopher Lee e Peter Cushing. Ainda que tenha relativamente pouco tempo de tela, Lee  deixa claro por que seu Conde Drácula se tornou tão marcante. Ao mesmo tempo em que a altura do ator concede grande imponência ao vampirão, Lee interpreta o Conde como uma criatura bestial e fortemente sexual, aspecto esse que era apenas sugerido em versões anteriores. As cenas em que Drácula seduz as suas vítimas possuem uma grande aura erótica, onde o vampiro aproxima-se das mulheres não só de forma faminta, mas também lasciva. É a combinação de selvageria e sedução que tornam o Drácula de Christopher Lee tão memorável, e uma referência na forma como essas criaturas seriam representadas na cultura Popular.

Peter Cushing por sua vez faz do seu Van Helsing um adversário brilhante para o Drácula de Lee. Cushing vive o caçador de vampiros com grande energia, fazendo de Van Helsing alguém firme, que não hesita em tomar decisões difíceis em sua luta contra os vampiros, mas que ainda é capaz de lamentar e demonstrar humanidade pelas vítimas de Drácula. Embora a atuação de Cushing aqui não seja tão lembrada quanto a de Lee, sua leitura de Van Helsing tornaria-se tão influente quanto, ao fazer do médico um homem de ação, que abraça tanto a ciência quanto a fé em sua cruzada contra os sugadores de sangue.

Falando dos departamentos técnicos, devo ressaltar a trilha sonora de James Bernard para o filme, como a música tema de Drácula — cuja melodia etérea quebrada por grandes crescendo combina perfeitamente com a dubiedade sedutora e bestial que define o vilão da obra. Já a direção de fotografia de Jack Asher e a direção de arte de Bernard Robinson concedem um charme todo especial ao projeto, valorizando especialmente as cores, com sombras geradas por luzes levemente azuladas nos contraluzes e uma ênfase no vermelho do sangue, vide o momento em que Drácula revela a sua verdadeira face pela primeira vez, exibindo olhos vermelhos e presas que pingam sangue.

O Vampiro Da Noite, quando comparado aos filmes de vampiro feitos posteriormente, é até brando no que diz respeito à violência e ao erotismo, mas a grande maioria destas produções beberam na fonte do Drácula da Hammer. O filme geraria sete continuações (com Lee como o vampirão em quase todas elas) além de um derivado onde o Van Helsing de Peter Cushing enfrenta outro Lord vampiro. No geral, O Vampiro da Noite pode não ser o melhor filme da fase de ouro da Hammer, mas com certeza é o mais importante.

O Vampiro Da Noite (Horror Of Dracula) – Reino Unido. 1958
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster (baseado em romance de Bram Stoker)
Elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Michael Gough, Melissa Stribling, Carol Marsh, Olga Dickie, John Van Eyssen, Valerie Gaunt, Janine Faye, Barbara Archer, Charles Lloyd Pack, George Benson, Miles Malteson, George Woodbridge, Geoffrey Bayldon
Duração: 82 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.